Real King
23 Capítulo 23
Havia se passado um mês desde o acidente de Namjoon; Jin estava cada dia mais abatido, suas esperanças sobre a recuperação do marido cada dia mais frágeis. Enfim chegara o dia que ele tanto temia: Hoseok e Kai apareceram de madrugada no hospital e o levaram para o aeroporto, onde Hwasa o esperava com uma mala enorme e um sorriso triste, e enfim Jin convenceu-se. Taehyung, na saída do hospital prometera ao amigo que iria ao quarto do Kim todo dia, e o atualizaria sempre, e Jungkook logo estaria de pé para proteger seu hyung.
Hoseok estava em paz; conseguira despachar Jin em segurança para Londres. Agora conseguiria cuidar da empresa com toda a sua dedicação; Hwasa estava com o chefe na Europa, eles não tinham previsão de quando se veriam de novo, mas dadas as circunstâncias, sua relação à distância era o menor dos problemas ali.
O maior deles se chamava Jeon Jungkook, que agora já conseguia andar e estava com a fúria de mil generais encarnados em si. A todo momento homens engravatados entravam e saiam de seu quarto no hospital, e sua mãe e irmão não voltaram mais para vê-lo. os funcionários subordinados a ele na Jeon’s entregavam relatórios diários de suas investigações, e todo dia se ouviam gritos dele dentro daquele quarto. As coisas só se acalmavam quando Taehyung aparecia para dormir lá com ele, mas apenas no turno da noite, uma vez que o modelo voltara a trabalhar e não podia passar o dia com o namorado.
Em uma dessas noites, Taehyung estava terminando de dar banho no Jeon quando o celular do mais novo toca. Era uma chamada de vídeo de um número desconhecido. Mesmo sem camisa, Jungkook atendeu.
— JK, fratello mio! Como você está? – Taehyung congelou ao ouvir aquela voz. Não entendeu a expressão em italiano mas o inglês de sotaque carregado era o mesmo.
— Giancarlo, pensei que só me ligaria se eu estivesse à beira da morte. – O italiano riu e olhou para o modelo que estava quase fora de enquadramento.
— Olá novamente Sr. Kim. – Tae fez uma leve mesura e olhou para Jungkook esperando repostas.
— Giancarlo é um velho amigo... Ele que o ajudou em Milão, não foi? – Ao ver o namorando concordando ele soltou uma risadinha. – Eu tenho alguns inimigos na Itália, então pedi uma ajudinha para ele. – O Kim apenas acenou concordando.
— Vou trocar a água. – disse apontado para a bacia que usou para limpar o namorado. Jungkook concordou rindo.
— Seu namorado não sabe quem você é? – perguntou o italiano divertido.
— Ele desconfia, mas está em negação. – disse o Jeon divertido. – Mas sei que não me ligou para ver como eu estava, amigo, qual o problema? – o Italiano riu mais uma vez e acendeu um cigarro.
— Conseguimos algumas informações sobre o que ocorreu em Milão. – Jungkook ficou mais atento ainda. – Devo continuar?
— Em Italiano, por favor. – respondeu o coreano, fazendo o outro assentir em entendimento.
— Conseguimos pegar quem estava à frente da emboscada. Era de uma gangue pequena, mas que está ganhando nome em Milão. Foram contratados por uma pessoa desconhecida e pagos por criptomoedas. – O moreno bufou, frustrado. – A boa notícia é que ele foi burro o suficiente para não jogar fora o celular usado no contato. – Jungkook encarou o amigo na tela surpreso.
— É um amador mesmo... o que descobriu?
— A ligação veio de Seul, Kim construtora. – O Jeon encarou a tela confuso.
— O alvo não era o Tae? – o italiano negou com a cabeça.
— Era o outro Kim. – Revelou Giancarlo rindo da irritação do outro. — Não para por aí. – O coreano rapidamente o olhou.
— O que mais conseguiram?
— Dimitri entrou em contato comigo. Ele tem um presente pra você em São Petersburgo. – Ao ver a curiosidade do amigo, deu outra risada. – O motorista do caminhão. – Ao ver os olhos de Jungkook abrirem como dois pratos ele continuou. – O encontraram na Suécia, tentando se esconder na Polônia. Dimitri pediu para você entrar em contato, ele não fez nada com o cara, está esperando uma ordem sua. – Jungkook jogou seu corpo para trás, apoiando as costas na cabeceira da cama.
