Razão e Emoção
8 Capítulo 8 – En passant
Notas iniciais
POV Maura
O elevador chegou ao meu andar, mas demorei para perceber isso, ainda pensava no que tinha acabado de fazer. Estava seguindo o conselho de Jaques, todo meu raciocínio lógico dizia que ele estava certo, eu não devia sofrer por alguém que não me quer e sim aproveitar melhor minha vida, apenas me perguntava se teria ido rápido demais. Não, não tinha, o que eu teria com a Emily além de uma boa companhia e bom sexo? Nada, ela logo voltaria para sua vida em Washington e eu continuaria a minha aqui, então por que perder tempo, não é verdade? Mas então por que eu me sentia tão insegura?
Entrei em meu escritório e pela porta de vidro que dava acesso ao necrotério pude ver Jane observando o Dr. Pike trabalhar. Fiquei a admirando um instante, estava com um ar cansado, ela não parecia realmente focada no que via meu colega fazer, seu olhar estava distante e ela rodava a aliança no dedo. Algum tempo já havia percebido que este era um novo hábito que substituía o anterior de apertar as cicatrizes nas mãos quando ela não estava bem. Por um instante me preocupei com ela e isso me deu a resposta: eu amava aquela mulher, por mais que no momento a julgasse uma idiota, ter tanta raiva a ponto de querer me afastar de vez, a trocar por alguém que me valorizasse eu não conseguia simplesmente esquecê-la. Coloquei minha bolsa sobre a mesa, vesti meu jaleco e entrei no necrotério:
– Boa tarde, Dr. Pike! — o legista levantou os olhos do corpo que mexia e me deu um aceno com a cabeça, me virei para ela – Jane, está tudo bem?
– Sim. – ela respondeu baixando o olhar de volta para o corpo e mexendo mais rápido a aliança – Como foi o almoço?
– Bom. E o seu?
– Não tive tempo de almoçar.
Balancei a cabeça em negativo:
– Você tem que se alimentar direito! Pular refeições é uma das causas mais comuns de queda de resistência, além de afetar todo ritmo biológico do corpo e... – parei de falar ao notar que ela sorria de maneira... aliviada? (bom, era o que aparentava para mim). – O que foi?
– É brincadeira, eu comi com a Ma, só queria ver você me dar esse sermão pra não perder o costume. Acho fofo. – falou a última frase de maneira baixa mais ainda audível me olhando nos olhos.
Fiquei em silêncio a encarando. Um comentário bobo que me abalou um pouco, mas não sabia o que dizer, nem acho que deveria dizer nada a respeito, era sempre eu que me preocupava com ela e talvez tenha sido exatamente isso que a fez achar que poderia fazer o que quisesse comigo pois eu não mudaria. Era hora de fazer diferente, não iria persistir no mesmo erro.
Afastei-me indo em direção a outra mesa de autópsias a fim de voltar para a análise de tudo que envolvia o caso do serial killer. Ela veio atrás de mim puxando assunto sobre as novas descobertas. Se tem algo que fazemos bem, inegavelmente é trabalharmos juntas, por mais que a relação pessoal esteja afetada, então comecei a explicar algumas coisas, ela logo bolou algumas teorias e ficamos as debatendo.
Não reparei quando o agente Morgan entrou com Frost na sala, cada um para saber o andamento de coisas diferentes. Jane logo começou a provocar o Dr. Pike para acelerar a autópsia do caso adicional, depois pediu para o agente acompanha-la até a sala dos detetives, queria rever as anotações para ver se conferiam com suas novas teorias.
Após mais um longo dia no laboratório e acompanhando os peritos de volta às cenas do crime constatamos que o Dr. Reid (que aliás descobri não ser médico e sim PhD em psicologia, sociologia e outras áreas, o rapaz era realmente um gênio, acredito que para dar credibilidade como agente uma vez que era bem mais novinho que todos lhe chamavam pela titulação adquirida) estava certo sobre o local de execução das vítimas. Achamos vestígios de sangue e água sanitária usada para limpar o chão em diferentes andares dos dois prédios abandonados próximos aos becos onde encontramos os corpos. Pena que não havia nada além disso: sem arma do crime, sem pegadas, sem fios de cabelo, nada que nos deixasse mais próximo da identidade do assassino. A equipe do FBI havia pedido para as equipes dos outros estados darem buscas nos prédios e ver se ele havia deixado algo para trás nos primeiros casos.
