Notas iniciais
Bem, esse capitulo pode despertar alguma confusão, mas já já tudo se esclarece, prometo!

Subiu as escadas do cortiço as pressas sendo observada com curiosidade por todos por quem ela passava, parou de frente a porta, aquela porta de madeira envelhecida e gasta que sempre batia com a máxima altivez possível. Não foi diferente dessa vez, embora as pernas estivessem bambas, embora tremesse, embora seu coração parecesse que ia saltar pela boca. Respirou fundo, engoliu seco e bateu forte.

Esperou e nada, bateu novamente... nada! Estava impaciente e não esperou mais, adentrou com tudo no quarto dele.

— Mas que falta de educação, deixar-me esperando na porta! – ralhou logo de entrada.

Ernesto saltou da cama como se tivesse levado um choque, incrédulo, olhava para ela como se fosse uma miragem! Mesmo assim ela percebeu sua face abatida.

— Ema?! Es-está... está linda! – sua voz pareceu meio inervada, e os olhos dele brilharam.

Ela lhe alçou as sobrancelhas, ainda agitada e a face corada.

— O-oque...? Ema??! – ele pareceu aperceber-se de algo, coçou os olhos como se para limpar a visão.

— Sou eu mesma, seu italiano bronco! – disse ainda nervosa, embora num resquício de sorriso por causa da confusão dele.

— O-oque... — ele pigarreou, recuperando-se do momento de quimera. — O que faz aqui? E- e ainda vestida assim? Você não deveria está casando-se?

— Não. — ela mordeu os lábios, apreensiva. — Não deveria! Você sabe que eu não deveria.

— Eu não entendo!

— Não entende?! O que não entende? É tão óbvio! Você estava certo Ernesto. Você sempre esteve certo!

A face dele parecia escandalizada. Porque realmente a cena poderia está sendo um pouco demais para ele. Ema Cavalcante a baronesinha do café estava ali parada em sua frente, num quarto de cortiço, trajada de noiva e ainda por cima lhe dizendo que ele estava certo. Só podia ser alucinação!

— Repita isso, por favor... É um momento único na vida! A baronesinha admitindo que o carcamano aqui sempre esteve certo! — ele não pôde o gracejo.

Ela rolou os olhos.

— Não seja idiota!

Ele finalmente sorriu. Um riso largo, lindo.

— O que aconteceu?

— Eu fugi! — ela disse corando. — Fugi da igreja... no meio do casamento!

— Você fez o quê? — Ernesto quase gritou.

— Eu sei, eu sei... fui uma inconseqüente, Ernesto! Meu Deus! — ela passou as mãos pelo rosto. — Como pude deixar isso ir tão longe, como? Como pude fazer isso com Jorge?! — ela começou a se agitar, sentiu as lágrimas virem à seus olhos, porém sentiu os braços fortes e quentes a envolverem, e nunca se sentiu tão acolhida na vida.

— Sente-se aqui, baronesinha! — ele a encaminhou até a cama, ainda a abraçando, depois a abrigou em seu peito, deixando-a chorar.

Ema ouvia o coração dele bater agitado sobre o peito em que estava recostada. Ernesto a aquecia em cada gesto, e ela se perguntou naquele momento como poderia viver sem aquilo. Por muito pouco perdera, e chorou por isso, chorou pensando em quão vazia seria a sua vida sem aquilo. Abraçou-se mais apertado a ele, e ele a ela, numa necessidade infundada de tê-lo cada vez mais próximo, levantou a cabeça em sua direção, tão perto, tão próximo, ela não resistiu, beijou-o.

E ele não demorou um minuto para corresponder-lhe, a abraçando com ainda mais força, a apertando contra si, como se com medo que ela pudesse simplesmente desaparecer, ou escapar de suas mãos. Mal sabia ele que está seria a última coisa que ela faria. Ema queria, se fosse possível, se fundir a ele, e então sim, com ele, com seu italiano mal criado tornarem-se um só.

O beijo era intenso e apaixonado, suculento como sempre fora, porém tinha algo mais, tinha uma pitada a mais de certeza, de posse, e de desejo! Apertavam-se um no outro e com as mãos também sedentas descobrindo cada pedacinho de pele que se escapava dos tecidos das roupas.

Aquilo estava ficando insano, ela não conseguia raciocinar e a cada toque de Ernesto uma corrente elétrica perpassava seu corpo. Sentia-se quente por fora e um frio aconchegante por dentro, a palavra era extasiada, talvez. Separam-se apenas quando ouviram batidas fortes na porta, e só então se deu conta que já estava deitada na cama com o italiano sobre seu corpo. Corou imediatamente, mas do que possivelmente já estava.

Ele levantou-se meio desconcertado, estendendo a mão para ela que se aprumou, sentando-se na cama pondo-se apropriada.

Novamente as batidas na porta.

— Ernesto! — era a voz de Aurélio. — Ernesto! Ema está aí?

— Não abra — ela sussurrou.

Ele alçou uma de suas sobrancelhas, a fazendo entender que eles precisavam enfrentar aquilo. O viu ir até a porta e a abrir. No estante seguinte Aurélio e Jorge adentravam o quarto.