— Vou ligar pra ele assim que puder viajar. Tudo certo por aí? Florença continua linda? – Giancarlo sorriu e deu de ombros.
— O mesmo de sempre. Fui convocado para ir pra Sicília semana que vem, te dou notícias quando voltar. – Jeon arregalou os olhos impressionado.
— Vai para a grande liga, amigo, boa sorte – O italiano riu e desligou sem se despedir.
Taehyung, que ouvia o diálogo em outro idioma da porta sentiu-se confortável para entrar quando a ligação foi encerrada.
— Esse homem... que me salvou, ele é um mafioso, não é? – Jungkook deu dois tapinhas na cama, chamando o namorado.
— Ele é um amigo, — respondeu vago.
— Responda a minha pergunta, Kook. – O mais novo riu da cara de contrariado dele.
— Você viaja muito para a Itália, não é?! – Vendo o Kim concordar, ele respirou fundo tentando encontrar as palavras. – Sabe como o lado ilegal da Itália funciona, não é?! – Tae concordou novamente sentando ao seu lado na cama do hospital. – Giancarlo é um Cavalieri. – Vendo os olhos do Kim arregalarem, ele constatou que o namorado sabia o que aquilo significava. – Eu o ajudei há alguns anos, e ele tem uma grande dívida comigo. Acabamos nos tornando amigos e nos ajudamos mutuamente. – Vendo que o namorado não ia falar nada, ele sorriu com o seu jeito acanhado. – Não vai me perguntar mais nada?
— Eu tô com medo de perguntar. – Jungkook riu alto e fez um carinho na cabeça de Tae.
— Isso se chama instinto de sobrevivência amor, é uma atitude muito esperta. – O modelo encarou o namorado muito sério.
— Mas quero saber de tudo, Kook. Me explique, por favor. – O mais novo concordou e ficou alguns segundos pensativo.
— Ok. Vamos começar por ele então. Giancarlo era de uma família secundária, que vivia em Florença; nada daquilo que a gente vê no cinema, mas perto disso. Ele era o concigliere da família Cavalieri. Nos conhecemos em um treinamento que eu fiz em Hong Kong, há alguns anos. Nossa empatia foi instantânea, porque ambos somos filhos bastardos de nossos pais. Ele era o mais velho, mais esperto da família, mas o filho legitimo que era o subchefe. Quando o pai morreu uma guerra foi travada porque a maior parte da família respeitava mais o Giancarlo do que o segundo em comando. Como todo italiano que se preze, o irmão ficou paranoico com uma possível traição e tentou mata-lo primeiro. E o resto é história.
— Como assim história? – Jungkook riu para o namorado.
— Giancarlo está vivo ainda. – disse como se explicasse tudo. E na verdade, explicava.
— Foi você? – Jungkook deu de ombros. – Não minta pra mim, Jeon.
— Lembra o casamento do Namjoon hyung? – Tae acenou com a cabeça.
— Você^ não pôde ir porque não podia sair da Coreia.
— Eu estava sob investigação. – JK casualmente abriu um potinho de gelatina e começou a saborear.
— Então você é...?
— Sou um filhote de lobo. – Se possível, o Kim ficou mais confuso. – Nossas famílias têm brasões, e nossos brasões têm animais. As pessoas se referem a nós como esses animais. Na Coréia somos os lobos Lee, os chineses são os tigres Wu, os japoneses são os dragões Ito. Giancarlo é um cavalo, como o próprio sobrenome sugere. – Taehyung riu. – Tem os ursos russos, as cobras Afegãs e os linces Suecos. A Tríade não nos deixa expandir mais do que isso, faz parte do acordo de sermos coexistentes. – Tae arregalou os olhos pasmo.
— Tríade?
— Sim, os Tigres são da tríade, é o que nos mantêm vivos e praticamente dentro da legalidade. Nenhuma organização, legal ou não toca na gente por causa dos tigres.
— Vocês prestam os mesmos serviços...? – Jungkook riu da forma acanhada que perguntou.
— Nem de perto. Na Ásia não nos envolvemos com tráfico de drogas, armas e humano. Apenas tráfico de influência. Nós, Lobos, nos especializamos em proteção e espionagem. Fazemos um serviço extra ou dois, mas nossa especialidade e maior fonte de renda é essa. O K-pop nos abriu muitas portas para passarmos despercebidos. – disse dando de ombros. Ficou um pouco preocupado com a cara chocada que o namorado fazia. – Você está bem?
