Realidade Estranha
6 Hostilidade
Notas iniciais
— Elena, oi, como você está? — Perguntou Nick, encostando a bochecha dele na dela.
— Eu fiz o que o disse. Deu certo.
— Que bom. — Disse surpreso.
Renata viu que Elena entrara na sala e foi logo falar com ela.
— Elena! Onde é que eu vou almoçar hoje? — Perguntou Renata, curiosa.
— Eu não sei. Por que não me diz você? — Respondeu mexendo a cabeça para os lados.
— Você entendeu o que eu quis dizer. Vai, fala, por favor. Prometo que não peço mais.
— Está bem, se você não pedir de novo.
Ela se concentrou. Nick cruzou os braços, não gostava muito de ver a Renata fazendo Elena ter visões por causa de algo tão irrelevante. Renata estava esperando; de vez em quando, sem perceber, esbarrava no Nick. Ele não se incomodava, mas pelo contrário, até gostava daquilo.
Elena estava com um semblante espantado. Nick perguntou o que ela viu.
— E aí?
— Eu não consegui! Uh, eu não sei o que aconteceu! A minha visão falhou!
— Calma, Lena, talvez você não tenha se concentrado direito. — Disse Renata, apelidando a amiga.
— Já chega. Ela não vai tentar de novo. Elena, não se preocupe, eu vou dar um jeito nisso. — Nick estava bravo com Renata.
Eles foram para os seus respectivos lugares. Já que as cadeiras eram mapeadas, sentaram-se espalhados. A professora Jovelina, de biologia, chegou em seguida.
Nick discretamente trocava mensagens de texto com Alan, contando a ele tudo o que aconteceu.
— Na próxima eu tomo. — Disse Jovelina ao não tão discreto Nick, morrendo de vontade de castigar algum aluno.
— Perdão, professora.
Terminando de explicar a matéria, ela mandou os alunos lerem algumas páginas do livro e ligou seu laptop, que dava acesso às câmeras da sala. Pela tela dividida do computador, podia ver gente dormindo, desenhando, cochichando, se coçando e Nick mexendo no celular novamente.
Não era apenas uma questão de disciplina. Seu problema com ele já era pessoal. Não sabia mais o que fazer; já aumentara a dificuldade das provas, passara longos trabalhos com prazos curtos, e nada adiantou para fazer Nick tirar uma nota baixa.
Talvez agora isso fosse possível. Depois dois anos, essa seria sua chance de mandar o garoto para a diretoria. Ela, satisfeita, caminhou na direção dele, estendeu a palma da mão aberta para cima e disse:
— O que eu falei?
— Desculpe, professora, só fui ver a hora. Já estou guardando. — Mentiu Nick.
— É uma norma da escola, sinto muito. — Ela balançava a mão, num gesto repetitivo e irritante, que contradizia o que falava.
— Brigou com o namorado de novo, professora? — Perguntou Alan, com entonação e olhar de desafio e um ar de superioridade, já que sabia exatamente o que se passava na mente dela.
Enquanto isso Nick escondia o aparelho no bolso.
— Co-como assim? Gaguejou, tentando dissimular o espanto.
A turma toda riu da expressão dela, dos olhos arregalados e da voz fraca.
— Não precisa ficar com tanta vergonha. — Provocou Renata, se divertindo com a situação.
— Basta! Eu vou chamar o inspetor.
Ela chamou mesmo o inspetor. Era o mesmo de ontem, quando a Roberta tentou bater na Renata. Ele chegou junto com outra inspetora, uma baixinha gorda, que mais parecia uma bola de basquete, mas com uma cara de quem comeu e não gostou.
Jovelina explicou o que estava acontecendo, claro que exagerando bastante. Nick e Alan foram levados para a coordenadoria.
Lá, o coordenador, já conhecido por eles, perguntou se estavam bem e o que foram fazer na sala dele. Depois disse que era para eles serem mais discretos ao usar o celular na sala de aula. Contou também que ouviu boatos que a professora de biologia estava enfrentando alguns problemas pessoais, que por isso deveriam ter paciência com ela. Enfim, o coordenador os tratou muito bem, tanto que nem deu advertência ou suspensão. Apenas quando os inspetores se aproximaram da sala que ele engrossou a voz e disse:
— Desta vez passa, mas na próxima... — E continuou:
— Nós estamos entendidos, rapazes?
