Reacendendo
2 Ódio
Notas iniciais
— Mãe? Pai? — minha voz ecoou naquela imensa floresta escura. Eu estava com os cabelos bagunçados, suja de sangue e com uma faca nas mãos. Era estranho, eu conseguia me ver.
— Norah! Filha! Você chegou! — ouvi a doce voz da minha mãe em um lugar mais escuro da floresta. Entrei sem medo e ouvi grunhidos. Cada vez que eu me aproximava, mas eu ouvia. Foi quando, minha mãe se jogou em cima de mim, e os grunhidos estavam vindo dela, ela tentava me morder e eu tentava evitar, gritando e pedindo por ajuda. Brandon apareceu e colocou a arma na cabeça da minha mãe e…
— Norah!! Acorde!! — James me balançou com os olhos arregalados. Levantei da cama e passei as mãos no meu cabelo, eu estava suada e tremendo.
— O que foi? — disse com a voz falhada.
— Você estava gritando e se mexendo muito. — ele respondeu.
— Que horas são?
— 2:30 da manhã, chefia. — ele colocou um tom de brincadeira na voz e eu sorri.
Levantei da minha cama e a arrumei. Disse a James que ele ficaria no comando enquanto eu iria sair para a expedição com Brandon, lógico que ele fez a brincadeirinha de mal gosto sobre, talvez, termos um "romance entre líderes". Isso me embrulhou o estômago e eu revirei os olhos.
Desci para a sala e arrumei o que eu iria levar, depois de arrumar tudo, peguei uma das folhas que estava na mesa e um lápis. Comecei a rabiscar um projeto de um gerador, e, no meio do desenho, comecei a pensar no que James tinha me falado. Talvez, o Brandon seria… Ah! Para de pensar besteira Norah! Não iria dar certo gostar de alguém, estamos no início de um apocalipse zumbi… ESPERA! Eu disse gostar?! Ah! Tenho que parar de pensar nisso! O Brandon me deixa muito bagunçada e eu… não gosto de pensar na possibilidade de gostar dele. Fechei os olhos e passei a ponta do meu dedo nos rabiscos da folha, tentando não pensar muito nele. Fui surpreendida por uma mão enrolando as mechinhas do meu cabelo, virei rapidamente e vi Brandon, ele corou e tirou a mão imediatamente do meu cabelo. Eu tentei parecer normal e virei o rosto para a janela. Segurei as mangas da blusa com mais força e fiquei em silêncio. Ele se sentou do meu lado e olhou pra mesma direção.
— Norah… Bom… Tá na hora de irmos, são 4:50. Eu fiz a ronda sozinho, você parecia cansada. — ele falava olhando para a janela, respirei fundo e olhei para o rosto dele.
— Eu dormi? — ele me olhou de volta.
— Sim, você dormiu. Eu tentei te chamar algumas vezes mas… você não escutou, na verdade, nem se mexeu. Então, eu lembrei quando acordava minha irmã mexendo nos cabelos dela e… tentei com você. — ele olhou para o chão e pareceu corar mais.
— Ah… Tudo bem. Bem… Ãh… Talvez esse seja o único jeito de me acordar. — sorri para ele e ele me retribuiu o sorriso. Ele me encarou por um longo momento e, eu detesto admitir que senti borboletas no estômago nesse momento, desviei o olhar a prendi meus cabelos em um rabo de cavalo. Ele se levantou e pegou as bolsas que iríamos precisar.
— Vamos? — ele me olhou novamente e eu fiz que sim com a cabeça.
Andamos até o carro e ele colocou as bolsas na mala e algumas no banco de trás. Ele ligou o carro e viu o ponteiro da gasolina. Fitou atentamente o painel e suspirou.
— Vamos ter que pegar as armas em uma delegacia próxima daqui e ir até um posto, essa gasolina não vai aguentar a ida e a volta nossa.
— Tudo bem… — dei de ombros e ele partiu com o carro. Arthur fechou o portão e em seguida estávamos na estrada, no silêncio, sem nenhum carro até agora. Em poucos minutos chegamos na delegacia e Brandon e eu saímos do carro. Eu peguei a faca que ficava presa à minha canela e Brandon um taco de baseball, ele abriu a porta da pequena delegacia que rinchou no silêncio daquela pequena cidade e em seguida ouvimos grunhidos próximos. Era um zumbi, de pelo menos, 1,90 de altura, ele deveria ser um peão pelas roupas e pelo estilo de cabelo. Eu e Brandon nos colocamos em cada lado da porta e o zumbi veio se rastejando, ele parou a uma distância da porta e cheirou o ar. Ele se virou em mediato para mim e me fitou atentamente, ele virou a cabeça como se tentasse me entender. Era extraordinária o jeito em que ele me olhava e tentava me compreender, como se ele tivesse tentando se lembrar de algo. Mas, tudo que é bom dura muito pouco, em poucos segundos, o zumbi curioso tinha pulado em minha direção e então, Brandon que também estava observando atentamente a reação do zumbi, plantou seu taco de baseball na cabeça dele, fazendo o zumbi cair sobre mim e sujar toda minha blusa branca.
— Brandon! — protestei com certo nojo daquele sangue preto que saiu da cabeça do zumbi.
— Me desculpa. Era melhor isso do que uma mordida Norah. — ele tentou se justificar e eu revirei os olhos. Brandon empurrou o zumbi e fez uma cara de nojo para o sangue que estava contido na minha blusa e no meu pescoço. Novamente, revirei os olhos e entramos com cuidado, olhando tudo.