Era bem tarde da noite quando consegui ir para casa. Estava com dor de cabeça e só queria minha cama, mas ao invés de ir direto para ela tomei um longo banho relaxante de banheira, depois fiz um sanduíche leve, comi devagar e estava separando morangos para dar ao Bass antes de subir para me deitar finalmente quando ouvi a campainha. Andei com cuidado até a porta, quem seria àquela hora? Vi pelo olho mágico uma mulher magra, morena, com a cabeça abaixada aparentemente limpando algo das botas. Abri a porta confusa:
– Jane, o que você... – parei de falar quando vi a morena levantar a cabeça – Emily? Desculpe eu achei que fosse a Jane.
– Reparei! – ela respondeu sorrindo enquanto se encostava no batente da porta – Deve ser mais comum ela aparecer aqui tarde da noite do que eu, naturalmente.
– Naturalmente. – repeti de maneira automática enquanto ela me encarava com aquele olhar penetrante que tinha.
Ficamos quietas, ela discretamente baixou o olhar analisando minha vestimenta, lembrei que estava só de baby doll e isso me fez sair do transe:
– Está bem tarde. Aconteceu alguma coisa?
– Você me convidou para uma partida de xadrez hoje.
Balancei a cabeça surpresa com a naturalidade que ela respondeu:
– Na verdade eu falei para fazermos isso amanhã, não foi?
Ela olhou no relógio de pulso e deu um sorriso provocante:
– Já passou da meia noite, então aquele amanhã... É hoje!
Estava bastante surpresa mas não pude deixar de abrir um sorriso para ela. Sentia falta de ter alguém tarde da noite para conversar ou nem isso apenas ter a companhia após um dia difícil nas últimas semanas. Logo dei passagem para que ela entrasse em minha casa. Ela entrou e ficou parada no hall como da última vez, apontei para a mesa de xadrez:
– Fique a vontade, eu só vou terminar de alimentar o Bass.
Ela franziu a testa, depois olhando para baixo completou:
– Isto deve ser o Bass, eu suponho...
– Ele é um cágado africano, tenho desde que era deste tamaninho! – respondi fazendo um gesto com os dedos.
– Não é tão animado quanto o Sergio, mas tudo bem. Pelo menos não solta pêlos.
– Sergio?
– Meu gato. – ela respondeu sentando-se na mesa e pegando uma peça de xadrez de cada cor. – Quando você for a Washington poderá conhece-lo, é uma figura.
Fiquei encarando os morangos que punha na vasilha admirada com a frase da agente. Ela estava me convidando para visita-la? Será que era uma maneira sutil de demonstrar que estava disposta a algo mais sério comigo ou foi só por educação? De repente minha cabeça girou com possibilidades. Pus a vasilha no chão e me encaminhei para perto dela que me estendeu as duas mãos fechadas. Apontei para a direita, ela abriu revelando uma peça branca.
– Muito bem, doutora, você começa!
Sentei-me e logo fiz uma jogada. Ela fez outra se acomodando melhor na cadeira. As primeiras jogadas de toda partida de xadrez são praticamente automáticas para quem está acostumado. Quem começa geralmente impõe um ritmo que o outro segue, quase não olhávamos para o tabuleiro e sim uma para a outra, trocávamos sorrisos a cada movimento de peça, sem ninguém dizer nada.
Após um tempo, ela foi se mostrando uma oponente realmente difícil e meu cansaço já havia sido substituído pelo desafio de vencer aquela partida. Ela estava debruçada sobre o tabuleiro pensando numa saída para a jogada que eu tinha acabado de fazer quando quebrei o silêncio com uma dúvida que do nada começou a me atormentar:
– Emily, você mora em Washington, certo?
– Uhum. – ela respondeu sem olhar para mim.
– Então, o que fazia aqui em Boston um dia antes de ser chamada para o caso?
Ela levantou a cabeça me encarando, mas não respondeu nada, apenas ficou mais reta na cadeira e moveu a peça do cavalo. Analisei o jogo e só depois de um tempo quando finalmente movi meu bispo ela se pronunciou falando pausadamente:
– Estava a trabalho. Caso extra oficial... É complicado! Se importa se eu perguntar porque quis saber isso?
– Só curiosidade. – fiquei sem graça, me sentindo tola pela pergunta — Desculpe se pareci intrometida.
Ela sorriu de maneira doce para mim depois movendo sua torre se reclinou na cadeira com um olhar convencido:
– Xeque!
Encarei o tabuleiro surpresa, não havia previsto que ela ia conseguir fazer isso naquela jogada. Foi a minha vez de me debruçar sobre a mesa e ficar analisando com cuidado todas as posições das peças. Ela levantou os olhos do jogo um instante:
– Posso usar seu banheiro?
