Real

1 Quem é você?


Por que existem coisas tão bonitas e magníficas esquecidas pela humanidade? E que se tornam cada dia mais opacas aos olhos do que chamamos de “sociedade”? O quanto o ser humano pode ser ignorante, ou ao menos fingir que é, para não ser capaz de enxergar a realidade que não existe? Aquela que cada um pode interpretar de maneiras diferentes, mas sempre a deixam de lado, esquecida, invisível.

Eu estou aqui, em matéria física, existindo, simplesmente, caminhando sem rumo. Uma enorme praça, cheia de crianças correndo e rindo, mães conversando, velhos jogando xadrez, vendedores de cachorro quente, salgados, balões, doces. Não faço a menor ideia de onde estou, quem sou eu, ou o que estou fazendo aqui. Qual será minha história? Eu não lembro, ou acho que nunca tive uma. Estranho, tudo tão nítido, tão claro, consigo sentir minhas mãos, meu peito puxando o ar e soltando lentamente, o sangue quente correndo por minhas veias, minha boca está seca, os lábios quebradiços.

Existem tanto sons ao meu redor., posso ouvir buzinas, o canto dos pássaros, risadas exageradas, passos acelerados, vozes irritadas. Tudo tão limpo e alto, cada um com seu tom, cada um com sua beleza, o vento bate forte em meu rosto, bagunçando meus cabelos, tudo tão, vazio.

Claro, não podia me esquecer das cores, o que seria do mundo sem as cores? Elas vibram, elas dançam. Elas passam por mim, viajando em alta velocidade, brincando como jovens apaixonados. Eu consigo ver, flores, pedras, roupa, folhas, arvores. Eu consigo ver a cor dentro de cada um deles, não a sua verdadeira cor, mas uma cor especial, eu todos podem enxergar, mas ninguém quer ver.

Por que tem um garoto me chamando do outro lado da rua? Ele grita e gesticula, mas eu não consigo compreender, ele está mudo. Ele se cansa e começa a se afastar, como se estivesse com medo de algo, com medo de mim. Um súbito tormento me preenche, suas palavras, seu rosto expressando medo, o que ele dizia? Eu tenho que descobrir, eu preciso descobrir! Eu pareço correr no lugar, as coisas parecem estar paradas, como um relógio parado no tempo. Ele parou! O que está acontecendo? O sinal está verde, um verde brilhante, um vulto muito rápido, como uma sombra a espreita, imperceptível a luz. Não vejo nada, tudo está sumindo, sinto algo molhando meu corpo, algo quente, os sons do silencio, as cores. O garoto se vira pra mim, e sorri.

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