Real world
26 Capítulo 25- Parte 1 (Narrado por Luke)
Notas iniciais
Acordei com uma incrível dor de cabeça. Sem contar com a vontade de vomitar.
Eu e Sophia simplesmente perdemos a noção e bebemos demais. Mas foi tudo culpa minha. Argh.
Não vou levantar hoje. Nem quero ouvir o nome escola. Vou ficar na minha incrível caminha, no meu excelente quartinho com o meu ar condicionado no máximo. Vou dormir agora e acordar somente amanhã.
Alguém bateu na porta. Não quero saber quem é. Vou me fingir de morto pra que ninguém me perturbe.
—Lucas. –soou uma voz grave. Meu pai. Se eu não abrisse, ele derrubaria a porta.
Levantei preguiçosamente e minha cabeça reclamou, e muito. Maldita tequila.
Abri a porta e vi meu pai me encarando com aquela mesma cara de deboche de sempre. Tá na hora de mudar, pai.
—Não se deu ao trabalho nem de colocar um short, Lucas? –meu pai me repreendeu. Dei uma olhada e vi que estava com a mesma cueca branca de ontem. Opa. Isso é uma ereção matinal?
—Acho que eu posso vestir o que quiser. –respondi, cruzando os braços.
—Não cansa de ser tão infantil? –meu pai perguntou.
—Eu acho até interessante manter a alma de criança. Significa que não perco a essência nunca.
Ele me ignorou, como sempre. Foi direto ao ponto em que queria chegar.
—Por que não está na escola? –indagou.
—Estou doente. –menti. –Muita dor de cabeça, tontura, enjoo.
—Bebeu onde ontem?
—Por que eu preciso ter bebido em algum lugar? Pode ser uma simples gripe.
—Não pode não. Por que você saiu de casa no seu carro, e o mesmo não se encontra na garagem. Depois de tentar localiza-lo, o encontrei em uma boate que abriu faz pouco tempo.
—Se já sabia onde eu estive, por que perguntou? –indaguei e me escorei no batente da porta.
—Queria saber até onde suas mentiras iam. Está graduado na arte de mentir, Luke. Espero que se saia assim na área de administração também.
—Não irei fazer administração. –minha rebeldia hoje estava querendo se aventurar um pouco.
—E fará o quê? Vai ficar correndo sempre atrás de uma bola e dependendo de todos para ganhar dinheiro?
—E se for esse o meu sonho?
—Arranje outro de fundamento. Fim de conversa. –meu pai me encarou com aquele ar de “enfrente-me se for capaz”. Ele sabe que eu o enfrento. Sabe que eu não sou Lauren. Sabe que eu não aguento nada quieto.
—Parece que ontem a prostituta não foi tão boa, não é? –alfinetei quando ele já estava de saída.
Ele se virou pra mim com ódio nos olhos, mas eu nada falei. Fazia tempo que aquele olhar não me dava medo.
—Fique quieto, Luke. Sabe que não sou sua mãe... –ele avisou.
—Não fale da mamãe. –falei e apontei meu dedo na cara dele, coisa que ele odiava. –O nome dela não é para estar nessa sua boca suja.
Ele pegou meu dedo e o torceu para trás.
—E você não aponte o seu dedo pra mim. Eu já disse, não sou igual a sua mãe para aguentar tudo calado.
Uma coisa veio até a ponta da minha língua, mas eu não deixei sair. Se eu deixasse, meu pai me bateria. E eu estou com dor de cabeça.
Simplesmente fechei a porta na cara dele.
Pulei na minha cama e fechei os olhos.
Meu pai era um idiota. Ficava falando da minha mãe como se fosse uma qualquer. Minha mãe era tudo, menos uma qualquer. Era meu mundo. Meu tudo. Meu chão.
Pena que foi tirada de mim de uma forma tão grotesca.
Ali, nos meus pensamentos, passavam as imagens do acontecido, há cerca de 9 anos atrás.
FLASH BACK ON
Era começo de noite. Minha mãe e eu tínhamos acabado de fazer compras, quando eu tive uma brilhante ideia.
—Mamãe, eu quero sorvete! –falei enquanto minha mãe ria.
