Realidade Virtual
1 Realidade Virtual
Notas iniciais
“Aos 24 anos, eu conheci Karen, minha esposa. No ano final do nosso curso. Eu me tornei engenheiro, e ela, médica.
Aos 29 anos tivemos nosso primeiro filho, decidimos ir para uma casa maior.
Com 33 anos virei subgerente de uma empresa.
Aos 35, descobri que vou ser pai de novo. Karen iria ter o filho ontem, eu estava com ela e adormeci na poltrona do hospital. E quando acordei, estava dentro dessa sala acolchoada. Eu realmente não sei o que estou fazendo aqui. Na verdade, nem sei onde estou.
Gritei por horas por alguém, mas ninguém apareceu. Agora não passo de um homem de roupas brancas encolhido no canto da parede. Mas que diabos é isso?”
Tempos depois, não se sabe ao certo o quanto. Não havia nenhuma referência visual. E uma situação estranha como essa mexeria com o nervo de qualquer um, apareceu um senhor de cabelos grisalhos. Usava roupas de doutor, ou de cientista. Ele olhou para o homem encolhido no canto.
— Como é o seu nome?
Alguns segundos depois, como se estivesse perdido em pensamentos, o homem se levanta e olha para ele, com o coração acelerado.
— Eu me chamo Peter. O que aconteceu? Onde estou?
O cientista então dá um suspiro de reprovação enquanto limpa os óculos na roupa. Após recolocá-los, torna a falar.
— Você se chama SapiensDroid. Número de série: 001-0.
— O... o que disse? – Peter franziu o cenho, como se estivesse ouvindo a maior loucura do mundo.
— Indo direto ao assunto, você não é humano, Peter. Você é um robô. Uma máquina. – ele cuspia as palavras com precisão.
Peter apenas o olhava, tentando achar alguma lógica naquelas palavras. Aquele velho era louco ou o quê?
— Escuta aqui, seu velho doente. Ou você me tira agora, ou eu vou acabar com você! Onde eu estou? Cadê minha esposa?
— Você nunca saiu daqui, Peter. Você foi construído aqui. Sua esposa não existe, ela é só uma ilusão.
Peter se alterou visivelmente, a raiva e a falta de direção aumentando.
— Cala a boca! Cala a boca! Você é um velho nojento e louco! O que acha que eu sou? Um idiota para dar ouvidos a você? O que quer que eu faça?
Peter deu alguns passos na direção dele.
— Quer que eu aperte algum botão no meu corpo e então eu me desligo? É isso? Se eu sou robô, por que eu me pareço tanto com um humano? Pelo amor de Deus.
O cientista não se abalou nem um pouco.
— Para acreditar que é um humano. Essa atitude já era esperada. Você foi criado para isso.
Peter, mesmo alterado, confuso e com medo, percebe que se exceder não vai dar em nada. Aquele velho era bem frio.
— Certo, me explique então. Tente me convencer. Se não conseguir, vai me tirar daqui.
O cientista sabia que ele não seria convencido assim, mas aceitou falar. Era o primeiro passo para a aceitação.
— Você foi criado há dois anos. É o produto de décadas de estudo. Nosso intuito era criar um androide tão perfeito, que ele mesmo achasse que era um humano. Criamos sensores e mecanismos semelhantes ao sistema nervoso. Conseguimos criar projetores de pensamentos e emoções. Nós realmente queremos colocar você e outros iguais na sociedade. Mas precisávamos calcular os riscos.
O olhar do cientista era sincero. Sincero demais.
— Por isso criamos uma realidade virtual. Uma matrix. Você foi o nosso primeiro teste. E deu certo.
— E o que vão fazer se eu não acreditar em vocês? Me reprogramar? – respondeu o suposto robô, com sarcasmo.
— Não, vocês não são reprogramáveis, assim como nós, humanos.
— Cadê minha esposa?
— Ela não existe Peter. Foi só uma ilusão.
Nesse momento, o cientista leva um soco na boca, caindo no chão, e Peter sai correndo pelos corredores. O cientista grita atrás, pedindo pra ele parar e com alguns guardas armados. Peter começa a subir as escadas daquele lugar e vai parar no terraço. Estava uma ventania muito forte, e para sua surpresa, o prédio ficava numa pequena ilha rochosa, à beira de um precipício onde as ondas batiam violentamente nas rochas.
O cientista e os guardas chegam e Peter vai pra ponta do prédio, balançando um pouco, e com o coração na boca.
— Venha conosco Peter. Iremos provar a você.
— Maldito! Quem você pensa que é pra fazer isso comigo?
— Eu sou seu criador Peter. Venha, foi tudo uma ilusão. Sua faculdade, seus pais, sua empresa, mulher e filhos, nada disso é real.
— Para de falar merda! Me tire daqui! Você não sabe do que sou capaz!
— Nada do que você sente é real Peter. Amor, ódio, tristeza, frustração, dúvida. Família, amigos, diversão. Nada disso existiu. Esses pensamentos, nós que te demos. Não ganhamos nada mentindo pra você.
Peter o olha, com um olhar vago. O cientista se aproxima. "Quem sabe ele tenha ouvido minhas palavras. Talvez agora ele ouviu meus argumentos. Céus, ele tem que acreditar que é um robô."
"Eu não posso acreditar nesse velho louco. Tudo o que ele diz é tão fantasioso. Que droga é essa? Acha que eu vou acreditar naquela história? Minha esposa é real, meus filhos são reais, minha vida, meus amigos, todos são reais. Eu vivi tudo. E agora tinha um cara dizendo que nada daquilo foi real. Que nada existiu. E que eu não sou humano, nada em mim é real. Mas eu sei que é real, eu sou real. Eu existo... mas, eu...vou acabar com essa dúvida agora."
Peter então dá alguns passos para trás, pisando no vazio e caindo em direção às pedras e ondas. E antes que seu corpo jorrasse sangue, ou fluídos lubrificantes, ele pensa, com toda convicção.
"Eu existo..."
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