Realidade em conto de fadas
6 A profecia
Notas iniciais
Eu havia chegado cinco minutos atrasada de propósito. Benjamim estava à minha espera sentado na borda da fonte com uma venda em suas mãos, fofo. Ele é um cavalheiro e tanto. Quando eu cheguei perto e ele me viu deu um sorriso muito charmoso. Jesus acende a luz, ou como eu costumo dizer me abana porque essa imagem era perfeita.
Ele estava usando uma camiseta de algodão branca e uma calça jeans de lavagem clara, a qual eu não consegui identificar a cor, eu estava tão distraída com aquela visão que os detalhes nem importavam para mim.
Tenho que dizer que quando ele me viu seus lindos olhos azuis brilharam, sem querer me gabar ou coisa assim. Eu fui ao seu encontro e quando eu havia chegado ele me deu um abraço e pegou minhas mãos e me saudou com seu entusiasmo.
Eu estava com um vestido azul bebe de bojo, sua saia era rodada e nos pés eu usava uma rasteirinha brilhante, e claro que a maquiagem era básica e meus cabelos estavam presos em um coque despojado, um coque moderno com uns enfeites no cabelo.
– Que bom que você veio – Disse Benjamim depositando um beijo no meu rosto – Está preparada para o maior piquenique da sua vida? – Ele disse um tanto empolgado segurando minhas duas mãos.
– Acho que estou sim, mas para que as vendas? – Eu disse fazendo sinal para as vendas que estavam entre nossas mãos.
– Eu reservei um ótimo lugar para o piquenique, então queria que você visse tudo de perto – Ele disse – Se você não estiver com vendas verá de longe o que eu planejei e perdera a graça. E a graça é isso. – Ele solto minhas mãos – Se me permitir – Ele disse colocando delicadamente as vendas nos meus olhos e eu sorri.
Ele pegou uma de minhas mãos e com a outra eu segurei em seu braço. Ele era forte, eu tenho que admitir. Ele me guiou por menos de três minutos eu acho e depois me posicionou de frente para algo, ou sei lá pois eu estava vendada.
– Vou tirar as vendas, mas – Ele disse gentilmente – Você tem que ficar de olhos fechados. – Foi o que eu fiz, ele tirou a venda e eu fechei os olhos esperando sua ordem para poder abri-los e nem demorou muito – Pode abrir – Ele disse e eu abri meus olhos.
Na minha frente havia esticado uma manta com a estampa xadrez em vermelho e branco. Em cima da manta havia uma cesta fechada. Observação: a manta era bem grande. Em cima da manta tinha umas duas almofadas, uma vermelha e a outra branca, que provavelmente era para sentar. Essa manta estava localizada debaixo de uma arvore cheia de flores brancas. Parece cena de filme. Acho que apenas isso seria o suficiente, mas não era só isso. Benjamim prendeu uma flor branca ao meu cabelo, fofo.
– Bem – Eu suspirei – Estou sem palavras para descrever o quanto isso está perfeito – Eu disse o abraçando, ele estava ao meu lado em todo tempo que eu admirava aquela visão.
– Que bom que gostou – Ele disse me soltando – Agora vamos comer, antes que as formigas ataquem a comida primeiro. – Ele disse me puxando para me sentar naquela linda manta, que por sinal era muito cheirosa. Fiquei surpreendida com seu cuidado com aquela manta. Estava tudo perfeito, a manta sobre a grama, a arvore com flores, o cheiro da comida e até Benjamim estava perfeito.
– Então? – Eu perguntei me sentando em posição de índio sabe e colocando a almofada branca sobra eu colo – O que você preparou para hoje?
– Frutas, Sanduiches e suco natural – Ele disse tirando algumas frutas e sanduiches da cesta de piquenique e logo após tirou uma jarra de suco natural de laranja e dois copos com canudos.
– Parece bom – Eu disse empolgada. Ele também estava sentado do mesmo jeito que eu – Alias, ontem você me disse que precisava conversar comigo sobre algo importante!
– Minha nossa eu havia esquecido – Ele disse colocando uma de suas mãos sobre seu cabelo – Podemos deixar para outro dia? Quero curtir hoje!