—Tudo bem, Luke. Vamos lá. –ela sorria de forma serena e me pegou no colo.
A sorveteria ficava á poucos metros dali. Entramos lá e, diante de muitos sorvetes, eu não soube qual escolher.
—Mamãe, não sei qual eu quero. –falei e ela riu.
—Que tal levarmos um pote para casa? Assim comemos eu, você e Lauren.
—Sim, sim! Mas a Lauren só gosta de baunilha. E eu detesto baunilha. –fiz uma careta.
—Então levamos um pote de baunilha para Lauren e um de chocolate pra a gente. Tudo bem?
—Hummm... Pode ser! –bati palmas, entusiasmado.
Minha mãe, do jeito que era, comprou três potes. Sendo que um era para o meu pai, que mal ligava para ela.
Depois de pagar pelos três potes, deixou dinheiro no pote de gorjetas e nós saímos.
—Para onde vamos agora, meu amor? –ela perguntou pra mim.
—Pra casa, né. –eu falei. –Se não o sorvete vai derreter.
—É mesmo. –ela concordou. –Onde eu deixei o carro, Luke?
—No supermercado. Vamos ter que voltar lá.
Ela riu e assentiu.
—Meu garoto. –falou enquanto íamos para o supermercado novamente.
No caminho, porém, fomos interceptadas por um homem. Ele carregava uma faca e, ao julgar pelo fedor, estava bêbado.
—Madame, passa o dinheiro. –ele exigiu e minha mãe rapidamente pegou a bolsa.
—Tudo que tenho, senhor. –ela deu-lhe toda a carteira.
—Muito pouco. –ele resmungou. –Terá de pagar de outra forma. –ele riu maliciosamente.
—Olha, senhor, você está bêbado e não está pensando com clareza. É melhor o senhor ir para casa, para perto de sua família, e descansar. Isso não leva a lugar algum.
—Não perguntei. –ele disse e agarrou o braço da minha mãe.
—Mamãe! –eu gritei.
—Luke, para trás! –ela falou.
—Hum, vemos um garotinho aí. –o homem falou. –Se você não fizer o que eu estou pedindo, mato ele.
—Não, tudo bem. Eu irei.
—Mamãe! –eu gritei novamente e o homem me pegou pela mão também.
—Para o rapazinho não escapar, vai ter que ir também. –o homem falou e levou eu e minha mãe para um beco.
Lá, ele me jogou no chão e atacou minha mãe. Fez coisas horríveis com ela, que gritava, pedia socorro, mas ninguém vinha. Eu, como era pequeno, não pude fazer nada, apenas assistir.
Quando ele terminou, deixando minha mãe ensanguentada dentro de uma lata de lixo, saiu e me deixou sozinho lá.
Eu corri para perto dela, chamei pelo seu nome, mas ela só gemia de dor. Eu gritei por ajuda que, depois de muito tempo chegou.
Minha mãe já estava morta.
FLASH BACK OFF
A causa da morte de minha mãe não foi o estupro em si, mas também o fato do idiota ter colocado uma barra de ferro em suas partes íntimas, o que causou uma grave infecção.
Até hoje as imagens desse dia me assombram, invadindo meus sonhos. Eu nunca me recuperei de verdade.
Só quem sabe desses meus sonhos é Lauren, que na época também era bem jovem, mas que lembra de quando chegaram com a notícia. Ela tem alguns pesadelos, mas não tanto quanto eu.
Abri os olhos. Não conseguiria dormir mesmo.
Me levantei e vi que a ereção matinal já tinha passado. Coloquei um short e fui até a cozinha.
—Mauren! Cadê você, flor do dia? –chamei, e minha adorada cozinheira apareceu.
—Moleque, você devia estar na escola. O que foi? –ela falou, daquele jeito rabugenta, mas preocupada.
—Bebi um pouquinho ontem. –respondi e fiz uma careta.
—Mas você nunca foi de beber, Luke. –agora ela realmente estava preocupada. –O que está acontecendo?
—Nada. –falei e ri. –Não fui sozinho. Fui com uma garota.
—Qual ‘das’? –ela indagou e riu, procurando um remédio no armário.
