​O gabinete real tornou-se uma arena de silêncio sufocante após o desafio de Arthur. Edmund tremia de fúria, a mão apertando o punho de sua espada, enquanto Edward permanecia estático, o rosto pálido ao ver seu plano de paz desmoronar em segundos. O ar parecia carregado de pólvora, e a sombra de uma guerra entre Inglaterra, França e Espanha pairava sobre a mesa de carvalho.

​Foi então que o som suave de tecidos se arrastando no chão de pedra quebrou a tensão. Kristine entrou no gabinete. Ela não chorava; seus olhos tinham uma lucidez dolorosa que lembrava a altivez de sua mãe, Alycia. Ela caminhou até o centro da sala, ignorando os olhares de choque dos soberanos, e parou diante de seu pai, Edmund.

​— Chega de sangue e ameaças — disse ela, a voz firme apesar do tremor nas mãos. — Meu pai, você diz que eu fui desonrada, mas o único ato de desonra aqui é tratar a paz de dois reinos como se fosse menos importante que o orgulho de um Rei.

​— Kristine, saia daqui! — Edmund ordenou, mas ela não recuou.

​— Eu irei com você — ela sentenciou, e a palavra pareceu um golpe físico em Arthur. — Eu voltarei para a França. Aceitarei o exílio em Versalhes e farei o que for necessário para apaziguar os ânimos com a Espanha. Mas farei isso com uma condição: que nenhuma espada seja desembainhada contra York. Que o acordo comercial que Selene propôs seja assinado.

​— Não! — Arthur deu um passo à frente, os olhos injetados de desespero. — Você não pode ser a moeda de troca deles de novo, Kristine! Eu não vou permitir!

​Kristine virou-se para ele, e por um breve momento, a máscara de princesa caiu, revelando a mulher que o amava profundamente. Ela tocou o rosto de Arthur com a ponta dos dedos, um adeus silencioso diante de todos.

​— Arthur, meu Lobo de York... se eu ficar agora, eu serei o motivo da sua queda. Se eu partir, eu serei a razão da sua vitória. Você disse que a Razão era uma conselheira pobre, mas hoje, ela é a única que pode salvar a sua coroa. Confie em mim. O que foi selado no jardim não pode ser quebrado por oceanos ou fronteiras.

​Ela olhou para Edward e Selene, um pedido mudo de perdão e proteção para o filho deles. Depois, voltou-se para Edmund.

​— Vamos, meu pai. Prepare a comitiva. Mas saiba que você levará meu corpo para a França, pois meu coração permanece enterrado no solo desta ilha.

​O sacrifício foi absoluto. Horas depois, sob um céu cinzento que parecia chorar a partida da Rosa, a comitiva francesa atravessou os portões de Whitehall. Arthur foi mantido nas muralhas, contido pela força dos guardas e pela mão pesada de Edward em seu ombro. Ele observou a carruagem de Kristine desaparecer na neblina, sentindo a mesma solidão devastadora que o pai sentira dezessete anos atrás.

​Mas, enquanto a carruagem se afastava, Kristine apertava contra o peito a pequena pedra com o "A" gravado. Ela não estava apenas partindo; ela estava indo para o coração do poder de Edmund para travar sua própria batalha. A inocência havia morrido naquele gabinete, e em seu lugar, nascia uma rainha pronta para dobrar a vontade de um império para retornar ao homem que amava.