Real King

10 Capítulo 10


Jungkook estava à beira do fogão pensando em algo que o inquietava. Seu colega de quarto estava sentado no balcão lhe fazendo companhia enquanto conversava por videochamada com Taehyung. Desde o dia que passara vergonha saindo só de toalha do quarto na frente de seus hyungs, o Kim o evitava a todo custo; não que tivessem alguma intimidade, mas de uns anos pra cá pelo menos eram cordiais um com o outro. Agora só tinha o silêncio e longos e inexplicáveis olhares por conta do mais velho.

— Até parece, Jimin, você não consegue subir uma escada sem pôr um palmo de língua pra fora! – o tópico ali era Tae duvidando que o amigo mais baixo estava fazendo exercícios. Desde que foi escalado para uma campanha mais sensual da principal marca que representava, ele estava obcecado com a forma de seu corpo. Jimin sempre teve um ar um pouco andrógino, mas para os padrões ocidentais ele precisava trabalhar um pouco mais em sua boa forma.

— é sério Taetae, o Kook me arrasta da cama todo dia de madrugada e me obriga correr com ele, e quando a gente chega eu faço uma hora de musculação. – Jungkook ouvia o moreno rir e não entendia por que o amigo conversava com ele como se o mais novo não estivesse lá.

— Desculpa, bebê, mas eu não acredito em você. – Jimin fez um bico fofo, irritado.

— Eu tô te dizendo, eu tô exausto aqui, o cara é uma máquina. Eu faço só a caminhada e a musculação, depois disso ele continua malhando e eu fico tentado ressuscitar.

— Jimin. – Os dois estranharam o tom sério de Taehyung. – Você precisa parar de dizer que o Jungkook é uma máquina, principalmente depois do que você e o Jin hyung me sugeriram. Toda vez que eu olho pra ele eu penso em sexo, tá ficando constrangedor. – Jimin aproveitou que o melhor amigo se distraiu e olhou a cara surpresa do Jeon, lhe deu uma piscadinha e voltou a olhar para a tela do celular.

— Quer dizer que você andou pensando do que a gente disse. – O moreno suspirou alto, irritado.

— Você sugeriu que eu fizesse sexo com o homem mais gostoso que eu já vi na vida, e espera que eu finja que nunca rolou essa conversa?

— Não querido, eu espero que você considere tudo o que eu te disse e agarre logo aquele homem! – o homem citado tinha parado de cozinhar, chocado demais com aquela conversa.

— Eu considerei... – falou Tae mais baixo, chocando o loiro. – Mas como eu faço isso, Ji?! A gente não se dá bem, desde o começo o Jungkook não vai com a minha cara... como passa disso a foder aquele homem? – Jimin não aguentou e soltou uma gargalhada engasgada, porque Kook estava com a sua cara marca registrada "ERROR.404" – O que houve, Jimin?

— Nada, eu fico chocado com a sua capacidade de dizer coisas aleatórias assim do nada! – Jimin se recompôs e enxugou uma lágrima. – Mas falando sério Taetae, eu não acho que o Kook não vai com a sua cara, isso é só timidez mesmo. – O moreno fez uma cara de quem não estava acreditando.

— Timidez? Quer que eu caia nessa, Ji? Com aquela cara de playboy? – e Jimin foi surpreendido quando seu celular foi tirado da sua mão.

— Não tenho o costume de me sentir à vontade com pessoas que eu não conheço, Taehyung, então sim, sou um pouco tímido, e é exatamente esse o meu problema com você. – Ao ver o moreno mais velho de boca aberta e sem reação ele resolve dar o golpe de misericórdia. – Eu topo transar com você Taehyung-ssi, não precisa tentar me convencer de nada, mas você precisar saber de um detalhe antes: — O Kim mal respirava em expectativa. – Sou EU quem vai foder você querido... e você vai pedir por mais. Esteja aqui hoje às 21h. – e sem esperar, desligou.

— Eu vou morrer e nunca vou conseguir prever um movimento seu Kookie. – O Jeon encarou o amigo e deu de ombros.

— Eu jamais ia deixar uma oportunidade dessas passar. – O mais velho concordou, pensativo.

— Mas se você chamou ele pra cá, onde eu...?