—Sophia. –falei e percebi que o nome dela saía de forma doce da minha boca. Meu Deus, o que foi que eu disse?
—Nome bonito. –ela elogiou e me deu um comprimido. –É pra a dor de cabeça.
—Obrigado. –peguei e tomei ele junto com um copo d’água.
—Mas então, e essa Sophia? É bonita?
—É. –falei. –Ela tem os cabelos avermelhados. E ela ri das minhas piadas.
—Então é bonita e retardada.
—Ela não é retardada. –coloquei o copo em cima da mesa. –Ela é a garota mais inteligente que já conheci.
—Calma aí. –ela disse e se aproximou. –Acho que já sei o motivo de sua dor de cabeça.
—O quê? –perguntei, preocupado.
—Você bateu sua cabeça com força. Para estar falando bem de uma garota com quem está saindo ou você bateu a cabeça bem forte ou... –ela sorriu, satisfeita.
—Ou o quê?
—Ou está apaixonado por ela.
—Eu não estou apaixonado por ela. –neguei e saí da cozinha mas, antes disso, Mauren falou:
—Pode se enganar o tempo que quiser, moleque. Mas o coração já sabe da verdade.
...
Passei a manhã praticamente dormindo. Ao acordar, depois do meio dia, minha dor de cabeça já tinha passado.
Não estava com fome, então fiquei no quarto mesmo. Liguei minha TV e coloquei no youtube. Pesquisei a banda Codplay e coloquei a primeira música que eu encontrei: Fix you.
Enquanto a melodia tocava pelo meu quarto, tomei um banho e coloquei apenas uma cueca box preta. A porta estava trancada; não havia como ninguém me ver.
Então decidi verificar meu whats app. Tive uma grande surpresa quando vi uma mensagem de Sophia. Nosso coração bate rápido quando ficamos surpresos, não é?
“Espero que você esteja morrendo de dor de cabeça igual a mim. Se não, irei dar uma pancada tão grande nela que você vai ficar”. –enviada por Sophia ás 12:32.
“Pode vim dar a pancada, então”. –enviei. Instantaneamente ela ficou online. Estava esperando minha mensagem.
“Não acredito que somente eu fiquei com essa dor de cabeça dos infernos. Além de ter vomitado na casa toda.”—ela enviou.
“Senti dor de cabeça de manhã, mas já passou. O que Pietro disse?”
“Perguntou por que eu estava assim. E eu contei a verdade.”
“Agora estou ferrado.”
“Não está não. Ele disse que foi bom eu ter saído. Só que não bebesse mais da próxima vez.”
“Ah.”
“E adivinha quem vai jantar com você hoje a noite?”
“Não me diga que é você.”
“Eu vou jantar com meu irmão aí. Talvez leve os gêmeos. Meu irmão quer conhecer seu pai.”
“Ah, ele vai se arrepender de conhece-lo.”
“Seu pai não pode ser tão ruim assim...”
“Ele é sim.”
“Não pode ser pior que você.”
Ri sozinho. Ela adorava me alfinetar. Chegou algumas mensagens de umas garotas, mas ignorei todas.
“Não tem como alguém ser pior do que eu.”
Sophia digitou cerca de duas vezes, mas parece que apagou todas. Não sei o que ela iria querer falar que não teria coragem, já que aquela doida simplesmente fala o que vêm à cabeça.
No modo aleatório, começou a tocar a música No control da banda que Sophia tanto amava. Então veio as lembranças da noite passada.
“É por isso que estou apaixonado por você, Sophia.”
DROGA, DROGA, DROGA! Eu tinha deixado aquilo escapar mesmo? Não acredito. Não me surpreende o fato de ela querer falar algo comigo e não ter coragem.
Eu estava bêbado e falei uma besteira. Uma enorme besteira. Tamanho extra grande.
Não, eu não estava apaixonado por Sophia. No calor do momento isso pode ter escapado, mas não foi nada mais do que mera besteira que todo bêbado diz.
Agora ela devia estar pensando que eu estava apaixonado por ela. Meu Deus.
Tinha que fazer algo para reverter isso, se não poderia acontece coisas terríveis.
