Razão ou Coração livro 2
2 O Conselho dos Lobos e a Teia da Coroa
Capítulo 2:
O banquete de boas-vindas terminara, mas a tensão que ele gerara pairava sobre Whitehall como uma névoa pesada. Edward mal conseguira tocar em sua comida, os olhos gélidos de Katherine Petrovic de um lado e o silêncio magnético de Isabella Pierce, com seus cabelos ruivos vibrantes, do outro, o haviam sufocado.
Assim que os nobres começaram a se dispersar, um guarda de York entregou a Edward uma nota discreta. “Nos aposentos reais. Agora.” Não havia assinatura, mas ele sabia que era de seus pais.
O Julgamento de Sabrina
Edward encontrou Charles e Sabrina sentados em poltronas de veludo, diante da lareira crepitante. A luz do fogo realçava as cicatrizes de Charles e a postura impecável de Sabrina. A porta mal se fechara quando Sabrina começou.
— Você está sendo tolo, Edward — a voz dela era gélida, a mesma voz que derrubara reis e bastardos. — Você é o Rei. O mundo inteiro o observa. E hoje, você olhou para a minha dama de companhia, Isabelle, como um servo olha para sua senhora, e ignorou a princesa russa que segura o futuro do seu trono em suas mãos.
— Ela é... ela mudou, mãe — Edward tentou defender-se, mas sua voz saiu fraca. — Isabelle Pierce não é mais a criança silenciosa de York. Ela tem um fogo...
— Ela tem os cabelos ruivos e o espírito indomável que atraem homens fracos! — Sabrina cortou, levantando-se e aproximando-se do filho. — E você, Edward, não pode se dar ao luxo de ser fraco. Katherine Petrovic traz consigo o exército do Báltico e uma fortuna que financiará sua coroação e consolidará seu império contra os jacobitas do sul. Casar-se com ela é razão. É dever. É o que eu e seu pai lutamos para garantir que você tivesse: um trono seguro.
Sabrina parou, seu olhar suavizando ligeiramente ao ver a dor no rosto do filho. — Você quer falar de coração? O amor é um luxo, Edward. Um luxo que eu e seu pai conquistamos nas cinzas, depois que tudo nos foi tirado. Você está no topo da montanha. Se cair por causa de uma paixão passageira, nos arrastará a todos com você. Eu amo Isabelle; ela é como uma filha para mim. Mas se ela se tornar o motivo da ruína do seu reino, eu mesma garantirei que ela seja enviada para o exílio mais distante, para o seu próprio bem e o dela.
O Lamento de Charles
Edward abaixou a cabeça, sentindo o peso da coroa. Sabrina sentou-se novamente, exausta. Foi então que Charles, que permanecera em silêncio observando as chamas, finalmente falou. Sua voz era profunda, ruidosa como o vento do norte.
— Ela tem razão, Edward — Charles disse, sem tirar os olhos do fogo. — Politicamente, não há outra escolha a não ser Katherine. Sabrina construiu este império sobre a base da estratégia e da lógica. E você deve reinar com a mesma sabedoria dela.
Charles finalmente olhou para o filho, e neles havia um vislumbre da agonia que ele próprio vivera anos atrás.
— Mas... eu sei o que você está sentindo — ele confessou, e sua voz vibrou com uma emoção que Sabrina tentara esconder. — Eu sei o que é olhar para uma mulher e sentir que a coroa é uma prisão, que cada tratado assinado é uma algema, e que o único lugar onde você é verdadeiramente livre é ao lado dela. Eu vivi isso, Edward. Eu vivi anos em um inferno de mentiras, casado com uma mulher que eu não amava, porque o dever assim exigia.
Charles levantou-se e colocou a mão sobre o ombro do filho, apertando-o com força.
— Minha mãe, a Rainha Mãe que você nunca conheceu, fez a mesma escolha que Sabrina está pedindo para você fazer. Ela trocou o homem que amava pelo trono de William, escondendo o pecado de bastardia para garantir a "legitimidade" da coroa. E isso destruiu a vida dela e a nossa família por uma geração.
— Então, o que devo fazer, pai? — Edward perguntou, desesperado.
Charles olhou para Sabrina e depois para Edward, com um sorriso triste. — Eu passei a vida sendo o Lobo, Edward. O homem que renegou a razão para seguir o coração. E isso me trouxe amor, sim, mas também me trouxe dor, exílio e quase a morte. Mas eu não trocaria nenhuma daquelas noites de neve em York pelo trono de Whitehall.
— A escolha é sua, meu filho — concluiu Charles, afastando-se. — A razão de Sabrina ou o coração de Charles. O trono seguro de Katherine ou a paixão perigosa de Isabelle Pierce. Mas aviso-lhe: nenhum dos caminhos é fácil. Se escolher a razão, você poderá governar por cinquenta anos, mas passará cada noite acordando ao lado de uma rainha que você não ama, sonhando com uma mulher ruiva que o vento levou. Se escolher o coração... você terá o amor, mas terá que lutar com a espada e a astúcia a cada segundo para mantê-lo, e talvez, no fim, você perca ambos.
O Vazio no Trono
Edward saiu dos aposentos de seus pais sentindo-se mais dividido do que nunca. A razão de Sabrina e o coração de Charles haviam colidido dentro dele. Ele parou no corredor vazio, onde a luz da lua de Londres entrava pela janela, iluminando o caminho até o quarto de Katherine e, em uma direção oposta, o quarto de Isabelle, onde os cabelos ruivos dela eram o único fogo que ele desejava de verdade.
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