Razão ou Coração livro 2

13 O Sangue nas Neves de York



​Os meses que se seguiram à prisão de Katherine foram um inverno prolongado para a alma de Edward. O veneno deixara marcas: uma palidez que nunca o abandonava e uma tosse seca que surgia nos momentos de tensão. Mas a vontade de recuperar o tempo perdido o mantinha de pé. Assim que os médicos reais garantiram que ele suportaria a viagem, Edward não esperou pela primavera. Ele vestiu sua armadura de guerra, cobriu-a com um manto negro e cavalgou para o Norte com uma guarda reduzida, movido por uma urgência que beirava o desespero. Ele não ia como um diplomata; ia como um homem reivindicando a sua vida.

​Ao chegar ao Castelo de Richmond, o cenário era de abandono. O Conde Thomas, consumido pelo ciúme e pela paranoia desde que soube da queda da rainha russa, havia fortificado as portas. Quando Edward entrou no grande salão, o som de suas esporas ecoando no granito parecia um presságio. Thomas de Richmond o aguardava no centro do salão, segurando Isabelle pelo braço com uma força brutal. Ela estava magra, os olhos fundos, mas o fogo ruivo em seus cabelos ainda brilhava sob a luz das tochas.

​— Afaste-se dela, Richmond! — a voz de Edward trovejou, rouca mas autoritária. — O seu contrato com a coroa está anulado por traição e maus-tratos. Isabelle pertence a York. Ela pertence a mim.

​Thomas soltou uma risada histérica, puxando uma adaga curta da cintura e pressionando-a contra a garganta alva de Isabelle.

— Ela não pertence a ninguém, Majestade! Você acha que pode vir aqui, meses depois de nos condenar a este inferno, e simplesmente levá-la? Eu a possuí no papel, mas nunca a tive no coração porque o fantasma de um Rei moribundo ocupava cada centímetro desta sala!

​— Solte-a e você viverá para ver o exílio — Edward deu um passo à frente, a mão no punho da espada, os olhos suplicando para que Isabelle mantivesse a calma. — Por favor, Thomas... não suje as suas mãos com o sangue da única coisa pura que restou neste reino.

​Isabelle olhou para Edward, e naquele segundo, não havia medo em seus olhos, apenas uma tristeza infinita e um amor que transcendia a morte. — Edward... — ela sussurrou, uma despedida silenciosa.

​— Se eu não posso tê-la, e se você a quer tanto... — Richmond sibilou, os olhos injetados de loucura. — Então receba o que restou dela!

​Em um movimento rápido e cruel, antes que Edward pudesse desembainhar sua lâmina, Thomas puxou a adaga com força. O brilho do aço foi seguido por um rastro escarlate que manchou o vestido creme de Isabelle. O corpo dela vacilou, a vida esvaindo-se em um suspiro quebrado.

​O grito que escapou da garganta de Edward não foi humano; foi o rugido de um animal ferido de morte. A fúria que ele reprimira por meses explodiu em um único movimento. Ele sacou a espada e atravessou o peito de Thomas de Richmond antes mesmo que o corpo de Isabelle tocasse o chão. Ele não parou no primeiro golpe; a lâmina de York desceu repetidamente, movida por um ódio cego, até que o Conde fosse apenas um amontoado de trapos e sangue no chão do salão.

​Edward largou a espada, que caiu com um tilintar metálico, e lançou-se ao chão, amparando Isabelle nos braços antes que ela esfriasse.

— Não, não, não... Isabelle! — ele soluçava, pressionando as mãos contra o pescoço dela, tentando desesperadamente conter o fluxo de sangue que manchava suas mãos reais. — Fique comigo! Eu voltei por você! Eu venci a morte por você!

​Isabelle tentou levantar a mão para tocar o rosto dele, mas seus dedos falharam no meio do caminho. Seus olhos azuis focaram no rosto de Edward uma última vez, e um leve sorriso surgiu em seus lábios — o sorriso de quem finalmente estava livre de todos os pesos e coroas. Então, a luz se apagou.

​Edward abraçou o corpo sem vida, enterrando o rosto no pescoço dela, seus soluços ecoando pelas vigas escuras do castelo de Richmond. A neve começava a cair do lado de fora, cobrindo o Norte com um manto branco, enquanto no centro do salão, o Rei da Inglaterra chorava como uma criança, segurando os restos do amor que o mundo, a política e a ambição haviam destruído. Ele era o Rei, mas naquele momento, Edward Tudor percebeu que reinaria sobre um império de cinzas absolutas.