Se bem que hoje ela virá na minha casa, assim conversaremos melhor.
Sophia ficou off-line e não falou nada. O medo ou insegurança deve ter falado mais alto.
Desliguei a TV. Eu iria falar com Sophia agora. Iria dizer que eu fui um idiota por ter falado aquilo e que ela não se iludisse e...
Peraí, por que eu estou tão preocupado em ferir os sentimentos de Sophia?
Até por que ela já foi ferida o suficiente esse ano, principalmente por aquele babaca do Brian.
Mas e daí? Eu, como o bad boy que sou, não deveria me preocupar em ferir os sentimentos dela, não é? Onde fica o manual dos bad boy’s?
Estou perdido. Totalmente.
Calma, respira. Isso é o que amigos fazem. Se preocupam com os sentimentos um dos outros. Além do mais, não tenho nenhuma amiga, então não sou acostumado no fato de ter de protege-la e...
A porta do meu quarto se abriu de repente.
—Sabia que tem uma coisa que se chama bater? –resmunguei e me virei para ver quem entrara no meu quarto de maneira tão grotesca. Um sorriso se formou nos meus lábios.
—Cara, você tem que aprender a fechar essa porta. –Nathan disse.
—E você tem que lembrar que tem amigos em Londres. Idiota. –falei e dei um abraço nele, dando tapinhas em suas costas.
—Foi mal cara. –ele disse e se jogou na minha cama. –Meu pai estava cheio de coisa para resolver na Itália. Não podia voltar sem ele, você sabe.
—É, mas pelo menos poderia avisar, né. –resmunguei.
—Não me lembrava que você era tão irritante, Luke. –ele falou e eu ri.
—Estou melhorando nesta arte a cada dia que passa. –falei e sentei em uma cadeira perto da cama.
—Então cara... E as novidades? –perguntou, como se não quisesse nada. Mas eu bem conhecia Nathan e sabia que ele sabia de algo.
—Nenhuma. –neguei com a cabeça. –A mesma monotonia de sempre.
Ele arqueou uma sobrancelha e ficou me encarando, com um sorriso nos lábios.
—Tem certeza? –questionou.
—Se já sabe de alguma coisa, fale. –revirei os olhos.
—Quem diria, você e Sophia... –ele soltou e riu.
—Ah, isso... –não entendo o por quê, mas senti minhas bochechas esquentarem.
—Que bonitinho você constrangido! –ele falou e fez um “own” bem ridículo.
—Fique quieto, imbecil. –falei e joguei um travesseiro nele. –Só estamos ficando, e não é nada demais.
—Ficando? Sério? –ele riu.
—Eu meio que propus uma amizade colorida. –falei e fiz uma careta.
—Amizade colorida? Cara, você sabe que isso nunca dá certo. Veja eu e a Nina... –ele deixou a frase no ar e eu saquei. Ele e Nina tinham começado com amizade colorida também.
—Eu não sou você, e Sophia não é Nina. –respondi.
—Mas vocês estão ficando há quanto tempo? –perguntou.
—Há um mês, mais ou menos. –não sabia exatamente quando tinha começado.
—E você não sente nada por ela? –a pergunta dele me pegou de surpresa.
Um “não” iria escapar dos meus lábios, mas a palavra ficou enganchada na minha garganta. Eu simplesmente não conseguia responder.
—Você está gostando dela. –ao julgar pelo meu silêncio, Nathan concluiu.
—Não, cara. –finalmente algo saiu da minha boca. –Não chega a ser isso. Ela é legal, e só.
—Okay. Se você diz... –ele se rendeu. Graças a Deus.
—Mas e você? Alguma gatinha nova na área?
—Estou fraco. Não peguei ninguém desde Nina. –ele riu da própria desgraça.
—Tem uma novata na escola, se quiser que eu te apresente a ela...
—Você já pegou ela?
—Já. –afirmei.
—Não quero não, obrigado. Vai que eu pegue alguma doença. –ele brincou e eu o fuzilei com o olhar.
—Vai se foder, Nathan! –falei e ele riu.
—Estava com saudades, cara. –ele disse, em plenas gargalhadas.
Continua...
Fale com o autor