— Quem você é dentro da organização? – o Jeon fez uma careta, desgostoso. – Percebi que o Cavalieri tem um cavalo tatuado com uma coroa na cabeça. Seu lobo não tem coroa. Mas a sua mãe e seu irmão tem dezenas de guardas andando com eles. – O moreno riu triste.
— Você percebeu, não é?! – ele fez um carinho na mão do mais velho para tranquilizá-lo — quando me referi a mim mesmo como “filhote” não é porque sou novo, mas porque sou “cria” de alguém. Especificamente, cria do Alfa.
— Sua mãe é a cabeça?
— Não usamos esse termo aqui na Coreia, usamos a terminologia de uma matilha mesmo. Oficialmente eu sou o “Beta”, por ser o filho mais velho da Alfa, mas não pretendo assumir a organização depois que minha mãe sair, então Eunwoo é quem vai herdar tudo. Não usamos coroas nas nossas tatuagens para não sermos óbvios; usamos as fases da lua. Temos 5 classificações hierárquicas na família: a lua nova, onde quase não há presença de lua; são os prospectos que acabaram de ser aprovados. Ainda não temos permissão de tatuar o lobo na lua nova. – disse apontando para o círculo fino e quase imperceptível em cima da cabeça do lobo em seu abdômen. – Depois vem a lua crescente, que é quando você deixa de ser bucha de canhão e se torna parte de fato da organização como uma peça fundamental e atuante; nesta lua já temos que ter nossa especialização dentro da organização, e após essa especialização temos autorização para tatuar o lobo.
— Como assim especialização?
— Hacker, segurança, advogado, contador, administrador, médico, sniper... entre outras. – Ele riu do olhar desconfiado do outro. – Depois vem o quarto crescente. Quem tem as três luas é reconhecido como alto escalão da organização. Os que chamam aqui na Ásia de “mestres” e “chefes de operações”.
— E as outras duas luas?
— A Gibosa é para as crias da matilha; e a cheia é para o alfa. – Taehyung acenou em entendimento.
— E por que tatuagens?
— Porque é pra sempre. Você só sai da organização morto. – Vendo a feição aterrorizada de Taehyung ele apertou a mão do rapaz tentando confortá-lo. – Eu não pretendo herdá-la Tae, mas não pretendo sair dela. É como hoje em dia; eu trabalho na empresa do meu pai, só vou para a organização em casos especiais.
— Como o que? No que você é especializado?
— Infiltração e extermínio. – disse como se contasse sobre o clima.
— E você me conta isso na maior calma? – Jungkook deu de ombros, sem um pingo de remorso.
— Não tenho arrependimentos no meu histórico, amor. Meu apelido na Europa é Babaika, uma espécie de bicho papão. Já me chamaram de Bbaba Yaga algumas vezes, por acharem que eu era ambíguo demais, mas eu sempre pesquisei muito os poucos alvos que tinha.
— Como a família de Giancarlo? – perguntou Tae com um tom julgador que incomodou um pouco o namorado.
— Antes de Giancarlo assumir, os Cavalieri eram os facilitadores europeus da maior rota de tráfico de mulheres do mundo. – O modelo se assustou com aquela informação. – Prometi ajuda-lo e em troca ele me prometeu cessar com esse negócio. A mãe dele foi uma dessas mulheres vítimas de tráfico humano. – Ao ver a feição caída de Tae ele sorriu triste. – Nem todo criminoso nasce mau, amor... Meu acordo com os Lee se restringe a um serviço de justiceiro; eu não aceito um alvo que eu não tenha autonomia pra pesquisar e que eu não possa recusar a qualquer hora.
— Você só lida com gente criminosa?
— Não lido com pessoas que cometem pequenos crimes, eu lido com gente que pessoas abaixo de mim na organização não podem lidar, as vezes lido com gente que a própria polícia da Coreia não pode lidar. Esse é o trabalho do bicho papão. Sejam pessoas perversas e vis ou pessoas poderosas que se acham intocáveis. Eu faço o trabalho sujo que ninguém tem coragem de fazer. Porque eu sou dos dois mundos; os políticos não mexem comigo porque sou um Jeon, e o submundo não entra no meu caminho por eu ser um Lee. Pouca gente na Ásia tem costas tão quentes. – disse sorridente.
— Você se orgulha disso? – Jungkook franziu o cenho. Taehyung estava mesmo o julgando?
