Mais uma sexta-feira se passa e continua imersa em devaneios extravagantes.

Cabia a ela a função mínima de estudar mas já não mais era capaz. A cor das paredes, o teclado, as chaves, as nuvens se aglomerando como um presságio do fim. Os passos da bibliotecária, os estudantes desastrados derrubando livros e folheando imensos cadernos como que em desespero. E estavam envoltos pelo desespero. Carma de desespero da maldita semana de provas. O que era a semana de provas em todo um contexto de desânimo? Uma famigerada pedra no meio do caminho feito de pedras. A atmosfera era cansativa e pesada. Seriam as nuvens? Seriam os estudantes evaporando insônia e desespero? Seriam outras jovens suicidas indagando-se por que permanecer sob as nuvens escuras em pleno caos astral?

Uma mensagem no celular. Um convite pela milésima vez. Regina clamava uma companhia pra uma festa naquela sexta. Não estava em semana de provas sua amiga veterana de cursinho... Jamais era semana de provas. Mas não a culpava, o marasmo a todas parecia atraente naqueles momentos. Foi repreendida pela bibliotecária completamente mal humorada por estar observando a tela do celular havia alguns minutos sem perceber que vibrava com as contínuas mensagens da amiga. Levantou-se e após alguns passos, finalmente, longe da atmosfera dolorosa, mas ainda dentro do campus.

Naquele ambiente artificialmente bucólico, sentia-se, essencialmente, mais enclausurada. As árvores plantadas, a grama aparada, os bancos de concreto, os seres humanos que poluíam aquela visão talvez outrora agradável com sua constituição de carbono e amoníaco. E suas vozes, ah, as vozes, inúteis, profanas, absurdas. Gritam, gorjeiam, latem, rosnam comentários ofensivos e frustrações enrustidas. Respondeu Regina. Iria à festa. O que era a semana de provas, comparada a toda a insônia que sofrera estudando antecipadamente as mesmas palavras automáticas, repetitivas, com aqueles sentidos próprios que só nós atribuímos? Sons conexos que pronunciam partes do corpo e dores específicas. Sons que pronunciam vidas desfalecentes. Grunhidos, gritos, latidos.

Pegou sua mochila e os livros que não cabiam nela. Os sumários da vida de Hipócrates e seus discípulos, salvadores, mártires, estudiosos, vencedores! Provavelmente diferentes dela, tais impulsionadores da humanidade. Andou rumo ao ponto de ônibus e esperou com pouca ansiedade. Mais uma pequena cadeia dentro de cadeias maiores que culminam em uma cadeia cósmica. Mas nada a fazia sentir enjaulada como o ônibus. Aquela máquina metálica que transporta seres humanos de uma prisão à outra, para viverem suas pequenas existências enclausuradas. Os ruídos do ônibus, os jovens que a encaravam como um leão observaria um pedaço de carne fresca. Talvez estivessem certos. Removida toda a camada de ética artificial, o que nos restaria senão pedaços de carne, objetos de desejo ou não? Poucos pensamentos, poucos conhecimentos acumulados.

Andou algumas quadras e chegou em casa. Regina a telefonou.

-Re, que horas pretende ir? Acabei de chegar em casa e estou meio... exausta, exausta e suja.

-Tudo bem, podemos sair às 22h. Eu vou ver se meu namorado consegue passar aí. Tudo certo? Por que resolveu ir de última hora?

-Não sei, não tinha nada melhor pra fazer. Te espero pronta então. Se eu dormir, só você dar uns murros na porta e tudo certo.

-Engraçada... Se tiver que esmurrar a porta você vai andando. Até depois.

-Até.

Odiava falar ao telefone. Aquele nervosismo estúpido por estar sem suas expressões faciais para acompanhar o tom de voz acanhado, aquele timbre desconhecido de voz... O coração batia um pouco acelerado, mas logo passava, como toda vez.

Entrou no chuveiro, a água escorrendo pela face, a melhor sensação de qualquer dia. Água quente em dias quentes infernais. Água penetrando sem pedir pelos cílios e encharcando os olhos desavisados. Quem a dera pudesse apenas tomar banhos e banhos e banhos de existência com os olhos semicerrados e um sorriso legítimo que poucas vezes aparecia. Ah, e o quase silêncio rítmico da água que batia no piso escorregadio e seguia rumo à tubulação que seguia rumo a Deus sabe onde. Simplesmente desaparecia após cumprir sua função mínima. Quem a dera pudesse escorrer por ralos e sumir, como a água suja que era.

Secou os cabelos com desleixo, cobriu o rosto com maquiagem opaca que a fazia sentir mais suja. Deixou os olhos castanhos incrivelmente enegrecidos, e soltou uma risada irônica. Sabia que cobria os olhos por sua crença absurda na suma importância desses órgãos na identidade humana, e enegrece-los significaria não apenas obscurecer sua própria identidade, como exaltar a podridão de seu ser. Para que o mundo visse suas peçonhas de forma escancarada e escolhesse com elas lidar ou não. Metaforizar maquiagem? Ah, mente incessante.

Cobriu-se com um creme gosmento e brilhante para umedecer a pele rachada e as feridas. Causaria, como sempre, a falsa impressão de que se arrumava todos os dias e que se importava um mínimo que fosse com seu corpo. Cobriu as feridas mais aparentes e algumas cicatrizes esbranquiçadas. Habilidades com maquiagem restritas à arte do disfarce. Enaltecer? Iluminar? Jamais.

Colocou, por fim, um vestido dourado que contornava suas formas ossudas graves e deixava à mostra as vértebras um tanto salientes. Ela as amava muito, como a todas as poucas coisas que amava em sua vida. Sofridamente, enfiou em seus pés medianos 36 um salto que ajudava em todo aquele teatro de falsidade. Tinha um metro e cinquenta. Meros um e cinquenta, porque a natureza foi incapaz de proporcionar alguns alelos a mais que a permitissem observar as pessoas com dignidade e um pescoço não distendido. E, principalmente, não a tirassem o direito de se sentir com alguma forma de poder.

Regina chegou e o namorado, por uma graça do destino, não iria. Estava cansado. Fingiu preocupação e ouviu Regina falar e falar e falar e gritar e se exaltar e narrar. Rumo à festa, observava apenas as estrelas e o quão alto era o tom de voz de sua amiga. Era melodiosa, porém, conforme superava o som de seus próprios pensamentos – pensamentos que urravam e riam com escárnio.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.