Já era segunda-feira e Jin estava esgotado. Passou o final de semana na companhia de Namjoon, acertando coisas sobre sua convivência mútua; escolheram decoração para o apartamento que o empresário tinha acabado de comprar e eles foram visitar e, claro, marcar a data do casamento.

A parte que mais o estressava era justamente essa. Ele tinha que abrir mão de uma semana da sua agenda para isso, pois como o casamento homoafetivo não é legalizado no país, eles teriam que viajar para a Europa. Depois disso vinha o interminável processo para registrar o casamento na Coréia, e consequentemente a guerra na mídia que isso causaria. Ele tinha dois meses pra organizar sua roupa, sua agenda e empacotar toda a sua vida para se mudar para a cobertura que recentemente decorou com Namjoon. Ele sabia que sua vida ia mudar, mas aquilo era cansativo.

Andava distraidamente pelo saguão principal da empresa, quando a figura do seu ex-agente surgiu bem na sua frente. Ele estava com olheiras, barba por fazer e cabisbaixo.

— Jin, você pode me acompanhar por cinco minutos ao café? – até o tom de voz arrogante sumira, mas Jin não estava doido.

— Sai fora, seu sociopata, não quero papo com você. – E saiu andando. Porém, antes de dar mais um passo, o outro lhe segurou o braço. Kim notou que ele não usara força, como sempre fazia, era apenas para chamar a sua atenção.

— O que nós conversamos sobre contato físico, hein?! – Jin se sobressaltou com a voz que surgiu do nada ao lado do ex-namorado. Um Jungkook de piercings em todos os lugares, jaqueta de couro e olhar afiado por trás dos óculos de grau de armação vintage estava ao lado deles com as mãos dentro dos bolsos e mascando um chiclete, despreocupado.

— Me desculpe, senhor — disse Jihoo se afastando imediatamente de Jin e abaixando a cabeça. O modelo olhou seu recém descoberto amigo que lhe deu um sorriso fofo.

— Vamos nos sentar, Hyung?! Esse imbecil tem algo a tratar com você. – disse se encaminhando para a lanchonete que ficava no térreo.

Ao sentar à mesa, Jin viu o agente tirar de dentro de uma pasta um documento já assinado e lhe entregar.

— Esta é a rescisão do nosso contrato, como está partindo de mim você não será brigado a arcar com despesa nenhuma por causa disso. – Jin apenas acenou com a cabeça. Ele engoliu em seco e tirou mais um documento da pasta. – E esse aqui é um contrato de confidencialidade, que me proíbe de dizer qualquer coisa a respeito de você em todos os anos que trabalhamos juntos. Ele é detalhado e foi redigido pelos advogados do Sr. Jeon. – O loiro levantou a cabeça e viu Jungkook acenar em confirmação. – Esses dois documentos põem fim a qualquer vínculo que temos e é com ele que eu me despeço de você. – disse, calando a boca em seguida.

Não satisfeito, o mais novo cruzou as pernas e pigarreou, o que fez o antigo carrasco de Jin fechar os olhos e suspirar.

— Também te devo um pedido de desculpas pelo que eu fiz, você nunca mais vai precisar olhar para a minha cara. – E mesmo com as desculpas, Jin via ali o ódio latente no olhar do homem. Aquela humildade não ia durar muito. – Deus do céu Jin, pra quem você está dando pra contratarem esse gorila pra vir atrás de mim? – e se assustou com o murro que o Jeon deu na mesa.

Jungkook puxou um pouco a jaqueta para o lado, mostrando para o agente o que tinha em sua cintura; e seja lá o que fosse, Jin viu a cor do rosto do homem sumir. Ele abriu a boca pra falar, mas sua voz saía muito trêmula:

— Ci-ci-cidadãos coreanos não po-podem portar armas de fogo- e se calou assustado quando o moreno aproximou demais o rosto do seu.

— Corrigindo: coitados como você não podem portar armas de fogo na Coréia. EU posso fazer a porra que eu quiser nesse país. – E se afastou jogando um beijinho e dando um sorriso malicioso para o ainda mais amedrontado homem. – Bom, já fizemos o que tínhamos que fazer aqui, seu pedaço de merda, então levante essa bunda horrorosa da cadeira e entre naquele carro preto que está te esperando ali na porta. – disse apontando para a saída. – Ele vai te levar pro aeroporto e o motorista vai se assegurar que você vai entrar no avião, ok?! – disse dando dois tapinhas seguidos no rosto pálido de Jihoo. – E lembre-se: se você voltar para a Coréia, eu serei o primeiro a saber. – E como se fosse uma deixa, o homem saiu correndo de lá rumo ao carro preto brilhante que o aguardava.