Tivemos que matar mais três ou quatro zumbis naquela delegacia, todos policiais o que renderam armas para a bolsa. Pegamos todo material de agressão e armas contidas ali. Pegamos munições e coletes também. Depois de pegarmos tudo que fosse necessário, saímos da delegacia e vimos uma criança vagando perto do nosso carro. Ela olhava atentamente o reflexo dela e tentava tocar. Depois de alguns minutos fazendo o mesmo, ela saiu se arrastando até uma mercearia do local. Brandon me olhou e eu fiz que sim com a cabeça. Seguimos até o carro e guardamos as armas, munições e coletes no porta-malas, entramos no carro e ele encostou a cabeça no banco do motorista e respirou fundo.
— Você viu como aquele zumbi te olhou? — ele começou.
— Sim, eu vi. Achei estranho. Pensei que zumbis atacavam de princípio e não ficavam olhando e grunhindo pra gente como se nós estivéssemos entendendo eles.
— Talvez ele estava tentando dizer algo para você como: me desculpa mas, irei comer seu cérebro! — Brandon sorriu para mim e eu ri da piadinha idiota dele.
— Eu pensei que você estava falando sério quando começou a falar do zumbi. — falei com um sorriso no rosto.
— Bom, talvez ele estivesse tentando se lembrar de algo ou tento algumas… sei lá… visões. — ele disse por final e eu fiz que sim com a cabeça.
Talvez, o nosso zumbi curioso estivesse se lembrando da forma de vida humana, mas, não resistiu aos instintos de zumbi. Admito, isso é muito interessante.
Brandon parou em um posto para abastecer e conseguiu pegar alguns galões de gasolina para os outros carros. O posto era situado no Km 76, dois quilômetros longe da cidadezinha onde estávamos e 3 de onde meus pais moravam. Antes de irmos para a casa dos meus pais, passamos em mercearias para conseguir alimentos e lojas de roupas. No total, tivemos que enfrentar 13 zumbis e estávamos com a mala lotada. 10 daqueles zumbis enfrentados olharam para mim atentamente, como o primeiro de hoje.
— Agora nós… vamos? — perguntei insegura e com medo. Brandon sorriu para mim tentando me passar segurança e tocou a minha mão.
— Sim vamos, vai ficar tudo bem Norah.
Sorri para ele e seguimos até a casa dos meus pais. No caminho, eu vi carros abandonados no acostamento e alguns dos carros, tinham sangue em seus vidros. Imaginei as situações em minha cabeça e comecei a ter um pouco mais de medo. Tivemos que parar com o carro um pouco distante da casa, porque a estrada estava congestionada por carros e motos abandonados no local. Brandon abriu o porta-malas e me jogou uma Taurus 817 e pegou para ele uma espingarda da cor marrom claro. Ele me deu uma caixinha de munições e pegou uma para ele também.
— É importante não gastar todas as munições. — ele me alertou e assenti.
Andamos entre os carros e vimos algumas pessoas mortas e destroços de pessoas. Senti náusea mas aguentei firme. Andamos um pouco até a casa dos meus pais.
A porta da casa estava entreaberta e eu escutava uma música vinda da casa. Meus pais tinham o costume de ouvir sempre músicas pelo rádio de pilhas. Eu também ouvia barulhos vindos de mais dentro da minha casa. Abri a porta devagar e ela rinchou. Brandon veio atrás de mim vigiando. No que entramos na casa, ele fechou a porta.
— Pai? Mãe? — falei em um som bom e os barulhos que estavam vindo da cozinha pararam. Brandon fez com a mão um sinal para que eu parasse de andar também. Mas, no que eu parei de andar, voltei a ouvir os barulhos na cozinha. Fui devagar até a batente da porta da cozinha e vi… vi o que eu mais temia de ter acontecido… Eles estavam sendo comidos por outros três zumbis. Meus olhos estavam presos àquela cena e senti lágrimas escorrendo pelo meu rosto.
— Norah? — Brandon me chamou vindo por trás de mim e deu de cara com a mesma cena que tinha me paralisado. Ele me olhou e me viu chorando e entendeu, sem que eu precisasse falar o que havia acontecido ou quem eram as pessoas mortas no chão. Ele sacou a espingarda e deu três tiros nas cabeças dos três zumbis que estavam comendo os meus pais.
Sem fazer barulhos de soluços, fui abaixando no chão e chorando. Só escorriam lágrimas e mais nada. Aquela cena parecia ter deixado um vazio imenso dentro de mim, algo que parecia incurável. Brandon se abaixou perto de mim e secou as minhas lágrimas com o polegar.
— Eu sinto muito, Norah. — ele disse e eu abracei ele, eu não sabia porque tinha o abraçado, mas, talvez eu estivesse procurando um consolo.
Depois de longos minutos com ele me consolando falando coisas do tipo que vai ficar tudo bem, fomos até o quintal da minha casa e enterramos meus pais em duas covas, coloquei flores em cima e fiquei um longo momento olhando para as covas. As lágrimas não saíam mais, porém, o ódio de zumbis que havia ficado no meu coração era maior que qualquer outro sentimento que eu já senti. Fui andando até a casa e peguei um vestido da minha mãe e uma blusa do meu pai, peguei minhas roupas e toda comida que havia na geladeira. Pedi para que Brandon levasse tudo para o carro e que chegaria logo ao carro também.
Coloquei todas as fotos e álbuns dentro de uma mochila preta minha e dei uma última olhada na minha antiga casa, onde passei os melhores e piores momentos da minha vida. Aquele olhar seria a última lembrança concreta que teria dos meus pais. Desliguei o rádio de pilhas e saí da minha casa, trancando a porta com o ódio mais profundo preso dentro de mim.
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