​O estrondo dos canhões espanhóis era ensurdecedor, e as muralhas de Calais começavam a ceder sob o peso do chumbo e do fogo. No mar, a frota de Edward e Arthur estava cercada; no porto, as tropas de Edmund lutavam corpo a corpo contra os invasores que desembarcavam como uma maré negra. O cenário era de desespero. Edward, com a armadura suja de fuligem, e Arthur, empunhando sua espada com a força de quem protege o próprio futuro, viam-se empurrados contra as rochas da encosta.

​— Eles são muitos, pai! — gritou Arthur, golpeando um soldado espanhol.

​Edward olhou para o horizonte, buscando um milagre que a razão dizia ser impossível. Foi quando um som diferente rompeu o caos: não o trovão dos canhões, mas o toque profundo de centenas de trombetas inglesas vindo da terra firme, das colinas que cercavam a costa.

​No topo da encosta, siluetados contra o sol poente, surgiu uma visão que fez o coração de Edward saltar. Charles, montado em seu cavalo branco, liderava uma reserva maciça de cavaleiros veteranos — homens que haviam jurado lealdade a ele décadas atrás e que ainda responderiam ao seu chamado. Ao seu lado, montando com uma destreza que desafiava sua idade, estava Sabrina. Ela não trazia sedas, mas uma cota de malha leve e o olhar de quem já tinha visto reinos caírem e não permitiria que o seu fosse o próximo.

​— PELO NOME DE YORK! — o grito de Charles ecoou, e a cavalaria desceu a encosta como uma avalanche de aço.

​O impacto foi brutal. Charles entrou na batalha como um furacão, sua espada abrindo caminho entre as fileiras espanholas, provando que o sangue dos antigos reis ainda fervia. Sabrina, com uma guarda de arqueiros de elite, posicionou-se estrategicamente, ordenando chuvas de flechas que obscureciam o céu e atingiam os navios inimigos que tentavam atracar.

​A chegada deles trouxe um fôlego novo. Arthur, revigorado ao ver o avô e a avó lutando lado a lado, lançou-se em um contra-ataque feroz. Kristine, observando da torre mais alta, sentiu as lágrimas correrem ao ver a família unida na dor e na glória.

​A batalha na praia tornou-se um massacre de proporções épicas. O solo de Calais, misturado à água do mar, tingiu-se de um vermelho escuro. A resistência espanhola, pega de surpresa pelo flanco, começou a recuar em direção aos barcos, mas o custo para os aliados fora alto.

​Quando o sol finalmente mergulhou no oceano e o barulho das espadas deu lugar aos gemidos dos feridos, Charles caminhou até Edward e Arthur. Ele estava ofegante, o rosto manchado de sangue, mas os olhos brilhavam com o orgulho de quem protegeu sua linhagem.

​— Vocês demoraram para nos chamar — disse Charles, limpando a lâmina na capa.

​— Achamos que o tempo de vocês nas batalhas tinha passado, meu pai — Edward admitiu, abraçando o velho Rei.

​Sabrina aproximou-se, olhando para Kristine que descia da torre para os braços de Arthur. O olhar da Rainha Mãe era sombrio.

​— Não comemorem ainda — Sabrina alertou, apontando para as luzes no horizonte distante. — Aquilo ali é apenas a vanguarda. Filipe da Espanha não aceitará essa derrota. Ele enviará toda a Invencível Armada. O que vivemos hoje foi apenas o batismo de sangue. A verdadeira guerra... ela está apenas começando.

​O silêncio caiu sobre os vitoriosos. Eles haviam vencido o dia, mas o amanhã prometia um mar de fogo. A aliança entre York e Bourbon agora seria testada até o limite, enquanto a criança no ventre de Kristine esperava por um mundo que ainda teria que ser conquistado.