Acenei com a cabeça apontando o caminho, ela se levantou e foi até lá, consegui sair do xeque alguns minutos depois e aproveitei para ir até a cozinha beber um copo d’água também. Ela retornou e ficou de pé analisando o tabuleiro. Andei até seu lado com um sorriso no rosto que ela logo percebeu:
– Nada mal... – ela continuou olhando para as peças um tempo depois foi abaixando o rosto para mais perto do meu e sussurrou em meu ouvido – Sabe, eu até poderia fazer mais uma jogada agora e te deixar em xeque novamente.
– É mesmo? – respondi sentindo ela pousar uma mão de leve nas minhas costas
– Mas não vale a pena, porque eu já perdi a partida, se fizer isso o máximo que vai acontecer é retardar para cinco jogadas o xeque-mate que você me daria em três. – ela foi se virando de frente para mim devagar – Então, o que acha de substituirmos o final dessa partida por uma outra coisa?
Sua boca já estava quase encostada na minha, nossos rostos estavam muito próximos e ela me olhava nos olhos com aquele mesmo desejo da vez que nos conhecemos, ela inclinou um pouco a cabeça mas antes que nosso lábios pudessem se tocar meu celular e o dela tocaram ao mesmo tempo. Olhei assustada para os lados até localizar o meu sobre o balcão da cozinha e ela se afastou de mim colocando a mão no bolso, visivelmente irritada. Atendemos nossos aparelhos, para isso acontecer era claro que o serial killer atacara novamente. Olhei no relógio da parede, já eram 2h da manhã:
– Vou me trocar, nos encontramos na cena do crime.
– Eu te espero e vamos juntas. – ela respondeu ligando para alguém em seguida – JJ, tá no hotel? Eu estou...não estou ai, vou direto pra lá, ok? – me olhou e eu entendi que ela queria permissão para ir de carona comigo, acenei que sim enquanto ela ainda falava mais algumas coisas com sua colega.
Me troquei voando e em pouco tempo estávamos no endereço indicado, estacionei o carro e vi que a equipe do FBI já estava toda lá e o tenente Cavanaugh também. Sai do veículo juntamente com Emily e o agente Hotchner veio ao meu encontro:
– Doutora Isles, ele quebrou o padrão! O assassinato ocorreu algumas horas antes do previsto o que quer dizer que ele sabe que estamos perto de captura-lo e estava com pressa! É bem provável que tenha cometido alguma falha, analise com atenção e o mais rápido possível esse corpo enquanto damos uma busca pelo entorno.
Vi todos os agentes se olhando e logo se dividiram em equipes tomando todo perímetro, me abaixei mexendo no corpo: mesmo padrão dos anteriores com a diferença que o Rigor Mortis ainda não estava em estágio avançado, aquele homem havia sido morto faz pouco tempo. O corte era de mesma profundidade e precisão, mas notei algo em sua calça, havia um líquido ressecado:
– Agentes! – todos vieram ao meu encontro e se abaixaram olhando o corpo – Vou levar ele agora para o necrotério, mas a principal ação é analisarmos as roupas no laboratório, há grandes chances dessa mancha ser sêmen e pode ser que não seja da própria vítima.
O Dr. Reid logo se pronunciou:
– Um comportamento de predador sexual, agora? Nunca achamos nada relativo a isso nos casos anteriores...
Morgan se aproximou mais do rapaz:
– Este cara era mais velho que as demais vítimas e moreno, não é o “tipo” dele. Talvez até nem fosse o objetivo do nosso suspeito matar este homem, conseguimos deixa-lo em pânico.
Olhei para um de meus analistas:
– Embale tudo que acharam e mande os pertences pessoais para a equipe de detetives, aliás, onde estão Jane, Korsak e Frost?
Vi o agente Hotchner se aproximar de mim:
– Eles estão fora desse caso, doutora. Não precisamos de reforços da polícia de Boston nesse momento, temos tudo sob controle, somente suas habilidades e sua equipe nos serão necessárias. Peço para que não questione esta ordem e colabore, estamos perto de finalizar esta investigação.
Olhei surpresa para o agente e depois para o tenente Cavanaugh que tinha um ar cabisbaixo, certamente ele tinha ouvido a mesma frase mais cedo o que o impediu de telefonar para qualquer um dos detetives. Senti minha garganta secar, era muita responsabilidade e pela segunda vez em pouco tempo me senti insegura: eu estava sozinha nessa. E a verdade é que este sozinha que me apavorava por dentro significava: sem Jane para me apoiar.
Fale com o autor