Razão ou Coração livro3 O Fantasma e o Espinho de
3 O Embate das Leoas
O crepúsculo tingia as janelas de Whitehall com tons de púrpura e ouro, mas dentro dos aposentos da Rainha Mãe, o clima era de uma geada cortante. Sabrina Tudor estava sentada em sua poltrona de carvalho, as mãos adornadas com anéis antigos descansando sobre o colo. Ela havia observado, das sombras da galeria, o encontro nos jardins. Vira a tensão nos ombros de Edward e o brilho perigoso nos cabelos de Selene. Sabrina sabia que o gelo que ela mesma ajudara a construir em volta do filho era frágil demais para resistir àquela labareda francesa.
Quando a porta se abriu e Selene entrou, atendendo à convocação real, o silêncio entre as duas mulheres foi quase audível. Selene não esperou por uma permissão; ela caminhou até o centro do quarto, observando as tapeçarias que narravam as glórias passadas dos Tudor com um ar de quem via apenas velharia.
— Dizem que a Duquesa Sabrina é a verdadeira arquiteta deste reino — Selene começou, sem preâmbulos, cruzando os braços e sustentando o olhar da mulher mais poderosa da Inglaterra. — É um prazer conhecer a mão que segura as rédeas do Lobo.
Sabrina inclinou levemente a cabeça. Pela primeira vez em décadas, ela sentiu que não estava diante de uma jovem nobre em busca de favor, mas de um espelho de si mesma, trinta anos mais jovem e muito mais imprudente.
— O prazer é uma palavra que raramente usamos nestas paredes, Mademoiselle — Sabrina respondeu, sua voz sendo um veludo frio. — Usamos palavras como "estabilidade", "linhagem" e "sacrifício". Palavras que, pelo que vejo em seu histórico em Versalhes, parecem não constar no seu vocabulário.
— Sacrifício é apenas a palavra que pessoas amargas usam para justificar suas covardias — Selene rebateu, aproximando-se da mesa de Sabrina e pegando, sem permissão, uma das peças de um tabuleiro de xadrez que descansava ali. — Você sacrificou a felicidade do seu filho para garantir uma coroa. E agora, você tem um Rei que é um cadáver coroado e um reino que cheira a poeira e arrependimento. Valeu a pena, Duquesa?
O rosto de Sabrina não tremeu, mas seus olhos brilharam com uma fúria calculada. Ela se levantou, sua estatura ainda imponente apesar da idade.
— Você é astuta, Selene. E bonita o suficiente para ser um veneno letal. Eu reconheço o fogo em você, porque eu mesma o carreguei. Mas este reino não suportará outra tragédia ruiva. Eu preparei um dote. Terras em Bordeaux, um título francês de condessa e um casamento arranjado com um duque leal em Paris. Você partirá amanhã, antes que o meu filho se esqueça de que é um Rei.
Selene soltou uma risada clara, jogando a peça de xadrez de volta no tabuleiro com um estalo seco.
— Você me oferece terras para que eu vá embora? Você realmente não me conhece. Eu não sou Isabelle Pierce, Duquesa. Ela tinha medo de você. Ela tinha medo da sua autoridade e do peso da sua coroa. Eu? Eu nasci no escândalo. Eu sou o fruto de um desejo que o seu Rei Luís não pôde conter. Eu não quero o seu ouro.
— O que você quer, então? — Sabrina sibilou, aproximando-se tanto que o perfume de lavanda de seus trajes se misturou ao aroma de rosas de Selene. — Destruir o que resta da sanidade de Edward?
— Eu quero ver até onde o Lobo de York pode lutar contra a própria natureza — Selene sussurrou, o olhar desafiador. — Eu quero ver se as pedras de Whitehall são fortes o suficiente para conter o que ele sente quando me olha. Você pode me ameaçar, Duquesa. Pode tentar me comprar. Mas eu só partirei quando Edward Tudor me olhar nos olhos e disser que não me quer aqui. E nós duas sabemos que ele não terá coragem de dizer essa mentira.
Sabrina sentiu um calafrio. Pela primeira vez em sua vida política, ela encontrara alguém que não podia ser dobrado pela razão ou pelo medo. A teimosia de Selene era uma força da natureza, uma barreira que nem mesmo a Duquesa de York sabia como transpor.
— Você está brincando com uma tempestade que não pode controlar, menina — Sabrina advertiu, sua voz agora baixa e mortal. — Se você ficar, você destruirá a aliança com Edmund e Alycia. Você condenará a Inglaterra a uma guerra contra a França e contra si mesma.
— Se a sua paz depende da infelicidade do seu filho, então talvez essa paz mereça ser destruída — Selene finalizou, caminhando em direção à porta. Antes de sair, ela se virou com um sorriso triunfante. — Guarde o seu dote, Duquesa. Eu prefiro o entretenimento de Whitehall.
Quando a porta se fechou, Sabrina Tudor desabou novamente em sua poltrona. Suas mãos tremiam levemente. Ela olhou para a peça de xadrez que Selene havia derrubado — o cavalo negro, a peça que salta sobre as outras. O jogo havia mudado, e o Rei de Ferro estava em um perigo que nenhuma espada poderia evitar.
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