Raízes Italianas

2 Um marido e um frango temperado


Notas iniciais
Espero que gostem!

Após Carlota, sair do quarto, Mia estava mais calma. Prometeu a si mesma não contar a ninguém o segredo, sobre pena de morte. Antes de descer para jantar, lavou-se e vestiu um leve e justo vestido que mal permitia que respirasse. Manteve as madeixas cacheadas de seu cabelo castanho escuro presas em um coque mal feito e antes de sair de seu quarto, suspirou fundo.

Naquela fria noite, todos os Castellani jantaram em silêncio. Apenas era possível ouvir o barulho de talheres batendo nos pratos e dos grilhos que costumavam rondar a casa grande. Filippo saboreava rapidamente seu prato de frango temperado. Carlota era conhecida por ser uma ótima cozinheira. Desde moça, aprendera com sua mãe os dotes da cozinha muito bem. As quatro mulheres olham incrédulas para ele.

—Lento, Filippo! Lento!

Filippo larga os talheres e olha fixamente para Carlota, depressiando o que ouvira.

—Não comece, Carlota! Sou o uomo desta casa, Hai capito? Trabalho duro o dia inteiro na vinícola, sobre sole, sobre chuva...

Carlota revira os olhos. Estava acostumada com o discurso do marido.

—E tudo isto para pagar teus mimos e destas ragazzas. Isabel?

—Sì, papà?- disse a caçula, levantando a cabeça timidamente. Manteve as duas mãos sobre o colo.

—Isabel, mia figlia, vamos jantar com os Donatto no sábado. Se apoderam de setenta mil réis por mês. Tu conheces Felipe Donatto? És um homem jovem. Perfeito para tu, mia figlia.

—Papà, o senhor está me vendendo?

—Respeite o seu pai, Isabel!- Carlota adentra a discussão, com um tom de voz elevado- teu pai tem razão. Tu já eres uma donna, que precisa de um bom casamento. Felipe é jovem, trabalhador e muito bonito.

Isabel fica com os olhos cheios de lágrimas. Não estava acreditando na atitude que seu papà tivera. Giorgia se casaria com Bento em poucos meses. Mas ela o amava. Isabel era a filha favorita de Filippo. A mais mimada, a que tivera mais atenção dele.

—permite a minha licença, Papà?

—Sim, claro! Boa noite!

Isabel sobe às pressas para o seu quarto. Felipe... mal se lembrava dele. Conheceu ele quando era uma criança. Suas irmãs não eram mais pequenas. Giorgia tinha treze anos de idade. Mia, onze. Isabel deveria ter uns oito anos na época. O ragazzo mostrara a língua para ela no dia. Os Donatto eram amigos de papà, moravam na província de São Ângelo e haviam vindo até a casa para um jantar.

Isabel, estando distraida, se assusta ao escutar leves batidas na porta de seu quarto.

—Posso entrar, minha irmã?

—Claro, Mia. Entre!

Mia estava com uma camisola branca, que a deixava confortável. Seus cabelos estavam soltos agora. Foi em direção a Isabel e deu-lhe um forte abraço e acariciou os seus cabelos.

—Somos mulheres, minha pequena irmã. Não nos permitem escolher. Não nos permitem amar.

Isabel começa a chorar como uma criança. Mia tenta segurar suas lágrimas, mas fracassa.

—Eu irei vê-lo!

—Tu estás louca, Mia? Sabes que mamma alimenta um ódio terrível pela família dele. Se papà descobrir, te matas!

—Por que tanto ódio? Que mal há? Eu preciso contar a ele sobre a minha partida ou ele pensará que o abandonei, Isabel. Não posso!

Mia fita os olhos da irmã.

—Irei fugir! Está decidido!

Mia levanta-se apressada

—Tu irás para a capital. Pare de ostentar esse amor que tu nem sabes se é correspondido.

—Eu sei que é, irmã!

Por um instante, os olhos dela brilharam. Um sorriso bobo surge em seus lábios.

—Mia... há algo que eu deva saber?

Mia lembra de sua promessa e seu rosto se torna neutro novamente.

—Nós precisamos dormir, Isabel!

—Tu tens razão!Tenhas uma boa noite. Não te esqueças de rezar.

Mia volta para o seu quarto. Deita em sua cama, mas o sono ainda não a encontrara. O que falaria a ele quando o encontrasse? Depois de tanto tempo juntos, ela iria embora por muito tempo. Ele ainda não sabia. Mas saberia em algum momento. Seria melhor que ela mesmo contasse.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.