Razão ou Coração livro 2

12 O Despertar do Lobo de Ferro



​O caos que se seguiu ao grito de Alycia ecoou pelas galerias de Whitehall, mas dentro do quarto real, o ar estava parado e denso, impregnado com o cheiro adocicado da beladona. Edward estava estendido em sua cama, a respiração superficial e errática. Katherine permanecia ao lado dele, as mãos trêmulas escondendo o frasco vazio entre as dobras de seu vestido carmesim. Quando o som de espadas e o rugido de Charles Tudor se aproximaram da porta, a rainha russa percebeu que o tempo da dissimulação havia acabado. Ela olhou para o marido moribundo com um misto de fúria e pavor.

​— Acorde, Edward! — ela sibilou, sacudindo-o pelos ombros com desespero. — Acorde para ver o fim da sua linhagem!

​A porta foi escancarada com tamanha violência que uma das dobradiças de bronze cedeu. Charles entrou primeiro, a espada manchada com o sangue de um dos guardas de Volkov, seguido por Sabrina e Alycia, que apontava para Katherine com uma acusação silenciosa e mortal.

​— Afaste-se dele, Katherine! — Sabrina ordenou, sua voz sendo uma lâmina de gelo que cortou o fúnebre silêncio do quarto. — Nós sabemos o que você fez. O cristal quebrou, e a sua traição está escrita no mármore do corredor.

​Katherine levantou-se, recuperando uma arrogância desesperada. — Vocês não têm provas! Eu sou a Rainha! Eu sou a proteção deste reino contra a fúria do meu pai! Se vocês me tocarem, a Rússia reduzirá Londres a cinzas!

​Foi nesse momento que algo mudou na cama real. O corpo de Edward, que parecia entregue à morte, tencionou-se. O veneno, embora enfraquecesse seus membros, não fora capaz de apagar a centelha de fúria que o nome de York carregava. Ouvir a voz de sua mãe e o grito de sua irmã pareceu quebrar o transe químico. Com um esforço que fez as veias de seu pescoço saltarem, Edward Tudor abriu os olhos. Eles não estavam mais turvos ou amarelados; brilhavam com um verde incandescente, uma cor de floresta em chamas.

​Edward sentou-se lentamente, cada movimento sendo uma agonia visível. Ele tossiu, um som rouco e seco, e limpou um fio de sangue do canto da boca com as costas da mão trêmula. O silêncio que caiu sobre o quarto foi absoluto. Katherine recuou, tropeçando na própria cauda do vestido, ao ver o "cadáver" se erguer.

​— Você fala de cinzas, Katherine... — a voz de Edward surgiu, fraca no início, mas ganhando uma autoridade terrível a cada palavra. Ele se levantou da cama, recusando o apoio de Charles, mantendo-se de pé apenas pela força de sua vontade soberana. — Mas você se esqueceu de que eu nasci no fogo.

​Edward caminhou até ela, tropeçando uma vez, mas mantendo o olhar fixo na esposa. Katherine estava encurralada contra a parede. Ele estendeu a mão e, com uma força surpreendente, arrancou o diadema de diamantes da cabeça dela, jogando a joia no chão com desprezo.

​— Você não é uma Rainha — disse Edward, seu hálito cheirando ao veneno que ela lhe dera. — Você é uma assassina de almas. Você tentou me matar silenciosamente porque sabia que não teria coragem de me enfrentar como um guerreiro.

​— Edward, eu fiz isso por nós! — Katherine gritou, as lágrimas de pavor correndo. — Você me desprezou! Você me humilhou por causa daquela serva!

​— Eu a desprezei porque você é pequena, Katherine. Você buscou o trono, mas nunca entendeu o que significa ser uma Tudor. — Edward virou-se para Charles, sua respiração pesada, mas os olhos fixos na guarda real que entrava no quarto. — Pai, leve-a para a Torre de Londres. Não a quero em um tribunal. Quero-a no escuro, onde ela possa ouvir o som dos corvos.

​— E o embaixador? — Charles perguntou, a mão ainda no punho da espada.

​— Enforque-o nos portões do palácio ao amanhecer — Edward ordenou, a voz agora firme como o aço. — Que seja o primeiro aviso para o Imperador Russo. A Inglaterra não pertence aos Petrovic.

​Edward cambaleou e Alycia correu para segurá-lo. Ele pousou a mão na cabeça da irmã, um gesto de gratidão silenciosa, antes de olhar para Sabrina.

— Mãe... mande buscar Isabelle. Não me importa o escândalo. Não me importa o Conde de Richmond. Se eu vou governar este reino de gelo, eu o farei com a única pessoa que tem o direito de estar ao meu lado.

​Sabrina assentiu, as lágrimas finalmente vencendo sua máscara de duquesa. Enquanto Katherine era arrastada pelos guardas, gritando maldições em sua língua nativa, Edward Tudor sentou-se novamente em seu trono de carvalho dentro do quarto. Ele estava exausto, envenenado e quebrado, mas o Lobo havia despertado. A noite da traição terminara, e o sol que nasceria sobre Londres iluminaria um rei que não tinha mais nada a perder, exceto o tempo que o separava da mulher que ele nunca deveria ter deixado partir.