– Claro, sem problemas. – Então eu comecei a puxar assunto – Como seu irmão se chama? – Que ridículo, sério que não tem nada para perguntar de mais interessante.
– Cold e a sua irmã?
– Elena – Meu Deus olha o que eu fiz, essa conversa vai ser um saco – Me desculpe, mas estou muito curiosa sobre uma coisa! – Eu declarei. Mentira eu nem queria saber naquele momento sobre aquilo, mas não veio mais nada na minha cabeça.
– Claro, pergunte o que quiser – Ele disse – Por isso que estamos aqui certo?!
– Sim, claro – Eu comecei – Que aventuras você escutou do meu pai, sendo que eu nunca ouvi falar sobre isso.
– Esse já é um assunto que inclui em outro assunto que preciso falar com você. – Ele disse.
– O que meu pai tem com esse assunto? – Eu perguntei, já estava achando tudo muito confuso. Aí eu te pergunto, desde quando eu não sou confusa? Minha vida em si é uma confusão.
– Tudo, mas o importante mesmo não é seu pai, mas sim você na conversa. – Ele disse.
– Não sei se quero falar sobre mim entende. Eu não gosto de falar sobre mim.
– Tudo bem então, mas ainda precisamos conversar.
– Você quer conversar agora?
– Apenas se você quiser – Ele declarou. Eu estava tão curiosa e confusa, como sempre, que tinha que saber.
– Por favor, acho que no momento esse é o nosso único assunto – Eu disse sorrindo e ele fez o mesmo.
– Não sei se é uma boa ideia Princesa – Ele disse.
– Gostei desse apelido – Eu falei pegando umas uvas nas mãos, ele havia oferecido com um simples gesto – Você me chama de princesa e eu chamo você de Bem ou príncipe?
– Na realidade gosto de apenas Bem, mas você é realmente uma princesa. – Ele disse um pouco hesitante – É isso que tenho a te dizer.
– Que eu sou uma princesa?
– Sim. Safira seus pais, mais precisamente sua mãe é a princesa do nosso povo, você tem ideia de como você é importante?
– Espera aí – Eu fiz um gesto com as mãos – Minha mãe? Como assim? E ainda quero saber sobre meu pai.
– Vou começar a explicar, mas eu peço que me escute até o fim e quando tiver alguma dúvida é só perguntar – Eu apenas escutava confusa, eu me assustei com aquela notícia que era mentira com certeza.
“ Eu sei que você é imortal e sei que seus pais também são. Nós imortais estamos vivendo há séculos em um reino distante daqui. Quando a sua vó a princesa Celeste se apaixonou por um plebeu, ela teve uma filha, sua mãe. O amor da princesa com o plebeu era considerado proibido pelo rei, pois o rei tinha um desgosto enorme pela família desse plebeu. Então sua avó a princesa Celeste foi obrigada a fugir quando ficou gravida e depois de ganhar a sua mãe ela foi obrigada a voltar para o reino. Ela deixou a sua mãe na porta de uma família rica que não tinha como ter filhos, mas tinha muita vontade. Ela amava a sua mãe e fez sacrifícios por esse bebe. Se o rei soubesse da existência de sua mãe nem sei o que poderia ter acontecido na época. ”
– Isso não pode ser verdade, é uma história triste demais para ser verdade – eu disse séria, ainda não acreditava em suas palavras – E o meu avô? O que aconteceu com ele?
– A princesa chantageou o rei dizendo que se não autorizasse o casamento iria se tornar mortal e ia acabar com a linhagem real. – Ele disse – O rei acabou cedendo por força, claro que o seu bisavô tentou matar a alma gêmea de sua vó, mas não conseguiu.
– Como assim? Isso não é possível! – Eu disse ainda incrédula, como sempre esse era outro defeito meu – pessoas imortais não podem morrer e nem virar mortais sem perder a alma eu acho?
– Está enganada – Ele disse comendo um morango, enquanto ele falava eu me deliciava com as frutas. – Podemos virar mortais e podemos ser mortos, mas não explicarei nesse momento como, é muito complicado.
