​Na manhã seguinte ao banquete, Whitehall parecia despertar com uma nova energia, mas para Arthur, o mundo ainda estava paralisado. Ele não conseguiu pregar o olho, revivendo cada segundo do encontro no jardim, cada toque, cada confissão de Kristine. A razão que ele tanto cultivara estava em cacos, mas o coração batia com uma força que o assustava.

​Enquanto observava o nascer do sol pela janela de seus aposentos, uma batida suave na porta o fez sobressaltar-se.

​— Entre — disse ele, a voz rouca pelo cansaço e pela emoção.

​Selene entrou, a silhueta emoldurada pela luz dourada da manhã. Ela não trazia a coroa, apenas a dignidade e o amor de uma mãe que conhecia cada sombra no rosto do filho. Ela caminhou até ele e colocou a mão sobre o ombro dele, o toque leve, mas firme.

​— Eu vi o que aconteceu ontem à noite, Arthur — ela começou, sua voz doce, mas séria. — No jardim. Julian saiu com pressa, e você... você parecia o próprio Lobo de York, pronto para atacar.

​Arthur suspirou, sentando-se na beira da cama. — Eu não sei o que aconteceu, mãe. A razão... tudo o que aprendi sobre ser um rei, sobre dever e estratégia... tudo sumiu quando olhei para ela. Ela me fez sentir... me fez sentir como se eu estivesse respirando pela primeira vez.

​Selene sorriu com suavidade, sentando-se ao lado dele. — Eu sei exatamente o que você está sentindo, Arthur. Eu vivi isso.

​Ela pegou a mão do filho e olhou nos olhos dele, os olhos azuis faiscando com memórias de uma dor que agora era paz.

​— Quando eu cheguei a Whitehall, a razão dizia que eu deveria odiar o seu pai. Ele era o homem que me trancava, que me via como um erro, que estava preso a um fantasma. O meu coração, porém, via o homem por trás da armadura, o homem que estava gritando por ajuda.

​Arthur ouvia em silêncio, a história que ele conhecia apenas em sussurros agora sendo contada pela própria mãe.

​— O segredo, Arthur, não é escolher entre a razão e o coração. Um rei que governa apenas com a razão é um tirano. Um rei que governa apenas com o coração é um tolo. O segredo é ter a coragem de usar a razão para proteger o que o seu coração escolheu.

​Ela se inclinou e beijou a testa do filho.

​— Kristine é a rosa inocente que você quer proteger, mas ela é também a força que você precisa para ser o rei que a Inglaterra merece. Não tenha medo de amar, Arthur. Eu prefiro que você seja um rei que ama e sofre do que um rei que não sente nada. O amor nos quebra, mas é ele que nos ensina a reconstruir as coisas de um jeito mais forte. Siga o seu coração, meu filho. A razão... ela se adapta quando o amor é verdadeiro.

​Arthur abraçou a mãe, sentindo o peso da decisão diminuir. Ele não precisava mais escolher. Ele usaria a razão para construir um reino digno de Kristine, e o coração para amar a Rosa Inocente que o destino lhe dera. O conselho de Selene era o espelho que ele precisava para ver que a história não precisava se repetir na dor, mas poderia florescer no amor.