Este é um momento crucial, onde as máscaras caem e a verdadeira política dos Tudor entra em cena.

​O escritório do Rei era um lugar onde o sol raramente entrava por completo. As paredes eram cobertas por mapas de guerra, genealogias e prateleiras carregadas de tomos antigos. O cheiro de couro e cera de lacre dominava o ambiente.

​William mal havia se sentado quando a porta foi escancarada. Charles entrou como uma tempestade, chutando a porta para trás antes de se apoiar com as duas mãos na mesa de carvalho, encarando o irmão com olhos que queimavam em ódio.

​— Você perdeu o juízo, William? — Charles rosnou, a voz baixa e vibrante. — Sabrina Drake? Ela é uma menina! E eu não sou um dos seus generais que você pode mover pelo mapa conforme sua conveniência.

​William nem sequer levantou os olhos dos papéis que assinava. Ele terminou uma rubrica, polvilhou areia sobre a tinta fresca e só então cruzou as mãos, olhando para o irmão com uma calma glacial.

​— Sabrina tem dezessete anos, Charles. Em nossa linhagem, isso é idade de Rainha. E você... — William fez uma pausa deliberada, medindo o homem à sua frente. — Você tem trinta e dois anos, nenhuma terra em seu nome, nenhuma lealdade comprovada e uma reputação que mancha o nome de nosso pai toda vez que você abre o zíper das calças em uma capital estrangeira.

​— Eu não pedi para voltar! — Charles disparou.

​— Mas voltou. E o testamento de nosso pai diz que você tem direito a um ducado e uma posição na corte. Eu não vou lhe dar exércitos, Charles. Não confio em você para isso. Mas vou lhe dar uma esposa que trará o respeito que você não tem.

​William levantou-se, contornando a mesa. Ele era mais baixo que o irmão, mas a autoridade que emanava o tornava imenso.

​— Sabrina Drake é a minha protegida. Ela é o que há de mais puro nesta corte. Casando-se com ela, você se torna intocável. Seus inimigos não poderão atacá-lo sem atacar a pupila do Rei. E ela... ela é a única pessoa que eu vi, em dez anos, capaz de calar a sua boca com uma única frase.

​Charles soltou uma risada amarga, afastando-se da mesa.

​— Você quer me dar uma babá, é isso? Uma babá bonita com uma língua de chicote para me manter na linha enquanto você governa em paz.

​— Eu quero que você cresça! — o Rei gritou, sua voz ecoando pelas paredes. — O reino está mudando. Alianças estão sendo feitas. Alexander vai se casar com a Noruega. Eu preciso que você esteja estabilizado. Se você se recusar, eu o declararei traidor da vontade real. Você perderá o título, perderá a proteção e será expulso destas terras sem um único centavo.

​Charles paralisou. O silêncio que se seguiu foi denso. Ele sabia que William não estava blefando. O irmão sempre fora movido pela razão de estado, nunca pelo sentimento.

​— Ela não vai aceitar — Charles disse, tentando encontrar uma saída. — Você viu os olhos dela. Ela me despreza.

​— Sabrina sabe o seu dever — William respondeu, voltando à sua cadeira. — E você vai aprender o seu. O anúncio oficial será feito no baile de noivado de Alexander. Até lá, sugiro que comece a agir como um homem que pretende conquistar sua futura esposa, e não como um animal ferido.

​Charles apertou os punhos até os nós dos dedos estalarem. Ele sentia-se preso em uma armadilha que ele mesmo ajudara a construir ao retornar.

​— Você venceu esta rodada, Majestade — Charles cuspiu as palavras com veneno. — Mas não espere que eu a faça feliz. E não espere que ela me perdoe por isso.

​— Eu não espero felicidade, Charles — o Rei disse, voltando sua atenção para os papéis. — Eu espero obediência. Agora, saia.

​Charles saiu do escritório sem olhar para trás, a mente fervilhando. Ele precisava de ar, precisava de espaço... e, acima de tudo, precisava encontrar Sabrina. Se ele estava condenado, queria ter certeza de que ela sabia exatamente o tipo de "lobo" com quem estava prestes a se casar.