Razão ou Coração livro 4: Arthur e Kristine

11 O Sangue de York no Ventre da França



​O castelo de Calais, situado em solo neutro à beira do canal, fervia com a tensão de dois exércitos estacionados. Dentro da sala de carvalho, a atmosfera era de guerra iminente. De um lado, Edward e Arthur, protegidos pela guarda de ferro; do outro, Edmund e seus generais franceses, cujas mãos não se afastavam dos punhos das espadas.

​— Eu não fui trazido aqui para negociar rotas comerciais, Edward! — Edmund rugiu, batendo na mesa. — Eu fui trazido para ouvir que meu herdeiro se curvou às vossas exigências. Mas a Espanha nos oferece uma frota que você não pode igualar!

​— A Espanha oferece correntes, Edmund! — Arthur rebateu, a voz carregada de uma autoridade que rivalizava com a do pai. — Você está disposto a vender sua filha para um reino que pagou traidores para mentir para você?

​A discussão escalou para um coro de gritos e acusações. As espadas começaram a ser desembainhadas. Edmund estava prestes a dar o sinal para encerrar a conferência e declarar as hostilidades quando as portas duplas do salão foram escancaradas por um impacto seco.

​O silêncio caiu como um machado. Alycia entrou primeiro, com uma postura real que silenciou até os generais mais barulhentos. Ao lado dela, Selene, a Rosa de Fogo, trazia um olhar de quem já havia vencido a batalha antes mesmo de lutar. E entre elas, pálida mas com o queixo erguido, estava Kristine.

​— Chega de homens brincando de deuses com a vida de suas famílias! — Alycia sentenciou, sua voz cortando o ar como uma lâmina de seda. Ela caminhou até o marido, Edmund, e colocou um pergaminho sobre a mesa. — Aqui estão as provas dos subornos espanhóis. Se você assinar com Madri, estará assinando a venda da honra dos Bourbon.

​Edmund olhou para a esposa, atônito. — Alycia, este não é o seu lugar...

​— Meu lugar é onde a verdade está sendo sufocada — ela rebateu friamente.

​Kristine deu um passo à frente, aproximando-se de Edmund. O olhar de Arthur encontrou o dela, e por um momento, o tempo parou.

​— Meu pai — Kristine começou, a voz suave mas firme. — Eu o amo. Respeitei seu exílio, aceitei sua fúria e tentei ser a filha que a coroa exigia. Mas eu não sou mais apenas uma peça no seu tabuleiro.

​Ela respirou fundo, colocando a mão protetoramente sobre o ventre.

​— Eu lutei pela honra da França em Versalhes, mas agora preciso lutar por algo maior. Eu carrego no meu ventre o futuro de York e o sangue de Bourbon. O filho de Arthur, o neto de Edward... e o seu neto, meu pai. Um novo ciclo começou antes mesmo de você nos separar.

​O impacto da revelação foi devastador. Edmund recuou, cambaleando como se tivesse sido atingido por um golpe físico. Seu rosto passou do pálido ao vermelho escuro em segundos.

​— O QUÊ?! — Ele berrou, derrubando a cadeira atrás de si. — Desonra! Traição dentro da minha própria casa! Arthur, eu vou te matar com minhas próprias mãos!

​Edmund avançou, mas foi contido por Edward e por seus próprios generais, que estavam em choque. Ele gritou, amaldiçoou o solo inglês e o sangue Tudor, sua fúria ecoando pelas paredes de pedra de Calais. Kristine não recuou um milímetro. Ela permaneceu ali, uma rocha contra a tempestade do pai.

​Após minutos de um surto violento, Edmund desabou na cadeira, ofegante. Ele olhou para a filha, depois para Arthur — que tinha a mão sobre o punho da espada, pronto para defender Kristine de qualquer um, inclusive do próprio tio. Por fim, olhou para Alycia, que mantinha um olhar severo e inabalável.

​O Rei da França percebeu que havia perdido. Se ele exilasse Kristine agora, estaria entregando o herdeiro de seu sangue para ser criado como um inimigo na Inglaterra. Se a casasse com um espanhol, estaria entregando uma criança Tudor para os lobos.

​— Que Deus me perdoe por isso — Edmund murmurou, a voz rouca e derrotada. — Mas eu não vou permitir que um neto meu nasça sem um pai com coroa.

​Ele olhou para Edward com um ódio que agora se transformava em aceitação amarga.

​— Que o casamento seja realizado em solo neutro, imediatamente. Que a Inglaterra e a França se unam por esse... "erro" que vocês cometeram. Mas saiba, Arthur, que se você fizer minha filha chorar uma única vez, nem mesmo o mar que separa nossos reinos o protegerá da minha fúria.

​Arthur correu para Kristine, abraçando-a diante de todos, selando o acordo com um beijo que cheirava a vitória e alívio. Selene e Alycia trocaram um sorriso cúmplice. O plano da Razão e do Coração havia triunfado sobre o orgulho dos Reis.