– Afinal, como você sabia disso, que eu era imortal? – Eu perguntei comendo morangos.
– Você é uma lenda, sua família é uma lenda.
– Tenho mais uma pergunta!
– Diga.
– Me parece nesse momento que você sabe de muitas coisas, eu gostaria de saber porque eu sou imortal e minha irmã, não é? E seu irmão é imortal?
– Quando dois imortais se unem e tem filhos, apenas o primeiro é imortal e os outros nascem normais. E não, meu irmão não é imortal. E foi por isso que o rei cedeu a chantagem de sua avó, pois suas filhas morreriam um dia por serem mortais e ela era a primogênita. – Ele parecia imaginar ou lembrar de algo por sua expressão distante no rosto – Ela é a única filha do rei que está viva atualmente.
– Quantos anos ela tem? – Eu perguntei – A princesa Celeste.
– Ela tem setecentos e oito anos – ele disse. Eu fiquei assustada pois nunca me imaginei tão velha assim – E o rei completou três dias atrás novecentos e noventa e sete anos – Fiquei mais espantada ainda, só podia ser mentira.
– Minha nossa – eu disse com as mãos no meu peito – E quantos anos o resto tem? Isso inclui minha mãe, meu pai e você.
– Sua mãe tem quatrocentos e cinquenta e dois anos – Ele falou como se fosse obvio, como se eu já soubesse disso, mas a verdade é que eu nunca ousei perguntar sobre isso, na realidade eu nunca tive coragem de perguntar isso para ela. Ele continuou – Seu pai tem quatrocentos e noventa e nove anos e eu – ele fez uma pausa – Tenho dezesseis anos, praticamente dezessete pois daqui há dois meses eu farei aniversário.
– Deus – Foi o que eu consegui dizer. Eu praticamente cai para traz, como pude me apaixonar por ele – O.K. – Me lembrei de uma coisa – Incrível não?
– O que é incrível princesa? – Ele perguntou curioso.
– Nós nos esbarramos bem no dia do aniversário do rei – Eu disse jogando verde para colher maduro. Ele me olhou com uma cara de que tinha sido e não sido obra do destino, confuso – O que foi? Foi planejado?
– Não Princesa, quer dizer – Ele hesitou – Não sei se tem como explicar – ele estava sentado ao meu lado e chegou mais perto de mim, como se estivesse pedindo, mas eu virei meu rosto – Obra do destino, eu não tinha o objetivo de esbarrar em você, só de cuidar de você.
– Eu sei me cuidar sozinha sabia – eu olhei sério para ele. Naquela hora eu pensava que tudo aquilo não era real para ele, ele tinha que cumprir um papel, ele estava me vigiando. Eu me senti uma idiota. Naquela hora veio tudo a minha mente, ele não havia dito “eu sou imortal” ele havia falado palavras que confirmavam que ele era imortal. Ele se abriu comigo tão rápido, ele abriu o jogo ou parte dele. Será que faz parte do seu plano? Será que ocorreu mesmo a ligação? Acho que nunca saberei.
– Interessante, mas era isso que você queria dizer a mim? – Eu perguntei – Só isso?
– Tem mais – ele disse – Quando o rei completar mil anos ele terá que escolher entre deixar o trono e continuar sendo imortal ou ficar no trono e morrer em meses.
– E? – Eu perguntei. Fingia não estar interessada, mas aquilo me assustava.
– Quando sua avó se apossar ao trono precisaremos de uma princesa.
– E nesse caso essa princesa seria minha mãe, mas ainda faltam três anos para isso – eu disse despreocupada. – E por que você está falando comigo se quem importa é a minha mãe?
– Se o seu bisavô morrer, o amor dele morrerá junto com ele – ele completou. Eu havia entendido o que ele queria dizer com isso – você entendeu?
– Sim entendi. Isso é péssimo – conclui muito preocupada, mas ainda faltava três anos, mas eu não estava preparada – Se o amor dele morrer, minha avó também morrerá e junto dela seu amor, fazendo com que minha mãe morra também e depois vem eu. Eu morrerei. – Isso é pior quando dito em voz alta – E você acha que ele pode morrer? Será que ele não largará o trono?
