Razão ou Coração

21 O Convite do Carrasco


A notícia enviada pela Sra. Halloway cruzou as charnecas geladas e chegou a Londres como um rastro de pólvora. No Palácio de Whitehall, o Rei William recebeu o relatório enquanto observava a neve derreter nos jardins reais. Ele leu cada palavra sobre a "mudança de temperamento", os "olhares não encenados" e, principalmente, a "nova autoridade" que Sabrina exercia sobre o castelo.

​William não sorriu. Para um rei que governa através do controle, o amor é uma variável perigosa e imprevisível.

​Duas semanas depois, o som de trombetas rompeu o silêncio de York. Uma comitiva real, vestida com as cores escarlates de William, atravessou os portões. O líder da guarda entregou a Charles um pergaminho selado com cera dourada — o selo pessoal do Rei.

​No salão principal, sob o olhar atento da Sra. Halloway, Charles quebrou o lacre. Sabrina estava ao seu lado, a mão repousando sobre o braço dele em um gesto de apoio que agora era instintivo.

​"Meu caro irmão e minha amada Duquesa,

​Os relatos sobre a harmonia de seu lar aquecem o meu coração neste inverno rigoroso. Uma união tão próspera merece ser celebrada diante de toda a corte. Exijo sua presença em Londres para o Festival de Primavera. Não aceitarei recusas. É hora de o Lobo e sua Duquesa mostrarem ao reino a força do sangue Tudor.

​Com afeto real, William."

​Charles apertou o pergaminho até que o papel rangesse. Ele olhou para Sabrina, e o brilho de aviso em seus olhos era mútuo.

​— "Com afeto real" — Charles ironizou, a voz baixa e carregada de veneno. — Isso não é um convite, Sabrina. É uma intimação. Ele percebeu que perdeu o controle sobre nós aqui no norte. Ele quer nos ter onde possa nos vigiar de perto... ou nos destruir se não baixarmos a cabeça.

​— Ele quer ver se o que a Sra. Halloway relatou é verdade — Sabrina completou, olhando para a governanta, que permanecia imóvel como uma estátua de gelo. — Ele quer saber se eu ainda sou a "protegida" dele ou se agora eu sou apenas sua, Charles.

​O Plano de Retorno

​Naquela noite, trancados em seus aposentos, eles não se entregaram à paixão, mas à estratégia. Charles andava de um lado para o outro, a luz da lareira esculpindo as linhas duras de seu rosto.

​— Se voltarmos agora, seremos testados a cada segundo — disse Charles. — Ele vai tentar nos separar, vai usar Alexander, vai usar Camilly. Ele vai procurar qualquer rachadura na nossa farsa... ou na nossa verdade.

​Sabrina aproximou-se, pegando as mãos dele. Ela sentiu a cicatriz no pulso de Charles, o lembrete físico do sacrifício que ele fizera por ela.

​— Então daremos a ele o que ele quer ver, mas com uma diferença — ela disse, os olhos castanhos brilhando com uma astúcia que ela aprendera com o próprio Rei. — Ele acha que nos uniu para nos neutralizar. Mostraremos a ele que, juntos, somos mais poderosos do que ele jamais imaginou. Se ele quer o Lobo e a Duquesa em Londres, ele os terá. Mas ele não vai gostar do que acontece quando os lobos aprendem a caçar em matilha.

​Charles sorriu, um sorriso sombrio e orgulhoso. Ele a puxou para um beijo rápido, selando o pacto de guerra.

​— Prepare suas melhores sedas, Duquesa. Vamos voltar para a cova dos leões. E desta vez, não vamos levar apenas adagas escondidas... vamos levar a verdade de que não somos mais as peças dele.

​A partida para Londres foi organizada na manhã seguinte. Enquanto a carruagem deixava York, Sabrina olhou para trás uma última vez. O norte a transformara. Ela não era mais a menina que saíra de Londres meses atrás. Ela voltava como uma mulher casada, cúmplice de traição e profundamente apaixonada pelo homem que deveria ser seu castigo.