— Bom, eu não tenho vergonha disso. Estou confuso aqui Taehyung... Você está me condenando a algo?
— Você acabou de me contar que matou pessoas, Jungkook, como queria que eu reagisse? – e o tom descontraído do Jeon se fora completamente. Ele fechou a boca em uma linha fina e Tae percebia sua língua pressionando a bochecha.
— Se eu fosse um policial, ao invés de um mafioso, não estaríamos tendo essa conversa.
— Você está se ouvindo, Jungkook? Está se comparando a um servidor público que atua sob regras e tem como propósito cumprir a lei. Totalmente o posto do que vocês fazem!
— Será mesmo? – Tae nunca vira um olhar tão afiado do namorado dirigido a si. – Minha família pode ser a escória da Coréia, mas nunca prendeu, machucou ou matou uma pessoa inocente. Não extorquimos pessoas pobres ou em situação de vulnerabilidade, não nos aproveitamos da fragilidade dos outros, somos bandidos que lidam com bandidos; melhor, somos bandidos que lidam com bandidos que a sua virtuosa polícia não tem preparo, capacidade, inteligência e coragem para lidar. Eu sou a pessoa por trás das histórias de prisões em massa de juízes e promotores corruptos e de denuncias de vendas de vereditos em Seul, eu sou a porra do pesadelo de todos os policiais sujos dessa merda de cidade, que corrompe e destrói todos os jovens que tentam fazer seu trabalho de forma honrada. Sabe por que eu fui dispensado do exército? – se mesmo esperar uma resposta do outro, emendou. – Porque o alto escalão descobriu que eu sou um Lee, e temeram que eu encontrasse sujeira dentro do meu batalhão.
— Isso tudo é muito lindo, mas você realmente espera que eu entenda e passe a mão na sua cabeça? Eu estou aterrorizado aqui! Eu pensava que você trabalhava com segurança, não que fosse um assassino! – os dois estavam nervosos, e Taehyung sem perceber estava levantando seu tom de voz.
— E eu estou decepcionado. Eu esperava que você ficasse com medo, talvez com receio de se relacionar comigo se soubesse, mas não me julgasse. – Seu tom de voz era tão baixo que Tae quase não ouviu.
— Você é um mafioso! – gritou Tae como se aquilo explicasse tudo.
— E VOCÊ É A PORRA DO AMOR DA MINHA VIDA! – o Kim viu os olhos cheios d’água do namorado e sentiu remorso por falar aquilo. – Eu esperava tudo de você, menos isso. Mas te entendo, você é um cidadão modelo, não queria ter se envolvido com um bandido. – Ele arrancou o acesso de soro que estava em sua mão e tirou o lençol de cima de si. Levantou-se sob protestos de Tae e com muita dificuldade começou a caminhar para a porta. Abriu-a e olhou para o namorado. Estava suado do esforço hercúleo que era andar aquela distância sozinho e estava pálido demais. O tronco nu da cintura para baixo, tinha muitas cicatrizes e algumas tatuagens que as cobriam. Os olhos vermelhos pelo choro estavam furiosos. – Boa noite. – disse fazendo um gesto com a cabeça para a porta.
— Você está me colocando pra fora do quarto? – Jungkook fechou os olhos e as lágrimas que prendia caíram.
— Da minha vida também. Se não quer se envolver com um bandido não vou te prender a um relacionamento tão nocivo. Você merece coisa melhor. – O rosto do mais velho estava em puro choque, ele se levantou devagar, pegou sua bolsa e foi em direção a porta.
— Jungkook...
— Foram os melhores meses da minha vida, mas eu sempre vou me escolher, eu tenho que me escolher. – Ele respirou fundo e tentou controlar as lágrimas e a voz embargada. – Tchau Kim. – disse assim que Taehyung saiu e fechou a porta na sua cara.
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Hoseok se espantou quando viu seu colega de apartamento entrar na antessala da UTI do hospital. Geralmente Taehyung ia ver Namjoon de manhã cedo, quando estivesse saindo do quarto de Jungkook. Olhando melhor, Tae estava em choque, os olhos vermelhos e fungando.
— O que houve, Tae? – o modelo se assustou quando o viu ali e correu em sua direção, aos prantos.
Depois de alguns minutos de choros e soluços, Hoseok conseguiu acalmá-lo. Ele tomou um copo de água e encarou o amigo.
