Real Kingdom
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Passo os dedos por entre o copo d’água que foi deposto pela minha mãe na mesa. Ela folheava as folhas de uma revista antiga de tricô- como o dinheiro está curto, há anos não compramos uma revista nova, o que dificulta bastante a renda da nossa família, já que as pessoas preferem costuras que estão “por dentro” da moda. Kim, minha irmã, está sentada no carpete da sala brincando com as bonecas que minha mãe deu a ela. Vejo nela meu reflexo quando era menor. Lembro-me de quando sentava no carpete perto da lareira, e meu pai se esparramava ao meu lado, e começava a contar histórias das suas fantasiosas aventuras, aventuras que nunca tinham acontecido, ou que pelo menos ele não revelava ser verdade. Meu pai... que falta ele faz, lembrar dele traz lágrimas a meus olhos, e um aperto em meu coração. O jeito que o tiraram de mim.
Hoje era o meu último dia em casa. Na manhã seguinte eu teria que me apresentar como mutante aprendiz da aldeia em que vivo, comigo vão mais dois garotos, que também mostraram seus poderes naquele ano. São 17 aldeias, eu sou da aldeia número 5, já que mostrei poderes relacionados ao fogo. Se eu tivesse mostrado outro poder como o de cura, por exemplo, minha mãe seria presa por ter ficado com um cara que provavelmente não seria meu pai, porque o seu corpo o escolhera como um guardião do fogo...
Eu não estava nada confortável com aquela situação. Meu corpo receberia doses pesadas de uma droga que me ajudaria a controlar meus poderes. Eu li em alguns livros que peguei na biblioteca da escola que tais remédios trazem no começo alucinações pesadas; em alguns estados extremos possivelmente a morte, eles cortavam sua pele e por debaixo dela adicionavam uma porção do remédio.
Eles eram sanguinários, insanos, jogavam crianças em uma arena pra combater entre si seus poderes. Muitos adolescentes ao descobrirem seus poderes, se suicidavam. “O feitiço virou contra o feiticeiro” sabe? Eles usavam seus poderes para se matar, alguns tentavam se afogar, outro queimavam todo o seu corpo.
Eu perdi meu pai para um combate entre aldeias. Ele era da aldeia número 5 -como tinha dito antes- e combateu com um mutante do 9, que controlavam a água. O que era totalmente injusto: pessoas que controlam elementos combater com pessoas que controlam elementos, porque um inibe o poder do outro. Mas quem disse que os organizadores se preocupavam com injustiças? Se eles mesmo era um injustos nessa história toda. Eles não se importavam com a vida das pessoas, não se importavam se eles tinham uma família para cuidar, se eles tinham uma história fora da área de combate, nem um pouco.
Eu cresci com um ódio desses organizadores, dessas aldeias, dessa divisão, eu não queria ter poderes, não quero sofrer como meu pai sofreu, não quero duelar. Eu queria ser normal, só isso.
Mas eu ia enfrentar tudo aquilo, eu ia acabar com aqueles organizadores, ia pôr todas as vilas abaixo, ia fazer de tudo para ganhar os jogos, seria meu único foco, eu ia vingar a morte do meu pai.
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