Razão ou Coração
18 O Teatro das Aparências
O Castelo de York não era apenas uma fortaleza de pedra; era um labirinto de ouvidos e olhos. A Sra. Halloway parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo: ajustando uma cortina, verificando a lenha da lareira ou simplesmente parada no final de um corredor sombrio, como uma sentinela silenciosa da Coroa.
Para sobreviver, Charles e Sabrina tiveram de criar uma encenação perigosa. O ódio e a desconfiança que fervilhavam entre eles precisavam de uma máscara de paixão recém-casada sempre que as portas do quarto se abriam.
A rotina em York tornou-se um jogo de xadrez psicológico. Todas as manhãs, Charles e Sabrina desciam para o grande salão de mãos dadas, os dedos entrelaçados com uma força que simulava afeto, mas que, na verdade, era um aviso mútuo para não quebrarem o personagem.
— Dormiram bem, Milordes? — a voz da Sra. Halloway cortava o ar durante o desjejum, enquanto ela servia o vinho quente com especiarias. — O vento do norte pode ser muito... inquietante para quem não está acostumado.
— O vento é apenas um detalhe, senhora — Charles respondeu, puxando a cadeira para Sabrina com uma galanteria exagerada e depositando um beijo casto, mas demorado, no topo da cabeça dela. — Quando se tem uma companhia tão... aquecedora, o frio mal é notado.
Sabrina sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. O toque de Charles, embora falso para os observadores, trazia consigo a memória do beijo na noite de núpcias e o segredo queimar nas cinzas da lareira. Ela sorriu para o marido, um sorriso que treinara exaustivamente diante do espelho.
— Meu marido tem uma tendência para o exagero — Sabrina disse, a voz doce como mel envenenado. — Mas é verdade que York tem os seus encantos. Especialmente a privacidade que nos proporciona.
A Sra. Halloway inclinou a cabeça, os olhos cinzentos nunca deixando de analisar as mãos de Charles, que repousavam sobre a mesa. Ela procurava por sinais: uma hesitação, um olhar de desprezo, ou qualquer prova de que aquele casamento era a farsa que o Rei William suspeitava ser.
A Intimidade Forçada
No entanto, era dentro dos aposentos reais que o teatro se tornava mais difícil. Eles sabiam que os criados escutavam atrás das tapeçarias e que a governanta passava horas no corredor adjacente.
Certa noite, Sabrina estava sentada na cama, lendo à luz de velas, quando ouviu o som suave de passos no corredor e o rangido característico de uma tábua de madeira solta do lado de fora da porta. Ela olhou para Charles, que estava parado junto à janela, observando o mar revolto.
Ela fez um sinal silencioso com a cabeça em direção à porta. Charles entendeu imediatamente.
— Sabrina, querida... — ele começou, a voz subindo de tom, ganhando uma nota de urgência romântica que a fez estremecer.
Ele caminhou até a cama e sentou-se na beirada, fazendo o colchão ranger propositalmente. Ele inclinou-se para ela, sussurrando perto do seu ouvido, mas alto o suficiente para que alguém com o ouvido encostado na madeira pudesse ouvir o murmúrio:
— Ela está lá fora. Aproxime-se.
Sabrina largou o livro e deslizou para os braços dele. Charles a envolveu, a mão subindo pelas costas dela até se enredar nos seus cabelos soltos. O calor do corpo dele era real, e a proximidade fazia o coração dela disparar — não de medo, mas de algo que ela se recusava a nomear.
— Ri — ele comandou num sussurro quase inaudível.
Sabrina soltou uma risada baixa e cristalina, inclinando a cabeça para trás. Charles aproveitou o movimento para morder levemente o lóbulo da orelha dela, um gesto que arrancou de Sabrina um suspiro genuíno de surpresa.
— Deixe que ela pense que estamos perdidos um no outro — Charles murmurou contra a pele dela. — Deixe que William receba relatórios de que o "Lobo" foi finalmente domesticado pela sua "Ovelha".
Eles ficaram assim por longos minutos, abraçados no silêncio do quarto, enquanto os passos da Sra. Halloway finalmente se afastavam pelo corredor. Quando o perigo passou, Charles não a soltou imediatamente. Ele ficou a observar o rosto de Sabrina, a luz da vela dançando nos seus olhos castanhos.
— Você é uma excelente atriz, Duquesa — ele disse, a voz subitamente rouca, perdendo o tom de deboche.
— Eu aprendi com o melhor, Milorde — ela respondeu, tentando afastar-se, mas sentindo a força dos braços dele a prenderem. — Mas lembre-se: o teatro termina quando as luzes se apagam.
— Em York — Charles aproximou o rosto do dela, o desafio voltando ao seu olhar — as luzes nunca se apagam de verdade. E o problema de fingir uma paixão, Sabrina, é que às vezes as sombras começam a acreditar na própria mentira.
Ele soltou-a e deitou-se no seu lado da cama, mantendo a distância habitual, mas o ar no quarto permanecia pesado. Eles estavam a vencer a vigilância de William, mas estavam a perder a batalha contra a atração perigosa que crescia entre as ruínas do ódio.
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