— Vai pro Yoongi, ué, não é como se vocês fossem desconhecidos. – O loirinho arregalou os olhos chocado. – O que foi? – ele voltou ao fogão e pegou a panela, servindo o amigo. – Eu não sou surdo, Mochi, vocês fodem que nem dois malucos no meu apartamento e espera que eu não reconheça a voz de um dos meus melhores amigos?

— Jungkook, eu- o mais novo sentou ao seu lado na bancada, interrompendo-o.

— O que não é da minha conta, não é da minha conta. – disse concentrado em seu prato. – Só fiquei surpreso porque achava que ele era hetero. – Os dois se encararam e gargalharam juntos.

— é, e eu tenho 1,90m. – respondeu o baixinho, irônico.

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Namjoon estava sentado no sofá da sala estar quando vê Jin entrar em casa, totalmente aéreo.

— Seokjin? – chamou a atenção do mais velho, que o encarou surpreso. – Aconteceu algo? – o modelo confirmou com a cabeça, ainda calado. Quando o marido se levantou preocupado, ele recuperou a fala.

— Você tem algum terno preto, Namjoon?

— Dúzias deles, por que?!

— Aparentemente você precisa de um para ir para um enterro, e eu percebi voltando pra casa que não tenho nenhum. – O tom frio e automático de Jin estava preocupando-o.

— Quem morreu? – seu marido o encarou pela primeira vez em dias e seus olhos estavam cobertos de lágrimas que não caíam.

— Minha mãe. – como uma reação automática, Namjoon o envolveu em um abraço, e foi quando sentiu as lágrimas molharem sua camiseta e o soluço alto começar.

Ele se sentou no sofá e trouxe o marido para seu colo, em uma intimidade que não tinham. Jin estava atordoado, pouco ligava pra alguma coisa, mas não podia negar que precisava daquilo.

— Nós mal nos falávamos desde que eu saí de casa, e isso foi há algum tempo. – O mais novo percebeu que ele tinha que pôr aquilo pra fora. – Eu tinha 14, era a quinta agência que me abordava na rua pra tentar me recrutar, mas meu pai é um fanático religioso e não permitia. Minha mãe sabia que eu tinha o sonho de ser ator e modelo, e de forma sutil, sem meu pai ver, ela sempre me dava alguma força. Quando ela era pega, apanhava. – O mais alto não conseguiu ouvir aquilo sem sentir um grande aperto no peito. Ele apertou o abraço e torno do parceiro e continuou escutando. – No dia em que eu me formei no fundamental, um cara da igreja do meu pai, que dava em cima de mim escondido, me encurralou próximo a minha casa, e quando eu consegui escapar dele, dei de cara com o meu pai. O amigo dele disse que eu estava tentando seduzi-lo, e eu fui espancado ali mesmo, no meio da rua. Ele disse que eu gostava de meninos e que na verdade ele já tinha me isto aos beijos com um garoto do bairro, o que era verdade, mas não era da conta dele, aquele velho pervertido. – O coração de Namjoon se partiu. Sabia que a vida do marido não tinha sido fácil, mas aquilo era demais.

— E você vai se encontrar com aquelas pessoas? – Jin deu um sorriso irônico pra si.

— Por mais absurdo que seja, sim. Preciso me despedir da minha mãe. Foi graças a ela que eu consegui fugir de casa depois da surra e ser contratado pela minha primeira empresa, ela assinou a autorização pra trabalhar de trainee e foi como eu consegui emprego e abrigo por lá. Eu me matei por todos esses anos porque eu tinha que fazer valer a pena o que eu sabia que aconteceria a ela quando ele descobrisse meu sumiço. – O moreno embaixo de si concordou, calado. – Me empresta um terno?

— Claro. Que horas vai ser a cerimônia?

— Já está acontecendo. A igreja do meu pai tem uma capela funerária, eles estão velando-a e amanhã de manhã será levada para o cemitério. – Namjoon apertou a sua coxa e se levantou, fazendo Jin levantar-se também.

— Você está me dizendo que só o avisaram da morte da sua mãe dois dias depois? – o marido deu de ombros, anestesiado.