– Pode ter certeza que esse é o menor de seus problemas agora – Ele disse – Tem mais uma coisa que não contei ainda. – Ele disse. Mais do que já estava sendo não era possível – Ainda tem a profecia.
– Profecia? – Eu perguntei confusa.
– Sim, e é aí que você entra.
– Como assim? – Eu perguntei ironicamente, eu comecei a balançar a cabeça e rir feito louca. Aquilo foi a gota d´agua, literalmente.
– Você vai achar mais graça ainda quando eu te provar que isso é verdade.
– Está bem então, comece a explicação. – Eu disse parando de rir um pouco e tentando me concentrar no que estava ouvindo.
– A profecia diz que no aniversário de novecentos e noventa e sete anos do rei soberano – Ele começou a explicar — Dois jovens por ironia do destino se encontrariam.
“ Esses jovens por acaso seriam de linhagens reais e se ligariam de uma forma tão forte que nem as ciências humanas conseguiriam explicar. O amor desses jovens traria grande caos sobre os sete reinos imortais ainda vivos hoje. Essas almas unidas libertariam o seu povo e conquistariam a paz que é o maior desejo entre os reinos, que estão em guerra há séculos por sérios ocorridos no passado. Esses dois jovens se tornariam soberanos e virariam lendários por todo os dois mundos distintos. A pessoa que profetizou se tornou lenda, ela deixou bem claro que esses jovens teriam imensas lutas para enfrentar, mas eles teriam duas opções, ou eles salvariam o seu povo ou causariam a sua própria morte. Permaneçam e fiquem firmes, não se desviem ou virá a extinção, disse a pessoa que profetizou”
Fiquei com tantas perguntas martelando a minha cabeça, eu não consegui pensar em mais nada. Essas simples palavras abriram portas para milhares de possibilidades. Eu podia ser essa pessoa, mas também tinha a probabilidade de não ser essa pessoa. O Benjamim me encontrou por ironia do destino? Ele praticamente havia dito que foi tudo planejado e me fez duvidar de que aquilo tudo era real. A profecia não havia dito se era alguém imortal, portanto pode ser qualquer pessoa de linhagem real, e quem garante que se for a minha pessoa eu possa salvar a todos. Estou pensando seriamente em não fazer nada, ficar no meu canto. Espera um pouco. O que isso tem a ver comigo? Como isso provou que era verdade?
Sete reinos? Dois mundos? Esses jovens? Amor e ligação? Acho que fazer essas perguntas na minha cabeça só pioravam as coisas, e o pior e que se interpretar a profecia, pode se notar que há muita coisa em jogo. E se isso tiver relação com os mil anos do rei soberano, meu bisavô? Não pude deixar de ligar as coisas. Preciso de respostas, mas se eu fizer perguntas posso parecer tola. Se eu perguntar se ele é de familia real estarei afirmando praticamente que nós somos os jovens da profecia, eu o conheço a três dias e estarei dizendo que praticamente temos uma ligação que a ciência não pode explicar? Eu não ia ser tola a esse ponto, não ia me abrir, intimidade demais em pouco tempo caramba.
– Isso coloca muita coisa em jogo Benjamim – Apoiei minhas mãos sobre a cabeça e fechei os olhos e depois os abri – sabe a importância disso? – Eu estava pasma – mas quem garante que sou a jovem? E como assim você tinha a função de cuidar de mim?
– Você era a provável jovem nessa profecia, eu cresci com as pessoas falando para mim do meu nobre dever de cuidar de você, tínhamos certeza de que era você o tempo todo- ele se aproximou o suficiente para fazer o que ele queria, e dessa vez eu o deixei. Ele estava segurando meu rosto com as duas mãos e estava nervoso – Você é da realeza, é jovem e tem poderes, era a opção perfeita.
Tínhamos? Poderes? Eu ERA a provável?
Para deixar claro nessa época eu não sabia dos meus poderes. Só tenho uma coisa a dizer: tudo virá à tona na hora certa.
Fale com o autor