Razão ou Coração livro3 O Fantasma e o Espinho de
16 O Julgamento da Rosa de Fogo
O Grande Salão de Whitehall nunca estivera tão decadente. O cheiro de vinho derramado e perfumes baratos impregnava o ar, substituindo o antigo rigor militar de Edward. No centro da mesa real, o Rei de Ferro era uma sombra do que já fora. Ele mantinha uma concubina de cabelos loiros sentada em seu colo, rindo de forma ruidosa e vazia enquanto a beijava sem qualquer ternura. Seus olhos verdes, antes afiados como adagas, estavam nublados pela embriaguez e pela amargura de quem desistira de buscar a luz.
Subitamente, as portas duplas do salão foram escancaradas. O som da música cessou e o burburinho das risadas morreu na garganta dos cortesãos.
Selene entrou.
Ela não usava seda, nem joias. Vestia um traje de viagem escuro, prático e simples, mas sua postura era mais soberana do que em seu dia de coroação. Antes de avançar, ela fez um sinal discreto para Sabrina, que conduziu o pequeno Arthur rapidamente para as escadas laterais, em direção aos antigos aposentos da rainha. Selene não queria que os olhos puros de seu filho vissem o estado em que o pai se encontrava.
Edward congelou. A taça de ouro escorregou de sua mão, entornando vinho sobre o manto. Ele empurrou a mulher em seu colo com uma brutalidade distraída, levantando-se como se estivesse diante de uma assombração.
— Selene? — ele sussurrou, a voz falhando, uma mistura de dor e descrença lutando em seu rosto.
— Não se levante por minha causa, Majestade — Selene começou, sua voz cortando o salão como um chicote de couro. — Vejo que a corte de York finalmente se tornou o chiqueiro que eu sempre suspeitei que fosse. Olhe para você, Edward. O Rei de Ferro transformou-se em um Rei de Lama.
Ela caminhou até a mesa, ignorando os olhares de choque dos nobres. Parou diante dele, observando as mulheres que o cercavam com um nojo evidente.
— Eu passei três anos ouvindo o silêncio das colinas e o som do mar. E você? Passou três anos tentando afogar o próprio luto no colo de mulheres que nem sequer sabem o seu nome real, apenas o título que você ostenta? — Ela soltou uma risada amarga. — Você disse que eu servia apenas para te desestressar. Pelo que vejo, você encontrou substitutas à altura da sua nova mediocridade.
Edward deu um passo à frente, a fúria começando a substituir o choque. — Onde você estava? Eu procurei por você em cada canto deste mundo! Você me deixou com nada além de silêncio!
— Eu te deixei com a verdade, mas você preferiu a mentira — Selene rebateu, aproximando-se o suficiente para que apenas ele ouvisse. — Eu preferi criar o seu sangue, o herdeiro legítimo desta coroa imunda, em uma aldeia pobre na Irlanda, cercado de lama e honestidade, do que permitir que ele respirasse o mesmo ar que você respira agora. Eu preferi que ele crescesse sem pai do que crescesse vendo o monstro em que você se tornou.
Edward empalideceu, a mão buscando apoio na mesa. — O herdeiro? Selene, do que você está falando?
— Estou falando de Arthur — ela disse, os olhos brilhando com uma satisfação cruel. — Um menino que tem os seus olhos, mas que graças a Deus não tem a sua covardia. Ele está lá em cima, nos meus antigos quartos. Mas não se engane, Edward... eu não voltei por você. Eu voltei porque Sabrina me convenceu de que o reino precisava de um rei, e como você está morto por dentro, eu vim trazer o seu substituto.
O silêncio no salão era absoluto. Edward olhou para as escadas, depois para Selene. O brilho que Alycia mencionara anos atrás retornou aos seus olhos, mas era um brilho carregado de uma angústia insuportável. Ele percebeu que, enquanto se perdia em amantes e vinho, sua vida inteira — sua mulher e seu filho — estava florescendo em segredo longe de suas mãos sujas.
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