— Encontrei por acaso uma antiga vizinha que veio me dar os pêsames. – Namjoon engoliu o choro. Aquele homem a sua frente era especial demais para passar por esse tipo de coisa.

— Então acho melhor nos apressarmos, tome um banho e passe no meu quarto que vou separar um terno pra você. – Jin o encarou confuso.

— "Nos apressarmos"?

— Vou com você. Se não por todos os motivos óbvios, pelo menos pra deixar que nada mais te aconteça. – O maior o pegou pelos ombros e o levou até a porta do seu quarto.

No carro, Jin olhava para a roupa que vestia um tanto intrigado.

— Como esse terno coube tão bem em mim? – Namjoon ao seu lado, deu uma risada fraca.

— Era de antes de eu começar a malhar. Não me livrei dele por apego sentimental. Foi o terno que eu usei na minha entrevista pra Oxford. Cresci pouco depois disso, mas não consegui vestir mais depois que comecei a malhar. – Jin acenou em compreensão. De certa forma, e Namjoon jamais saberia disso, gostou do fato de poderem partilhar roupas, ele sempre foi do tipo que gosta de usar as roupas dos namorados, sentia falta desse tipo de intimidade.

Fizeram o restante do trajeto em silêncio, mas o empresário ficou o tempo todo segurando sua mão, confortando-o. Ao chegarem ao bairro mais humilde, se depararam com uma movimentação grande na igreja. Kai parou o carro em frente à entrada para os patrões descerem, depois seguiu, ao ouvir de Namjoon que esperava que ele estivesse presente lá.

Os dois entraram na igreja lado a lado. Os fiéis mais jovens, reconheceram Jin na mesma hora, uns torciam a cara e outros com olhares de admiração disfarçados. Quanto mais fundo entravam na igreja, mais o cochicho aumentava de volume. O mais novo percebia o companheiro ficando a cada passo mais acanhado, mais retraído, perdendo sua confiança natural, o traço mais charmoso de sua personalidade. Quando entraram na sala destinada ao funeral, deram de cara com o pai de Jin na entrada, cumprimentando as pessoas que iam dar-lhe os pêsames. Jin estacou na mesma hora, detestava aquele homem mais que tudo na vida, e queria ter aparecido em alguma hora que ele não estivesse. As pessoas no salão pararam as conversas para assistir o reencontro de pai e filho.

Mas Seokjin, como Namjoon bem sabia, amava frustrar as expectativas alheias. Então ao invés de cumprimentar o pai, ele foi direto à fotografia da mãe, pronto para fazer suas respeitosas reverencias.

— O que pensa que está fazendo aqui, sua aberração? – a voz alta ecoou por todo o salão silencioso. Jin apenas ignorou olhando para a fotografia da mãe adornada por uma fita preta e ajoelhando-se. Em seguida, debruçou-se no chão, com o marido atrás de si imitando o gesto. Sentindo-se humilhado, o Sr Kim saiu de onde estava com uma fúria incontida pronto pra colocar o filho no lugar, mas antes de chegar nele, deparou-se com a muralha de músculos a sua frente.

— Me desculpe senhor, mas não posso permitir que se aproxime do Sr. Kim. – Namjoon viu de relance Kai impedindo o sogro de avançar, e ao levantar da segunda reverência, percebeu o mais velho o analisando.

— Que audácia a de vocês aparecerem aqui para sujar o nome deste templo sagrado! Vocês estão humilhando a minha esposa! – ao subir da terceira e ultima reverência, Jin apenas olhou com desprezo seu progenitor antes de se aproximar do pequeno altar onde a foto da mãe se encontrava, tirar um incenso do bolso, acendê-lo e coloca-lo ao lado das velas que adornavam o lugar. Seu pai sempre foi o protestante fanático, mas sua mãe era budista, decidiu converter-se quando casou. Vendo aquela afronta, o Sr Kim mais uma vez foi pra cima de seu filho, mas foi impedido pelo homem que o acompanhava.

— Sr Kim, por favor, acalme-se. – Namjoon tentava ao máximo respeitar aquele momento de dor do marido, se fosse somete por sua vontade já teria nocauteado aquele velho maluco.

— Não me toque, seu imundo! – aquilo era demais, ninguém merecia um fanático dando show no velório da própria mãe. RM sabia o quão traumático poderia ser.