Os dois terminaram de falar com ele e subiram para a sala. Não teriam tempo para conversar por enquanto, por isso tiveram que deixaram para a hora do almoço.
Eles chamaram a Elena e despistaram a Renata, que ficou procurando o grupo. Estavam nas mesas do refeitório, sem comprar nada por enquanto. Alan contou que já ficara algumas vezes sem conseguir ler mentes.
— E por que isso aconteceu com você? — Elena indagou.
— Isso sempre acontece comigo quando uso demais o meu poder.
— A Renata não ficou te pedindo para ver um monte de coisas?
— É, mas não pode ter sido isso. Bom, em falar em Renata, ela deve estar nos procurando. Será que não é bom ligar?
— Não precisa. — Disse Nick, balançando a cabeça, num gesto de desaprovação.
— Claro que foi isso. Olha, você tem que pôr um limite nisso. Se para mim já é tão desgastante entrar na mente dos outros, imagine ver o futuro. — Afirmou Alan.
— Ok, mas vocês não precisam ficar com raiva dela, tá? Ela não teve culpa.
Nick não falou nada.
— Ele acha que ela está nos usando, por isso está chateado. — Disse Alan, depois de ler a mente do amigo.
— Eu sei me expressar muito bem, não preciso que você fale para mim! — Respondeu Nick, grosso, de um jeito que ninguém nunca esperaria dele.
Alan não respondeu. Fechou os punhos, sem perceber, como se estivesse pronto para dar um soco no amigo. Fitou-o com raiva.
— Será que vocês poderiam parar? Que coisa desagradável! — Exclamou Elena.
— Pessoal, até que enfim encontrei vocês! — Disse Renata, ofegante, acabando de chegar.
Eles olharam para a garota, surpresos.
— A Desordem e a Inimizade estão aqui. Vocês tem que me ajudar a fazê-las irem embora!
— Como assim? Do que você está falando? — Perguntou Alan, confuso.
— Lembra-se do que eu tinha falado? Esses seres que para vocês são só coisas abstratas, são reais e estão aqui hoje, desfazendo amizades e destruindo a escola!
— Renata, está na hora do almoço, você deve estar com muita fome. Que tal se a gente almoçar primeiro e depois vemos isso? De barriga vazia tudo fica estranho, eu sei. Até o Nick já está ficando meio nervosinho. — Sugeriu Elena.
— Eu estou falando sério. Se não acreditam em mim, vão até o pátio, vejam com os seus próprios olhos.
Nick levantou e foi para o pátio com Renata. Elena e Alan fizeram o mesmo.
Chegando lá, viram uma mulher idosa, mal vestida, virando a lixeira e sujando o chão do pátio.
— Essa só pode ser a Desordem. — Disse Renata.
Nick olhou em volta. Havia poucas pessoas no pátio. Elas pareciam não se importar com o que acontecia, como se não tivessem vendo.
— Já volto, vou chamar os seguranças. — Disse ele.
— Espere. — Respondeu a garota.
Não deu tempo de ele ouvir o que ela disse. Em vão foi correndo junto aos seguranças, denunciar o vandalismo testemunhado. Eles estavam lutando. Um acertou o outro com um golpe de cassetete na cabeça, e o outro caiu inconsciente.
Assustado, Nick voltou. Era como se a escola inteira estivesse mergulhada em uma atmosfera hostil. Passou pela sua cabeça que poderia ser algo no ar, alguma droga que fazia as pessoas se odiarem e se desentenderem, como aconteceu com ele e com Alan no refeitório. Isso explicaria também o porquê da professora ter ficado tão brava e o porquê de ele ter ficado chateado com a Renata anteriormente.
Ele não duvidava totalmente do que Renata dizia, como faziam a Elena e o Alan, mas sempre acreditara no sobrenatural como possibilidade.
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