— Jungkook terminou comigo. – Por essa J-hope não esperava. – Conversamos sobre o passado dele e sobre o que ele faz, eu reagi de uma forma que ele não esperava e ele ficou muito ofendido. – Hoseok fez uma cara de derrotado, ele tinha de ter calculado isso, talvez Jungkook não conseguisse lidar com a primeira reação do namorado e Tae talvez fosse inocente demais pra entender o que Jungkook fazia. O amigo soluçava e contava sobre a discussão que tiveram.
— Eu entendo a sua reação, Tae, mas tem coisas que você ainda não sabe sobre ele que me fazem entender a reação dele também. – Tae o olhou espantado. – Sou secretario do presidente do grupo Bangtan, e há quase um mês o CEO da companhia. Você não tem noção da quantidade de gente que me procurou atrás de acordos de caixa 2 e cheios de ameaças. Descobri nessas semanas que a melhor coisa que eu fiz foi despachar a Hwasa junto com Jin pra Londres, porque eu tenho recebido todo dia fotos dela com as mais criativas e nojentas sugestões. – O Kim estava chocado. – Pedi para a segurança rastrear todas as ameaças, ainda não temos todos os destinatários, mas de tudo que a gente já conseguiu identificar, não há nenhum criminoso conhecido entre os culpados. São todos grandes empresários, deputados e policiais.
— Isso é um absurdo, Hobi! Você tem que denunciar! – O Jung deu um sorriso condescendente pra ele.
— Vou denunciar a polícia para a polícia? – Tae franziu o cenho. – Às vezes eu acho que ouviu tanto o Jungkook te chamar de príncipe que pensa que vive em um conto de fadas...
— Hyung!
— Desculpa se te ofendi, Tae, mas se eu não te chamar pra realidade, ninguém mais vai. Você não conhece Jungkook há tanto tempo quanto eu. Você sabe que eu estudei com Namjoon a vida inteira, não é?! – o mais novo acenou positivamente. – Yoongi estudava uma serie acima de nós, e os dois Jeons mais velhos estudavam comigo e com o Suga. Jungkook estudava três series abaixo da nossa, e quando o conhecemos ele era uma coisinha miúda, que não falava com ninguém e tinha medo de absolutamente todo mundo. – Tae estranhou aquilo, aquela descrição não combinava com aquele homem furioso que deixou no quarto. – Um dia, percebemos que ele estava mancando, e quando o vimos comendo sozinho no pátio o vimos ser intimidado pelos irmãos. Depois Suga o encurralou no banheiro e descobriu que o garoto estava cheio de hematomas, Tae, ele só tinha 8 anos. – Taehyung estava em lágrimas. – O colocamos debaixo das nossas asas, porque apesar de ninguém fazer bullying com ele na escola, os irmãos ainda o perseguiam. Namjoon o obrigou a fazer artes marciais para aprender a se defender, e ele meio que se encontrou ali. Entrou em todos os clubes de artes marciais que tinham na escola, e era a estrela de todos eles. Como ele era menor e mais novo que a maioria, começaram a chama-lo de Golden Maknae, porque ele ganhava ouro em todas as competições que ia. Aos poucos ele ia se desenvolvendo, mas infelizmente não pudemos evitar que ele continuasse apanhando dos irmãos.
— Por quê?
— Porque agora ele apanhava em casa. Não sabíamos na época que a senhora Jeon não era mãe dele, então não entendíamos porque ela deixava que isso acontecesse debaixo do seu teto. Até um dia perguntarmos e ele chama-la de “senhora Jeon”, e explicar que ele era filho da amante do pai, e como bastardo, os irmãos faziam o que queriam com ele.
— Isso é um absurdo!
— Essa não era a pior parte, Tae. Jungkook sempre teve uma resistência física excelente, os hematomas vinham e sumiam rápido. A parte catastrófica disso era o abuso emocional. Aquela mulher o tratou como um animal. Um dia os garotos estavam muito emotivos por um motivo que eu não sabia na época, mas anos depois descobri ser o fato de Namjoon assumir sua homossexualidade para ele, e aparentemente a resposta do Kook foi muito positiva, porque o Nam chorou, o abraçou e disse que o amava. O garoto entrou em parafuso, porque ele tinha 12 anos e era a primeira vez que ouvira alguém dizer aquilo pra ele. – Tae fechou os olhos e o arrependimento veio como uma flecha o acertando profundamente no peito.