Olhando em volta e fazendo mesuras desculpando-se com as pessoas que olhavam a cena, ele deu apenas um puxão, com força no braço do sogro, trazendo-o para mais perto para poder sussurrar:

— Escuta aqui, seu maluco intolerante; eu tenho zero paciência com gente ignorante como você. Eu só não quebro a sua cara porque infelizmente você é meu sogro, senão já teria parado seu show há muito tempo. – O mais velho o encarava com ódio na feição. – Sim, aos seus olhos eu sou uma aberração, um imundo, o caralho de asa, mas aqui no mundo real eu sou a porra de um homem muito influente, a ponto de fechar esse muquifo que você chama de igreja. – Vendo que o homem estava chocado demais para falar, ele seguiu. – Chama isso de casa de Deus? Vocês são uma piada de mau gosto. – Largou o braço do pai de Jin e o encarou pela última vez. – A próxima vez que eu sonhar que você tentou agredir meu marido novamente, vou me certificar que será a última. Seokjin não é mais o garoto indefeso que você tratava como saco de pancadas, agora ele sabe se defender, e tem quem o defenda também. Já peitei muita gente graúda por causa do seu filho, Sr. Kim, me livrar de gente como o senhor seria fácil demais, então não me tente. – E virando-se de costas ele foi para trás de Jin e passou o braço por sua cintura, o abraçando.

— Eu acho que vou ficar mais um tempo aqui – disse o modelo com algumas marcas de lágrimas no rosto. Namjoon só queria que estivessem em um lugar mais privado para poder pegá-lo no colo novamente e confortá-lo.

— Tudo bem, só preciso ligar para Hoseok e cancelar minha agenda para amanhã.

— Nam, não precisa. – O mais novo segurou a sua mão e o puxou para uma das mesas vazias em que serviam a comida.

— A nossa parceria vale para ambos os lados, Seokjin, se você arruma um espaço na sua agenda para os meus compromissos, por que eu não faria o mesmo? E além do mais, é a sua mãe. – Muito fragilizado, Jin não conseguia sequer agradecer, o que Namjoon entendeu completamente.

Passaram a noite inteira lá, e ninguém tinha a coragem de lhes dirigir a palavra. O pai de Jin, acuado, só encarava o filho com olhares de ódio, mas nada dizia.

Ao amanhecer, seguiram para o cortejo do corpo, e foi um momento bem difícil para Jin. Namjoon se ausentou por alguns minutos para atender uma ligação, mas quando voltou lhe deu total apoio e lhe carregou de volta para o carro para enfim voltarem pra casa.

Jin se sentia amortecido. Desde o dia anterior já estava fora de si, mas o enterro foi muito além do que ele poderia suportar. A ficha caíra de que não veria mais sua mãe, e não tivera a oportunidade de se despedir da mulher que o criou, e de seu modo frágil e quase sem possibilidades, o protegeu.

Namjoon se assustou quando ainda no carro o soluçar transformou-se em uma convulsão. O marido virou-se de lado e se jogou sobre si, o rosto afundado entre o ombro e o pescoço do empresário. Encarando Kai pelo retrovisor, ele fez um gesto para o segurança acelerar.

Quando chegaram, ele carregou aquela criatura desolada porta adentro, e ficou pensando no que poderia fazer para ajudá-lo. lembrou-se da morte da mãe e no quão fundo em sua dor ele chegara, a ponto de esquecer-se de tudo ao redor, inclusive de viver. Então era isso que faria por Seokjin.

Levou o marido até o próprio quarto, tirou seu paletó e gravata e em seguida começou a despir o marido. Jin tinha um olhar perdido para frente, era apenas uma casca vazia, não estava ali realmente. Quando ele estava apenas de cueca, Namjoon o carregou até a banheira, que tinha previamente enchido com água morna e sentou-o lá. Retirou a última peça que faltava do modelo e ainda vestido, entrou na água consigo, sentou-se atrás de Jin apoiando seu corpo enquanto o banhava. Ao contrário de sua própria natureza, ele tentava ser delicado e gentil com sua limpeza, os movimentos suaves surgiram por instinto, juntamente com a música doce que murmurava de boca fechada enquanto se concentrava em seu trabalho. não percebeu, mas o companheiro fechou os olhos e acompanhou um pouco mais relaxado aquele cuidado, comovido, e no final do banho, Seokjin já tinha adormecido.

