Razão ou Coração
16 O Segredo nas Sombras
A chuva castigava o telhado de palha da estalagem "O Corvo de Prata", um lugar isolado onde a carruagem de York fora forçada a parar após uma roda ceder no barro do caminho. O luxo do palácio parecia uma memória distante naquele quarto apertado, que cheirava a madeira úmida e fumaça de turfa.
Havia apenas uma cama estreita e uma mesa capenga. Charles estava no andar de baixo, supostamente garantindo que os cavalos estivessem alimentados, enquanto Sabrina tentava organizar o pouco que haviam conseguido retirar da carruagem.
Sabrina remexia em uma das bolsas de couro de Charles em busca de uma manta extra quando seus dedos tocaram algo rígido, escondido sob o forro falso do fundo da bolsa. Ela hesitou por um segundo, mas a curiosidade — aquela mesma que a fizera sobreviver dez anos na corte — falou mais alto.
Ao puxar, encontrou um maço de cartas seladas com o timbre da Coroa da Noruega e um medalhão de ouro que não pertencia aos Tudor. Não eram cartas de amor. Eram mapas de rotas comerciais e registros de dívidas astronômicas em nome de Charles.
O choque a percorreu como um raio. Charles não voltara por causa do testamento do pai ou por saudade do irmão. Ele voltara porque estava falido e, pior, estava vendendo informações sobre as rotas inglesas para os noruegueses em troca do perdão de suas dívidas. Ele era um traidor.
A porta rangeu e Charles entrou, encharcado, os cabelos grudados na testa. Ele parou abruptamente ao ver Sabrina de pé, com as cartas na mão e o medalhão brilhando sob a luz da única vela.
O rosto dele passou da exaustão para uma fúria gélida em um batimento cardíaco.
— O que você pensa que está fazendo? — A voz dele era um chicote, baixa e perigosa.
— Você nos vendeu, Charles? — Sabrina perguntou, a voz trêmula de indignação. — Você voltou para cá como o filho pródigo, aceitou o casamento, aceitou o sacrifício do meu futuro... tudo para cobrir suas apostas e suas traições na Europa?
Charles avançou com dois passos largos, arrancando as cartas da mão dela com tanta força que o papel cortou os dedos dele novamente. Ele jogou a bolsa no chão e prensou Sabrina contra a parede de madeira bruta, os olhos azuis faiscando de um ódio que ela ainda não conhecia.
— Você não tinha o direito de mexer nas minhas coisas! — ele rugiu, o rosto a centímetros do dela. — Quem você pensa que é? Minha carcereira? Minha consciência?
— Eu sou sua esposa! — ela gritou de volta, sem recuar. — E eu quase morri de culpa hoje de manhã por causa do seu sangue no lençol, achando que você tinha um pingo de honra! Mas você é apenas um mercenário, Charles. Você está usando o Rei, está me usando e está usando esse ducado para limpar sua sujeira com os noruegueses!
— Você não sabe de nada! — Charles socou a parede ao lado da cabeça dela, fazendo o quarto inteiro estremecer. — Você viveu em castelos comendo uvas enquanto eu era caçado por cobradores de dívidas e assassinos em cada porto de Calais a Oslo! Eu fiz o que precisava para sobreviver. Eu não pedi esse casamento, eu não pedi para ser um Tudor de novo!
— Então por que não fugiu? — ela desafiou, as lágrimas de raiva agora rolando pelo rosto. — Por que me arrastou para esse abismo com você?
— Porque eu fui invadido! — ele gritou, a voz falhando por um segundo de dor real. — William invadiu minha vida, e agora você... você entra nos meus segredos, remexe nas minhas feridas como se tivesse o direito de me julgar! Você se acha tão pura, Sabrina, mas está aqui, casada com um traidor, indo para um castelo fantasma no norte. Nós somos farinha do mesmo saco de lama!
— Eu nunca serei como você! — ela cuspiu as palavras.
Charles soltou-a bruscamente, como se o toque dela o queimasse. Ele respirava pesadamente, as mãos tremendo. Ele se sentia despido, exposto por aquela mulher que ele tentara manter à distância com deboche e arrogância.
— Guarde o seu julgamento para as suas orações, Duquesa — ele disse, a voz agora mortalmente calma, enquanto recolhia as cartas do chão. — Se uma palavra disso chegar ao ouvido de William, eu serei enforcado. Mas lembre-se: se eu cair, você cai comigo. O Rei nunca acreditará que sua "protegida" não sabia de nada. Estamos acorrentados um ao outro, no crime e no nome.
Ele se afastou, sentando-se no chão, longe da cama, com as costas contra a porta. Ele não olhou mais para ela. Sabrina deitou-se na cama estreita, soluçando silenciosamente. O "Lobo" não era apenas perigoso; ele era um homem quebrado, vendendo a própria alma para não afundar, e ela, por um golpe cruel do destino, agora era a única pessoa no mundo que carregava o peso da sua verdade.
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