— O que está havendo Ema? — perguntou-lhe o pai.

— Ema, o que.. o que está fazendo? — perguntou Jorge, o olhar perdido entre ela e Ernesto e às lágrimas novamente o ameaçando. Ela se recriminou novamente. Como pôde ser tão cruel com ele?

— Eu sinto muito Jorge! Não tenho como me desculpar, mas... eu simplesmente não podia!

— Mas precisava ser daquele jeito, Ema?! Deixando-me plantado no altar na frente de todos! — pela primeira vez na vida, Ema via Jorge perto de perder o controle.

— Eu lamento!

— Você lamenta? Por acaso tem idéia das consequências de seus atos? Como pude ser tão cego? — ele passou as mãos, exasperado, pelo rosto, apesar disso educado como sempre, não levantou nem um pouco a voz. — Você é e sempre foi uma menina mimada, e eu me deixei cair de amores... Como pude ser tão estúpido?!

— Não fale assim, Jorge! — ela levantou-se e pensou em ir até ele, mas logo entendeu que não ajudaria. — Eu entendo que esteja me odiando agora, mas, por favor, não fale assim!

— Como espera que eu fale? Como espera que eu me dirija a você novamente?! — embora ele estivesse bravo, Ema via a dor titilar em seus olhos, odiou-se ainda mais. Não amava Jorge como homem, mas o amava como amigo, e magoá-lo lhe causava grande dor.

— Perdão! — pediu, era o único que lhe restara.

— Perdoar? — Jorge suspirou. — Não me peça isso, você simplesmente não tem esse direito! — ele novamente olhou dela para Ernesto e para ela novamente. — Quero ver por quanto tempo poderá viver assim sem seus vestidos, sem seus bailes, seus sarais...

— Como pode pensar isso de mim, Jorge?

— Você me faz pensar pior!

Dito isso e lhe lançando um olhar de dor e desprezo ele saiu do quarto. Ema dilacerada virou-se para Aurélio.

— Papai, eu...

— Não! — Aurélio se afastou, seu rosto severo como Ema nunca vira antes. — Nunca senti tamanha vergonha em minha vida! Como pôde fazer isso conosco?

— Papai, eu... eu só estava indo atrás da minha felicidade, como o senhor me fez prometer que faria!

— E precisava ser desse jeito, Ema? Magoando desse jeito o Jorge? Colocando-nos no ridículo?! Tem idéia de como está o seu avô? Você teve tanto tempo, fora tantas vezes alertada, para agora... isso?! Que decepção!

— Papai!

— Que decepção, meu Deus! — repetiu ele com a palavra definindo seu olhar, Ema nunca se sentiu tão miserável. Embrenhou as mãos pelos cabelos já despenteados, com as lágrimas novamente lhe escorrendo, caiu na cama novamente. — Vou voltar para o hotel, seu avô quer voltar imediatamente para o Vale do Café.

— Ele não quer me ver?

— O que você acha? — Aurélio deixou a pergunta no ar e saiu.

Tudo estava desmoronando. Ela entendia seu erro, mas achou que ao menos seu pai e seu avô a entenderia, já que ambos a fizera prometer que seria feliz.

— Ele tem razão! — ela ouviu a voz de Ernesto, firme, rouca, afetada.

— O que? — ela o olhou, embora a vista estivesse embaçada.

— Ele tem razão! — repetiu, ele estava recostado no canto da parede a observando.

— Quem?

— Jorge!

— Não estou entendendo.

— Como ficará comigo, Ema? Eu não tenho nada para lhe oferecer...

Ela levantou-se o olhando espantada.

— Ernesto, por favor, eu...

— Não. Jorge tem razão! Você tinha razão! — ele não a olhava, mirava um ponto no ar que só ele podia enxergar. — A senhorita... — ela percebeu que ele se corrigira. — tinha razão quando disse que não podia ficar comigo. Eu não a faria feliz, a senhorita sempre esperara mais de mim do que eu poderei lhe dar.

— Ernesto — ela aproximou-se dele. — Isso não é verdade! Eu quero você — o choro já a fazia soluçar. — Eu quero ficar com você para sempre, não importa onde ou como....

— Não sabe o que está dizendo! — ele afastou-se dela. — Eu não devia ter ido ao seu quarto ontem... Eu... — ela o ouviu soluçar. — Preciso pensar.

E ele também saiu porta a fora a deixando lá, chorando, despedaçada, desesperada como se o mundo tivesse se aberto a seus pés... Um grito agudo rasgou sua garganta, um grito de terror e de dor.

Estava sozinha!

...

Notas finais
Confuso? Espero que não! Mas, no próximo capitulo vamos esclarecer as coisas. Eu tentei realmente analisar os sentimentos de cada personagem diante da situação! "Às vezes agimos pensando apenas em nossos sentimentos, querendo nos proteger, querendo realizar as nossas vontades! Mas, quando os sentimentos são contrários as nossas vontades... agora entendo que não é inteligente lutar contra eles, uma hora ou outra eles vencem, e sabe-se lá o estrago que você já terá feito tentando controlá-los, e em vão." (Ema Cavalcante) Próximo Capitulo: A Realidade Até lá!