Reabilitação
1 A primeira aparição
Notas iniciais
O primeiro olho de Ethan se abriu quando o som do canto do galo invadiu os seus ouvidos. Deu um longo bocejo, se espreguiçou e se levantou da rústica cama de madeira exibindo um ar cansado. Seria um dia longo e saber disso não era muito animador. Além das tarefas diárias que já fazia normalmente, o jovem fazendeiro solitário que habitava um casebre simples no alto de um monte teria que visitar o vilarejo a fim de vender leite, ovos e legumes para comprar alguns produtos que garantiriam sua sobrevivência. Tirando aquelas idas raras à cidade, Ethan passava o restante dos dias sozinho em sua casa tendo como companhia apenas duas vacas e meia dúzia de galinhas.
Sorriu ao ver a imagem que o espelho rachado do banheiro refletia. Era orgulhoso, se achava bonito e gostava de se manter bem arrumado. Apesar disso, não se enbelezava para os outros, se sentia bem fazendo aquilo apenas para si e talvez para seus animais. Penteou os cabelos lisos e castanhos com certa dificuldade devido aos nós que os mesmos possuiam, culpa da qualidade duvidosa dos shampoos baratos que usava. Era o que o seu dinheiro conseguia comprar.
– Bom dia Lisbeth, bom dia Louise. Devo dizer que seu pelo está mais brilhante, o que anda passando nele, hein danadinha? Oh, você também está linda Lisbeth, não há motivos para esse ciúmes...
Louco? Se não conversasse com suas vacas e galinhas, Ethan enlouqueceria de verdade com aquela solidão. Então não, ele não estava louco. Havia todo um ar ingênuo conforme ia falando com as vacas e retirava seus leites, havia pureza no jeito do jovem Ethan. Ele também tinha seus defeitos, era teimoso além de orgulhoso e às vezes demonstrava traços de ambição, por enquanto nada que fosse nocivo. Mas também não tinha amigos, o que não o impedia de cumprimentar a todos sempre com um sorriso fazendo dele alguém querido e respeitado no vilarejo.
Estava preparado para um dia normal e pacato, do jeito que gostava. Fervia o leite e coava o café enquanto o forno de barro assava uma massa branca que em breve se tornaria uma saborosa broa de milho. Foi quando uma forte luz vinda da janela da cozinha fez o fazendeiro se assustar. Seu primeiro pensamento foi que algo havia explodido do lado externo da casa, mas não ouvira barulho algum. Seu coração batia acelerado e sua mente o convencia de que fora apenas um golpe de vista. De qualquer forma, resolveu averiguar...
Quando abriu a porta, deu um passo trêmulo para trás com a visão que teve. Parado alguns metros à sua frente havia um jovem tão branco quanto uma folha de papel e completamente nu. Tinha o cabelo ruivo e ralo, quase careca, mas nada disso era tão surpreendente quanto aquilo que saia de suas costas. Eram... asas? Não era como as asas de suas galinhas, não tinha penas. Pareciam lisas, talvez feitas de algum metal, mas definitivamente presas à pele da criatura como se fizesse parte do seu corpo.
– Q-quem é você? — Demorou para que Ethan conseguisse dizer alguma coisa, começava a suspeitar de que era apenas um sonho ou alguma ilusão, deveria estar de fato enlouquecendo. O ser alado parecia se divertir com aquela situação, exibia um sorriso de canto como se já esperasse uma reação como aquela.
– Sou Leroy, um anjo. Eu tenho um pedido para lhe fazer.
– Olha rapaz, eu não sou nenhuma criança ingênua. Não estou com tempo para aturar mocinhos fantasiados de anjinhos na minha casa. Vou precisar chamar seus pais?
Ethan já havia se recuperado do susto. Começava a ver aquilo como algum tipo de brincadeira idiota de algum fedelho do vilarejo, nada que uma ameaça não resolvesse. O anjo pareceu lamentar e se aproximou do fazendeiro que deu mais um passo para trás.
– Não queria ter de usar desses meios, mas é preciso... — E repentinamente o ruivo estendeu sua mão e tocou o ombro do outro. Uma espécie de choque passou pelo corpo de Ethan, seus olhos se arregalaram e na sua frente viu verdades que jamais imaginou. Compreendeu a existência de anjos, demônios e talvez outras criaturas incomuns, e mesmo que fosse um tanto quanto cético com relação a essas coisas sobrenaturais, não tinha mais como não acreditar.
– N-não acredito! Como isso pode ser verdade? Como...?
Mais uma vez o anjo suspirou e um olhar de urgência pode ser visto em seu rosto. Olhou para o céu limpo e então segurou a mão de Ethan como se exigisse deste toda a atenção possível.
– Meu prazo é curto, não há tempo para enrolação. Eu preciso de você, tem algo que só um humano pode fazer e você me parece ser a pessoa certa... — O fazendeiro chegou a pensar que o outro choraria, mas será que anjos eram capazes de chorar?
- Mas... eu sou apenas um cara qualquer, eu sequer tenho dinheiro sobrando, sou um ninguém. O que um... anjo poderia querer comigo? — Chegou a fazer uma careta ao utilizar a palavra "anjo", aquilo ainda era novidade demais para sua cabeça.
- Acredite rapaz, se eu escolhi você é porque só você pode me ajudar, não duvide das suas capacidades, você tem, exatamente o que eu preciso. Agora, vamos ser mais claros. Você não tem muitas opções, se você disser não, eu darei um jeito de, bem, incentivá-lo a fazer o que eu quero. — Leroy exibia um brilho intenso nos olhos, uma determinação que fez com que Ethan compreendesse que não havia escolhas para ele. Apenas assentiu com a cabeça.
- Muito bem, sabia que você toparia. Agora deixa eu contar a história desde o começo...
E nos cinco minutos seguintes, o anjo fez uma longa narrativa. A cada palavra dita Ethan só ia tendo mais certeza de que seria um milagre se nessa mesma hora no dia seguinte não estivesse morto...
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