Realidade Paralela
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Estava cedo; cedo demais, eu diria. Perfeito! Era por essas horas que se podia me encontrar. A rua era vazia, alguns altos portões, grades e cercas elétricas nas casas, cães e gatos se "divertindo" entre si, urubus rasgando os sacos de lixo estocados ao fim do percurso procurando o que os dava forças para continuar voando e tornando cada vez mais belas as noites frias e sombrias, as quais faziam brotar minha inspiração.
Inspiração, inspiração; o que seria de mim sem você? Obrigado, minha amiga, pois és aquela que jamais me deixa sozinho. Banhado pela majestosa luz da lua e respirando aquele ar. Ah, que gostoso... Que doce o odor do lixo acumulado no terreno baldio o qual me servia de berço. Berço meu, onde por tantas vezes ninei ao som de miados inexprimíveis dos felinos que lá residiam. Quanta falsidade deles, nunca esboçaram qualquer tipo de consideração por minha presença, estavam sempre a me contemplar em meus devaneios, sempre com tanta veracidade em seus penetrantes olhares... Olhares! Quanta ironia! Todos sabem que eu adoro olhares, não só vocês, habitantes da área, mas as visitas que recebo todas as noites em meu humilde recinto. Olham-me por todos os lados. São verdadeiramente muitos olhares, não sei distingui-los, não sei nem em qual devo prestar mais atenção, mas sempre tem um que me prende. Aqueles grandes olhos amarelos, possuidores de uma minúscula pupila, expressando tanta dó. Oh, coitadinhos, se compadecendo de mim, é bom saber que eles me têm pena.
Um lápis e um pedaço de papel eram suficientes para arrancar de minhas entranhas o que havia de oculto; oculto o bastante para que nem mesmo eu compreendesse o que fizera. Era feio; tinha tudo para me envergonhar, mas não; inexplicavelmente eu não sentia nenhuma vontade de me desfazer de minhas artes. Desenhos de luz, incluindo anjos, coroas, vestes; completamente incompreensível para mim. Quando escrevia citava em meus textos ruas feitas de ouro e cristal. Insano não é? Meus amigos também concordam com isso, eles me ajudam a entender que essas loucuras não precisam ser passadas adiante, afinal, é mais fácil cortar a raiz enquanto pequena, antes que se torne uma grande árvore; eu é que tinha que cortar, afinal eles não tinham condições físicas para isso, e se quisesse me livrar, teria que ser "eu" a cortar essa raiz. Imediatamente ignorei a paz que sentia ao fazer aquelas coisas, e num só puxão rasguei ao meio as folhas que usara para isso, depois as lancei àquele terreno baldio, que já não suportava mais lixo, e uma brasa, jogada por meu amigo "dos olhos amarelos", se encarregou de transformar minhas idéias em cinzas. Questionei, mas me dei conta do erro que cometia ao expressar idéias distintas à minha realidade.
Já era tarde, bastante tarde, e minha amiga Lua estava pronta para se pôr. Estava prestes a amanhecer, e, despedindo-me de meus companheiros matutinos é que me recolhi ao meu alojamento. Dormi num sono profundo, sustentado por meus amigos, que não me deixavam em momento algum, enquanto aguardava ansiosamente pela noite seguinte.
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