Por ser trabalhoso demais, Namjoon decidiu após enxugá-lo que vestiria apenas uma cueca nele, e aquele boneco de 1,80 de altura inanimado não reclamava de nada que ele fazia, então sentou-o na beira da sua cama, ligou o secador, e com muito cuidado, secava as madeixas negras, delicadamente enquanto fazia carinho no enlutado.

Jin acordara e já era noite. Percebeu que não estava na sua cama e que não dava a mínima pra isso. A lembrança do porquê estava dormindo até aquela hora o atingira com tudo, e a dor no fundo do peito ameaçou afoga-lo. Antes mesmo de perceber, dois braços o envolveram firme, e um corpo sólido encaixou-se trás do seu.

— Eu sei que você não está dando a mínima pra nada nesse mundo agora, Seokjin, mas vamos tentar as coisas básicas primeiro, ok?! Agora, eu só peço que você lembre de respirar. – Jin não sabia como ele sabia que o ar lhe faltava, que aquela agonia era demais para seus pulmões. – Um movimento de cada vez; puxe profundamente a respiração. – E para ilustrar, ele sentiu o peito atrás de si inflando, movendo-o no processo. Fez a mesma coisa e doeu. Muito. – Agora solte, devagar. – E o contato conforme o peito musculoso se esvaziava, foi se findando. Jin soltou o ar rápido demais, o que trouxe lágrimas aos seus olhos. Sentiu uma mão grande agarrar sua cintura e mover seu corpo para o outro lado. Ficou cara a cara com seu marido, de pijamas e cabelo desgrenhado, lindo como em seus sonhos. – Tudo bem chorar, nosso corpo não suporta tanta dor. – E as lágrimas desciam vertiginosamente, enquanto a mão grande e desajeitada tentava enxuga-las. – Vai doer todo dia, pra sempre. O que nós fazemos agora é aprender a conviver com a dor. – encara os olhos de Namjoon com tanta vulnerabilidade que o mais novo só queria se trancar no quarto com o marido e nunca mais deixar nada machucá-lo.

— É insuportável, Nam, eu não sei se vou aguentar. – Sentiu a voz quebrar e imediatamente os braços grandes o envolverem novamente e apertarem-se contra si.

— Vai aguentar sim, porque não há outra alternativa. – Os dois se encaram novamente, os olhos intensos e determinados do mais novo o surpreenderam. – Eu preciso que você suporte, Seokjin, me mata te ver desse jeito. – Tocado, o mais velho aproximou seu rosto do dele e lhe deu um selinho, cálido.

— Há dias em que é um inferno estar casado com você, Namjoon; mas por ser você, faz tudo valer a pena. – disse fechando os olhos e deixando a exaustão o levar. E quele Jin adormecido jamais imaginaria que o marido permaneceria o resto da noite velando seu sono enquanto sorria como um bobo apaixonado.

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Uma semana se passara desde que Jungkook flagrara a conversa de Taehyung com Jimin, e até agora o loiro não sabia o que tinha acontecido. Fora dormir naquele mesmo dia na casa de Yoongi, mesmo não estando nos seus planos, para dar privacidade aos dois, mas quando chegou em casa no outro dia de manhã não encontrara nada que evidenciava que houvera alguma noite de sexo naquele apartamento. Jungook lhe sorria inocente sempre que ele questionava poque todo quele mistério e desconversava. E Taehyung estava há uma semana calado, sem nada pra dizer a respeito disso.

Aborrecido, resolvera chamar os amigos para beber em sua casa, tinha que extrair essa informação de alguém a qualquer custo; Jin e Namjoon recusaram o convite, ele entendia totalmente, o amigo perdera a mãe há muito pouco tempo, mas o resto da turma havia confirmado.