— Eu não acredito...
— Aos 14, Namjoon disse que se mudaria para Londres, Yoongi foi para a Suíça e a minha família começou a ter problemas financeiros. A rede de apoio dele enfraqueceu do dia pra noite e ele voltou a ser inseguro, o que fez com que seus irmãos e madrasta ficassem mais violentos. Recentemente soube o motivo do sumiço dele naquela época.
— Qual foi?
— O avô materno dele teve um infarto fulminante e faleceu. A família Lee precisa sempre ter um Alfa e um Beta, e Eunwoo não era o filho mais velho de Chaerin, portanto ela foi atrás do filho para conversar com ele, explicar suas origens e pedir que ele tomasse uma decisão. Ela a principio não queria Jungkook envolvido com os lobos, só queria que ele fosse apresentado à família e voltasse para a família do pai, onde estudaria e seguiria uma profissão diferente da sua. Mas ao chegar na mansão Jeon, encontrou a madrasta de Jungkook o espancando com um bastão de beisebol, e o garoto já tinha algumas marcas antigas de outras surras.
— Pare Hoseok... – Tae não aguentava ouvir mais aquilo.
— Você queria a verdade, Taehyung, é ela que eu estou lhe dando. – O mais novo o encarou com os olhos inchados. – Não sei exatamente o que ocorreu naquela noite, mas Jungkook foi embora dali com a mãe e a senhora Jeon e seus dois filhos ficaram semanas sem serem vistos. Ele tinha 14 anos. – Taehyung começou a soluçar. – Aos 18, ele tentou se alistar no exército, mas foi dispensado, e essa história eu desconheço, então resolveu voltar para a casa do pai, uma vez que a mãe o treinou para ser seu sucessor, mas o deu a liberdade para escolher o que fazer. Ele sabia o que a mãe fazia e disse que não queria trilhar esse caminho, e ela aceitou, deixando Eunwoo a cargo de substituí-la no futuro. Quando chegou na casa do pai, os dois irmãos mais velhos o esperavam armados e o renderam. O torturaram por uma semana para que ele entregasse a localização de sua mãe, mas eles se enganaram redondamente ao achar que o Jungkook de 18 anos era o mesmo de 14. Depois de sete dias, ele conseguiu escapar, imobilizou os irmãos e esperou o pai chegar em casa. Disse para o pai que a próxima vez que alguém encostasse um dedo nele por qualquer motivo que seja, ele ia matar a família inteira e fazer parecer um acidente. O velho sabia onde o filho estava e o que estava fazendo, então acreditou na ameaça, e deixou Jungkook em paz. Ele voltou para a casa da mãe, fez o acordo que você conhece com a família materna, e começou o ritual de iniciação. Voltou para casa dos Jeons cheio de tatuagens e exigiu que o pai lhe desse um cargo operacional dentro da empresa da família. O resto, como dizem, é história.
— Por que os irmãos dele queriam a localização da mãe de Jungkook?
— Bom, não há nada confirmado, mas poucos meses depois que Chaerin tirou Jungkook da casa do pai, a madrasta dele foi encontrada morta em casa, e ninguém soube determinar o motivo da morte. CL é mundialmente famosa por seus métodos discretos, ela é uma engenheira química muito criativa. – A espinha de Tae se arrepiou.
— Preciso processar tudo o que você me contou e o que eu ouvi dele. – Hoseok apertou a mão do amigo para transmitir força.
— Eu entendo sua situação Tae, mas entendo a dele também. Só peço que enquanto você pensa sobre tudo lembre de uma coisa: Ninguém nasce mau, Taehyung. – O Kim se espantou porque o namorado tinha falado a mesma coisa para ele pouco tempo atrás. – Somos produtos do nosso meio. O que Jungkook faz pode te assustar, mas eu te garanto que não foi a família Lee que o transformou no homem que ele é hoje. – Aquilo pesou em Tae mais do que qualquer outra coisa que ele tinha ouvido naquele dia. – Nós conhecemos a dualidade de Jungkook, mas você teve o privilégio de conviver mais tempo com o Jungkook doce que ele era na infância. Ele não se abre pra qualquer um Tae, se ele deixou você entrar é porque você significa o mundo pra ele. – Ao ver o amigo chorar mais uma vez ele suspirou. – Vá pra casa, tome um banho e tenha uma noite decente de sono. Amanhã você vai conseguir pensar com mais clareza.
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