Jin estava estupefato. Quem era aquele homem?

Ao ver o carro partir, o moreno se voltou para o amigo e lhe deu um sorriso sem graça.

— Me desculpe por isso, Jin Hyung, mas às vezes eu preciso entrar no personagem. – disse com cara de culpado e fazendo uma mesura. – Não vou mais tomar o seu tempo. – Jin concordou com a cabeça, e segurou a mão do caçula antes que este a tirasse da mesa. Jungkook o olhou assustado.

— Muito obrigado por isso, Jungkook, de verdade. Eu nunca vou esquecer o que você fez. – O sorrisinho fofo apareceu em um Jeon envergonhado e ele apertou de volta a mão do mais velho.

— Não precisa agradecer por nada, Hyung, você é família agora. – disse partindo para onde ficavam os elevadores.

Alguns segundos depois, Taehyung surgia com Jimin e ambos se sentaram a sua frente.

— Que papelada é essa, hyung? – perguntou Jimin já lendo os documentos.

— Minha carta de alforria, meninos. – E com a total atenção dos dois ele explicou o que eram os documentos.

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Taehyung caminhava animado pelas ruas de Seul em direção ao seu café favorito. Estava feliz porque conseguira folga na agenda para a semana de casamento de Jin, então poderia viajar com o amigo. Entrou na cafeteria e a atendente o reconheceu de cara.

— O de sempre, Taehyung? – perguntou ela animada.

— Claro, Jisoo, sou uma criatura de hábitos. – disse dando uma piscadinha. A moça riu e prosseguiu o atendimento. Enquanto esperava ela terminar os processos de preparação do café, olhou ao redor da cafeteria, dando de cara com uma cena que não gostara nem um pouco:

Park Bogun, seu ex-namorado, por quem ele ainda era apaixonado, estava aos beijos com uma moça em uma das mesas do fundo.

— Um expresso duplo, por favor. – Ele ouviu ao fundo uma voz macia pedindo, mas não conseguiu se mover ou olhar para outro lugar. Em cima da mesa, havia um bolo com os dizeres "Feliz 1 ano de namoro", e enfeites dos mais cafonas possíveis. – Vou aguardar o café na mesa – disse o homem no fundo, e Tae sentiu um ombro forte esbarrando em si. – Desculpe. – disse o rapaz, e o modelo apenas fez uma reverência se desculpando também, olhando para o chão o tempo inteiro. Não esperou a sua bebida, saiu imediatamente do estabelecimento e seguiu sem rumo pelas ruas.

Ainda dentro do café, o homem observava por cima dos dedos cruzados o casal feliz se beijando em público. Seu café fumegante foi servido e ele bebericava tranquilamente o líquido que descia amargo por sua garganta. Droga, havia esquecido de adoçar, mas agora ia assim mesmo. Quando os pombinhos se desgrudaram e engataram em uma conversa animada sobre seu futuro juntos, ele puxou a moça do balcão pra perto dele e perguntou.

— O que houve com o rapaz que saiu daqui meio abalado? – a moça morena olhou para o casal de cara feia e deu de ombros.

—Não sei exatamente, senhor. Taehyung costumava vir sempre aqui com ele, eram muito unidos, mas quando Tae chegou aqui nem o cumprimentou, e foi embora sem levar o café. – O rapaz agradeceu e voltou sua atenção para o seu café. A moça, que estava aos beijos com o namorado, olhou em sua direção e lhe encarou, impressionada. Não lhe importou o mínimo que ela tivesse feito uma pose tímida e corado, tinha asco daquele tipo de pessoa. O celular do namorado começou a tocar e ele rapidamente o virou com a tela para baixo, e foi quando o observador prestou realmente atenção no diálogo na mesa.

— Quem era, Bogun?! – perguntou a jovem com a voz doce.

— Coisa do trabalho, amor, nada importante. — Desconversou o rapaz claramente nervoso, mexendo no cabelo dela.

Ok, chega dessa merda.

