Razão ou Coração
26 O Milagre nas Cinzas
O sol da manhã de Londres entrava pelas janelas do palácio, agora com um brilho que parecia mais limpo, como se a própria luz tivesse sido purificada pela queda da tirania de William. No grande quarto real, o silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo estalar suave da lenha na lareira.
Charles ainda dormia, a expressão finalmente relaxada após anos de exílio e sombras. Mas Sabrina já estava de pé, parada junto à janela, observando o jardim onde as flores de primavera começavam a abrir-se. Ela sentia um aperto estranho no peito — uma mistura de triunfo e uma fragilidade que não conseguia explicar.
Ao tentar apertar o espartilho do seu novo vestido de seda carmesim, uma onda súbita de tontura a atingiu. O mundo girou, e o cheiro do café que uma criada trazia no corredor pareceu-lhe subitamente insuportável.
Sabrina sentou-se bruscamente na beira da cama, a mão subindo instintivamente ao ventre. O coração disparou. Ela conhecia aquela sensação. Fora exatamente assim naquelas manhãs gélidas em York, antes da tragédia em Londres. Mas, desta vez, havia um medo paralisante: o medo de que a esperança fosse apenas uma peça pregada pela sua mente exausta.
Charles acordou com o movimento e, num instante, estava ao seu lado. A mão dele, marcada pela cicatriz do pacto que fizeram, pousou suavemente nas costas dela.
— Sabrina? Estás pálida. É o cansaço da coroação? — a voz dele era carregada de uma preocupação que ele só mostrava entre aquelas quatro paredes.
Sabrina olhou para ele, os olhos castanhos inundados de uma clareza súbita e lacrimejante.
— Charles... — ela começou, a voz trêmula. — Lembras-te daquela manhã, depois da tempestade de neve em York? Antes de voltarmos para este inferno?
O olhar de Charles tornou-se intenso. Ele lembrava-se de cada segundo.
— Eu sinto o mesmo que senti naquela altura — sussurrou ela, guiando a mão dele até ao seu ventre. — O enjoo, a tontura... o peso no coração que parece ter sido substituído por algo novo.
Charles ficou imóvel. O homem que enfrentara um exército sem pestanejar parecia agora incapaz de respirar. Ele inclinou a cabeça, encostando a testa na dela, fechando os olhos enquanto a compreensão o atingia.
— Um novo herdeiro... — ele murmurou, a voz rouca de emoção. — Um verdadeiro herdeiro de York e de Inglaterra.
A Promessa do Lobo
Ao contrário da última vez, não havia William para tramar nas sombras, nem Alexander para cobiçar o que não era seu. Eles eram os soberanos.
— Desta vez será diferente — Charles jurou, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dela com uma determinação feroz. — Ninguém tocará neste berço. Ninguém chegará perto de ti com segundas intenções. Eu transformarei este palácio numa fortaleza que nem a própria morte conseguirá penetrar.
Sabrina sorriu entre as lágrimas, sentindo a força do abraço dele. A perda do primeiro bebé ainda era uma cicatriz nas suas almas, mas esta nova vida que florescia era o perdão que o destino lhes enviava.
Naquela tarde, Sabrina convocou o médico real — não o homem de William, mas um de sua inteira confiança. A confirmação veio como um sussurro de paz: a vida encontrara, de facto, o seu caminho de volta.
Charles saiu para a varanda do palácio e, diante do povo que esperava por notícias do novo Rei, ele não falou de impostos ou de guerras. Ele apenas olhou para Sabrina, que apareceu ao seu lado, e o povo viu no rosto do "Lobo" algo que nunca pensaram encontrar: a luz de um pai que finalmente tinha algo pelo qual valia a pena construir um mundo melhor.
A linhagem de York estava salva. E, desta vez, o fruto do amor deles nasceria sob uma coroa legítima, protegido pela espada de um Rei e pela astúcia de uma Rainha que nada mais tinham a temer.
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