Razão ou Coração livro 2
9 O Cárcere de Pedra e as Sombras do Norte
A carruagem que transportava Isabelle Pierce havia cruzado as fronteiras de York sob uma tempestade que parecia querer lavar a sujeira da alma de Londres das estradas. O Castelo de Richmond, uma fortaleza de granito cinzento que se erguia sobre os penhascos açoitados pelo vento, era o oposto absoluto da opulência dourada de Whitehall. Ali, o ar cheirava a salitre e terra úmida, e o silêncio era interrompido apenas pelo grasnar das gralhas. Isabelle desceu do veículo sentindo o peso do seu novo destino; seus cabelos ruivos, antes um símbolo de fogo e vida, estavam agora opacos sob o véu de viagem, e seus olhos azuis carregavam a exaustão de quem acabara de cometer um assassinato emocional.
Thomas de Richmond, o Conde, aguardava-a no topo da escadaria. Ele era um homem de meia-idade, com feições endurecidas pelo clima do norte e uma barba rala que começava a embranquecer. Ele a observou com uma curiosidade possessiva, como um colecionador que acaba de adquirir uma peça rara, porém danificada. Ele ofereceu o braço, e o toque de sua luva de couro sobre a pele de Isabelle a fez estremecer internamente.
— Seja bem-vinda ao seu lar, Lady Isabelle — disse Thomas, sua voz sendo um barítono ríspido que não carregava a melodia da de Edward. — O norte pode ser cruel com aqueles que trazem o coração aquecido demais pelos salões do sul. Mas creio que a senhora já deixou seu calor para trás, não foi?
Isabelle olhou para as torres escuras do castelo, sentindo o frio do mármore sob seus pés. — O senhor recebeu o dote da coroa, Milorde. Recebeu as terras e a aliança com a família Tudor. O que resta de mim é apenas a sombra de uma mulher. Se o senhor busca calor, sugiro que dobre a lenha nas lareiras, pois não encontrará nenhum em mim.
O jantar foi servido em um salão onde as sombras dançavam de forma grotesca nas paredes. Thomas observava Isabelle enquanto ela mal tocava na carne assada. O silêncio era uma corda esticada entre os dois, até que o Conde limpou os lábios com um lenço e inclinou-se para frente, a luz das velas refletindo em seus olhos pequenos e astutos.
— Dizem em Londres que o Rei quase enlouqueceu quando a senhora o humilhou diante da Princesa Russa — Thomas comentou, com um sorriso de escárnio. — Dizem que Edward Tudor é agora um homem de gelo. Diga-me, Isabelle, o que se sente ao destruir um monarca?
Isabelle apertou os talheres com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. — Eu fiz o que a sobrevivência do reino exigia, Milorde. O Rei tem o seu dever, e eu tenho o meu. E o meu dever, agora, é ser a sua esposa. Não creio que o passado do Rei seja um assunto adequado para a nossa mesa.
— Talvez — Thomas levantou-se e caminhou até ela, parando por trás de sua cadeira. Sua mão pesada pousou sobre o ombro dela, e ele inclinou-se para sussurrar em seu ouvido. — Mas eu não sou um homem de meias verdades, minha senhora. Eu sei que você ainda carrega algo dele. Eu vi como você protege aquele relicário em seu pescoço desde que partimos.
Antes que Isabelle pudesse reagir, o Conde puxou a corrente de ouro que estava escondida sob o corpete dela. O medalhão abriu-se, revelando o retrato em miniatura de Edward, pintado com os olhos verdes brilhando de juventude e amor. A fúria atravessou o rosto de Thomas como uma tempestade.
— Você entra na minha casa, come do meu pão e carrega a imagem do seu amante no peito?! — Thomas rugiu, jogando o medalhão contra a parede de pedra. O cristal quebrou-se, e o pequeno retrato caiu no chão, manchado pela poeira.
Isabelle levantou-se com uma dignidade que o fez recuar por um instante. — O senhor pode quebrar o ouro, Milorde. Pode me trancar nestas paredes de pedra e me proibir de ver a luz do sol. Mas não pode me proibir de lembrar do homem que ele era antes de sermos todos sacrificados pela sua ambição e pela razão da Duquesa.
— Você aprenderá a esquecer — Thomas sibilou, segurando-a pelo queixo com uma força dolorosa. — O norte tem uma maneira de apagar memórias. A partir de amanhã, você não sairá destes aposentos. A "protegida de Sabrina" descobrirá que, em York, os lobos não aceitam partilhar suas presas, nem mesmo com a memória de um rei.
Ele a soltou e saiu do salão, batendo a porta pesada de carvalho. Isabelle caiu de joelhos no chão frio e engatinhou até os fragmentos do medalhão. Ela pegou o pequeno retrato e o pressionou contra o peito, sentindo as lágrimas que negara a Edward finalmente correrem pelo seu rosto. Ela estava no cárcere de York, cercada por um marido que a odiava e por um passado que a assombrava. Enquanto isso, em Londres, Edward Tudor reinava com uma crueldade sem fim, sem saber que o seu grande amor estava sendo quebrado, pedaço por pedaço, no silêncio do Norte.
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