Quando percebeu, a cozinha (lugar favorito de interação de ambos os moradores) estava lotada, e um Yoongi muito sério encarava seu copo de uísque. Por que Jungkook o convidara mesmo? Taehyung estava mais retraído que o normal, jogava olhares desconfiados para Kook enquanto conversava com Hoseok. Ele resolveu deixar todo mundo bêbado pra ver se conseguia as respostas que queria. Depois de muito soju e cerveja, Yoongi que era o único tomando uísque estava quieto observando seus amigos falando besteira enquanto um anormalmente calado Jimin os observava. Assim que Hoseok caiu de bêbado e foi levado para o sofá por um Jungkook que não conseguia parar de rir, ele viu o loirinho encostando no melhor amigo que estava arredio, mas porre demais para fugir.

— Por que não me falou nada sobre a noite que dormiu aqui, hein Taetae? – o moreno com os olhos um pouco caídos por causa da embriagues o encarou, mal humorado.

— Porque não é da sua maldita conta, Jimin-naja. – O loiro fez uma falsa cara de ofendido e lhe deu um tapinha no ombro.

— Vai mesmo fazer isso com o seu melhor amigo?

— Você é intrometido demais as vezes, chim. – Os dois riram e o moreno observou mais a frente o outro par de amigos conversando no sofá enquanto ajeitavam o Jung desacordado.

— Vai me dizer ou não? – ouviu o suspiro do amigo e percebeu que ele desistira de esconder.

—- não dormimos juntos naquele dia, chim. Ele me fez um jantar, e tivemos uma longa, complicada e esclarecedora conversa. Ele me deixou em casa e nos beijamos, mas foi só. – Taehyung não disse nada além disso, mas pelo que conhecia do amigo, Jimin sabia que ele estava mexido.

— Não vai me falar nada além disso, não é?!

— Você sabe que eu só falo quando estou pronto. – O loiro concordou e resolveu deixar pra lá.

Ao fim da noite, Hoseok estava dormindo muito pesado pra ser levado de volta para casa, então resolveram deixa-lo lá. Yoongi estava pesadíssimo de tanto que bebeu, e Jungkoon resolveu levar seu hyung pra casa. Taehyung aproveitou a oportunidade e pediu pro mais jovem leva-lo também.

Depois de deixarem o Min em sua mansão, o silêncio dentro do carro era torturante. Taehyung não sabia como o mais novo conseguia manter a calma e a concentração depois de tudo o que conversaram, de tudo o que passaram. A noite na semana passada não saía da sua mente. Suas palavras assertivas, seu jeito direto e objetivo, dizendo o quanto o desejava, mas que ele pensasse com calma sobre o que ele queria, porque não misturava as coisas; se quisesse só sexo casual, nunca passariam disso. E Tae jamais ia se esquecer o que sentiu quando Jungkook o beijou pela primeira vez. Sua cabeça rodou e nunca mais voltou para o lugar.

Ao chegarem ao seu prédio, o Jeon estacionou e ficou em silêncio, esperando o próximo passo do Kim. Ficaram alguns segundos no mais completo silêncio, até que o modelo resolveu acabar com aquele clima horrível.

— sobre o que conversamos semana passada... – ele olhou para o Jeon e encarou seus grandes e expressivos olhos, quase sem coragem pra continuar. – Eu fiquei muito confuso. Você me chamou pra transar naquele dia, mas quando eu cheguei me disse aquele monte de coisas e me deixou a cargo de resolver o que poderia rolar entre a gente. – O mais novo concordou, calado. – Mas o que você quer de mim? Não me leve a mal, você foi super atencioso comigo e me deu uma escolha, o que é mais do que eu geralmente recebo da maioria dos caras, mas eu não sei se o que é certo pra mim é certo pra você. – Jungkook o encarou e decidiu colocar todas as cartas na mesa.

— Eu sempre quis você, Taehyung, desde que eu o vi em um desfile em Nova York seis anos atrás. – O mais velho estava muito surpreso com aquela revelação. – Lembra o fã que Hoseok hyung queria te apresentar? Sou eu.

— Por isso me tratou daquela forma fria quando fomos apresentados? – Jungkook franziu o cenho, confuso.

— Não tratei você de forma fria, apenas respeitei sua decisão. Percebi que você não estava no clima pra conhecer alguém novo e deus me livre entrar a sua friendzone. – Ficou todo bobo quando o sorriso quadrado apareceu. – Hoje em dia acho uma boa você ter se recusado a me conhecer, eu pude ter a oportunidade de ver quem você é sem o verniz das câmeras e o glamour da passarela, e você pôde me conhecer pelo que eu sou de verdade, pelo ponto de vista e convivendo com as pessoas que eu mais me sinto à vontade na vida.