Resgatou seu celular esquecido em cima da mesa e procurou um contato em sua agenda.

— Alô? Sr. Choi?! Jeon Jungkook falando. – Esperou o homem no outro lado da linha responder para continuar. – Não, não estou ligando porque voltei atrás na decisão de trabalhar para o senhor, mas estou curioso quanto a uma coisa... Sua filha já namora? Tenho que lhe dar os meus parabéns, seu genro parece um bom rapaz, alto, bonito... espero o convite de casamento, sim?! – afastou o aparelho do seu ouvido para poupá-lo e depois voltou. – Vou lhe passar o endereço como cortesia. – E simplesmente desligou.

Terminando seu café, ele mandava a localização para o número do mais velho e sorria para a garçonete enquanto checava as horas. Passado 10 minutos, levantou-se, cumprimentou Jisoo agradecendo pelo delicioso café e saiu para a rua, no exato minuto em que três USV's estacionavam em frente à calçada e mais ou menos uma dúzia de homens engravatados entravam no prédio.

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Hoseok chegou em casa dando de cara com um Tae de rosto inchado e lenços de papel por toda a sala.

— O que houve? – perguntou o secretário preocupado.

— O Bogum, hyung, ele... – e o resto Hoseok não conseguiu compreender no meio dos soluços e gritos.

— Quer que eu chame os rapazes? – o modelo negou com a cabeça.

— Eles só vão me dizer que ele não presta e aquela ladainha que eu tô cansado de saber. – Hobi riu e sentou-se ao lado do amigo.

— Porque é verdade, Tae. – Pela primeira vez desde que essa relação ioiô começou, Taehyung concordou com ele. – Eita, foi sério assim? – O Kim assoou o nariz em um lencinho e o encarou.

— Eu o vi comemorando o aniversário de namoro com uma garota. – O Jung arregalou os olhos e sentiu sua fúria subir.

— Além de tudo é cafona, quem comemora mesário de namoro, meu pai?! – e voltando a chorar, Tae respondeu gritando.

— Era aniversário de um ano! – Hoseok paralisou, chocado com a notícia. – Eu não estou mais triste, Hyung, eu estou furioso! É por isso que tô chorando tanto! Eu quero que aquele traste se ferre muito na vida! Quero que o universo castigue aquele merda da pior maneira possível! – e com essa deixa seu celular toca. – é o Jimin. – disse atendendo. – O quê? Noticiário das oito? – o mais novo fez um sinal apontando para a TV e o Jung a ligou.

"... o ator de 29 anos, Park Bo-Gun foi preso em flagrante por envolvimento com uma menor de idade. Ele foi flagrado pela família da jovem, em uma cafeteria ao norte de Seul..."

— Foi onde eu os encontrei. – disse Taehyung, chocado. Hoseok olhou aquilo intrigado, e puxou seu celular.

~Hope

Foi você, Jeon?

~Jungkoook

Não sei do que você está falando, Hyung.

...

Como ele está?

~hope

Sabia! Estava mal, até ver o noticiário.

Agora só está chocado.

~Jungkook

^^

Não ia conseguir tirar mais nada dele mesmo, então largou seu celular. A vontade de rir brotava cada vez que olhava para a tela e via o imbecil algemado entrando na delegacia. Hobi tinha que admitir, Jungkook era dos seus.

O Kim deitou-se no sofá, apenas fungando um pouco, bem mais calmo da crise. Sabendo que ele tinha trabalho no dia seguinte, Hope levantou-se e foi buscar uma máscara de gel na geladeira para aqueles olhos.

Ao voltar, encontrou o amigo quietinho no sofá olhando melancólico para o teto. Colocou a máscara no rosto inchado e sentou-se novamente ao seu lado.

— Será que um dia eu vou ser amado como eu mereço? – o Jung se assustou com a profundidade da pergunta. – Porque eu sei que eu mereço um puta amor de cinema, hyung, com um cara incrível que vai me tratar como um rei. – O mais velho riu e fez um carinho na franja bagunçada do amigo.

— É claro que você merece, e é claro que você vai encontrar essa pessoa, Tae, você só precisa parar de achar que ele está em cada imbecil que encontra pelo caminho. Ninguém fica carinhoso com o tempo, meu bem, se a pessoa te trata mal no começo a tendência é só piorar. Você estava esperando um milagre daquele babaca. – Tae concordou silenciosamente e suspirou.