— Eu percebi que você tem duas personalidades. – brincou Tae.

— Eu tenho uma persona. Quem eu sou profissionalmente é uma pessoa que foi forçada a crescer rápido, que levou uma vida bem dura apesar de ter nascido em meio ao privilégio. A pessoa que você conheceu ao redor de Namjoon e Yoongi é o garoto inocente que ama a família que a vida deu a ele e é curioso por natureza. Eu sou os dois, Taehyung, mas o segundo raramente aparece. – Tae concordou, o encarando sério. – Não sou vulnerável na frente de todo mundo, posso ser novo, mas já fui machucado de formas que você com sua vida difícil jamais sonhou. Preciso proteger o meu coração. O Jungkook vulnerável é completamente apaixonado por você, e por causa disso, o Jungkook maduro olha muito bem por onde pisa. Porque de todo mundo que pode me magoar, você é quem tem mais poder em mãos. – Ao ver os olhos do Kim marejados, ele solta um suspiro. – Te dei uma escolha porque eu não quero que o que eu sinto te pressione, mas você me pediu pela verdade. Posso ser só um caso pra você, sem problemas, porque sabendo que não posso ter nada além do que seu corpo, vou saber como proteger meu coração; mas sei também que não é isso que você curte, e não é isso que merece. Você merece um cara que cuide de você, que te mime, que te trate como um príncipe, porque é isso que você é. – ao ver as lágrimas rolando, ele as enxugou e deslizou uma mecha do cabelo negro de Tae para trás da orelha. – Eu quero, do fundo do meu coração que você experiencie uma relação saudável, que se sinta valorizado, e quem quer que esteja com você não tenha vergonha de segurar a sua mão. – Ao dizer isso, ele pegou a mão de dedos longos e elegantes e deu um beijo em cada palma. – Eu quero que você encontre muito essa pessoa, seja ela quem for; mas preciso te dizer que eu seria o cara mais feliz do mudo se você me permitisse provar que eu posso ser essa pessoa pra você, Taehyung. – E antes mesmo de retomar seu fôlego, sentiu os lábios do Kim sobre si.

Mesmo que aquilo não tenha sido uma resposta clara, Jungkook se contentou com o agora, porque desde a semana anterior estava sonhando com o beijo que dera no modelo, e naquele momento confirmou o que tinha pensado antes: Nunca conhecera alguém como Taehyung.

Os braços longos envolveram seu pescoço e a mão grande apertou os cabelos de sua nuca, fazendo o mais novo gemer em expectativa. Assim que o mais velho desatou o cinto de segurança e pulou em seu colo, ele sabia que teria que ser rápido ou não conseguiria mais raciocinar. Passou uma das mãos por trás do pescoço de Tae e o fez encará-lo.

— Preciso saber da sua resposta antes de continuar, Kim. – O sorriso quadrado enfeitou a boca linda e ele quase perde o foco novamente.

— Por quê? Vai me dar um anel, Jungoo? – mesmo amando o apelido, ele deu um beliscão provocativo na cintura do modelo. Depois, inclinando seu corpo abriu o porta luvas do carro e tirou de lá uma caixinha de uma joalheria mostrando para ele.

— Você está brincando agora, mas eu não. – disse baixinho. Não tinha muita confiança no que estava fazendo; sabia ser precipitado demais, mas esperou por seis anos uma oportunidade daquelas. Taehyung pegou a caixa da sua mão e a abriu, observando os dois anéis prateados. Uma par de alianças, finas e discretas, mas estavam ali. O que queria dizer que Jungkook falava muito sério.

— Não sabia que você era emocionado assim. – o mais novo deu de ombros, olhando para cima e tentando desvendar a expressão do outro, que encarava as joias na caixa.

— "vá com tudo ou vá para casa" sempre foi o meu lema, Tae. – Os dois riram e o mais velho tirou a menor aliança da caixa, colocando no próprio anelar.

— A única casa para a qual você vai, garoto, é a minha.