— Então o segredo é ficar com o cara que me trata bem e cuida de mim desde o começo?

— Exatamente, querido.

— Onde eu vou encontrar um cara assim, Hoba? – Hoseok soltou uma risadinha misteriosa que intrigou o mais novo e começou a fazer um cafuné em si que o deixou molinho.

— Pare de procurar, taetae, ele vai tropeçar em você quando menos esperar.

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Jungkook voltara para a casa de sua família para buscar alguns pertences que faltaram na sua mudança; sentiu falta de umas roupas e alguns acessórios durante as semanas e resolvera esvaziar aquele lugar de vez.

Agora recolhendo seus pertences se perguntava porque tinha ido lá. Encarava toda a corja de Seul com um sorriso no rosto, mas não tinha coragem para enfrentar o pai e os irmãos. Está certo que eles pararam de lhe bater quando voltou de sua viagem há dois anos, mas as outras violências continuavam, se possível, piores que antes. Todas as humilhações diárias, as chacotas e as provocações, sabia que tinha que dar um basta naquilo, mas não conseguia. Era bom com os braços, mas sua língua enrolava e ele gaguejava quando tinha que enfrentar a família.

Catou absolutamente tudo que era seu, desceu as escadas bem no momento em que seus dois irmãos o encurralaram.

— O Sr. Choi ligou para o papai agradecendo-o. Foi você que deu a dica do atorzinho? O que é, tá querendo casar bem pra dar o golpe na gente? – o irmão do meio de Jungkook falava e empurrava o seu ombro com uma das mãos. O caçula permaneceu calado, não estava no clima.

— Não, seu pateta, esqueceu que ele gosta mesmo é de uma bunda peluda? – o mais velho interrompeu. – Escuta aqui, Jungkook, nunca mais faça um movimento desses sem pedir a minha autorização. Pensa que só porque come o rabo do Kim tem alguma autoridade nessa cidade? Eu mando aqui! Na próxima, eu te demito! – disse apertando a mão no pescoço do irmão.

Jungkook foi tomado por uma fúria gélida, e sem hesitar, encarou o irmão mais velho:

— Você tem três segundos pra tirar a sua mão do meu pescoço senão eu vou cortá-la fora. E aí você não vai ter mais como bater punheta vendo aqueles pornôs bizarros que você gosta. – O primogênito soltou seu pescoço na hora. – Mas aí eu posso resolver também, não é?! É só cortar seu pau fora enquanto você estiver dormindo. – disse com um sorrisinho simpático. – por que é exatamente isso que eu vou fazer se você encostar a mão em mim ou me ameaçar de novo. – Ele encarou o irmão do meio que tinha os olhos arregalados. – Me demitir? Vai em frente, o cara que vocês dizem que eu como tá doido pra abrir uma empresa de segurança e me contratar como CEO, e vocês sabem quem eu vou contratar pra trabalhar nela? Seus funcionários, que eu treinei e que gostam mais de mim do que de vocês, e não vão pensar duas vezes em me seguir onde quer que eu vá. Eu sei que sou um ignorante e incompetente, mas ser CEO e diretor executivo de uma empresa especializada em segurança e não assinar um contrato de não concorrência com seu diretor de operações? UAU, vocês realmente me humilham. – Terminou o tatuado passando pela porta. – Digam pro papai que eu dei tchau. – E foi sozinho para a garagem.

Entrou em seu carro e deu partida, voando pelas ruas da cidade. Seu rosto coberto em lágrimas deixava claro que mesmo sendo um adulto, forte e independente, sempre seria aquele garotinho triste e carente de amor que fora a sua infância inteira. Palavras o machucavam de uma forma que ele não conseguia se defender, e estava exausto daquilo. Conectou o celular no bluetooth do carro e ligou para Namjoon.

— Kook? O que houve? – a voz do amigo estava rouca, o que sinalizava que ele acabara de acordar.

— Você está na mansão, hyung?

— Não, já estou no meu apartamento, me mudei ontem. – Ao ouvir o fungado do mais novo, o Kim se preocupou. – Jungkook?

— Posso dormir aí hoje, hyung? – pediu tímido.

— Você sabe que não precisa me perguntar isso, garoto. Venha, você sabe a senha.

E desligando a chamada, o Jeon rumou para a casa da sua família de verdade.