Razão ou Coração

20 Finalmente unidos


O sol da manhã refletia na neve fresca do lado de fora, inundando o quarto com uma claridade ofuscante e gelada, mas dentro do círculo de calor daquelas cobertas, o inverno parecia ter finalmente perdido a guerra.

​A barreira de gelo que Sabrina e Charles construíram durante semanas havia derretido sob o fogo da necessidade e do desejo real. Não havia mais teatro. Naquela manhã, o entrelaçar de seus corpos era genuíno, uma busca por abrigo e reconhecimento que ia além de qualquer ordem real. Charles mantinha o rosto enterrado no pescoço de Sabrina, as mãos grandes mapeando a pele dela com uma suavidade que ele nunca permitira transparecer antes.

​Eles estavam perdidos naquele momento de trégua, o som de suas respirações ritmadas abafando o estalar final das brasas na lareira. Sabrina sentia o coração dele bater contra o seu — não era o ritmo frenético de um lobo acuado, mas algo profundo e constante.

​A porta rangeu.

​Não foi um aviso. Não houve batida. A Sra. Halloway entrou com a bandeja de prata, seus passos silenciosos como os de um espectro. Ela esperava encontrar o cenário de sempre: Charles em sua poltrona e Sabrina na cama, mantendo a distância gélida que ela relatava fielmente ao Rei.

​O que ela viu, no entanto, a fez parar bruscamente no meio do quarto.

​Charles e Sabrina não se afastaram imediatamente. Charles apenas ergueu o rosto, os olhos azuis faiscando não com o deboche habitual, mas com uma possessividade feroz. Ele manteve o braço firmemente ao redor da cintura de Sabrina, puxando-a para mais perto, como se desafiasse a governanta a questionar a cena.

​Sabrina, com o cabelo em desalinho e a pele ainda quente do toque dele, sustentou o olhar da Sra. Halloway. Pela primeira vez, a governanta não viu uma "protegida" assustada, mas uma Duquesa que encontrara seu lugar ao lado do Lobo.

​— Eu não me lembro de ter dado permissão para que entrasse, senhora Halloway — a voz de Charles ecoou, baixa e perigosa, como o rosnar de um animal protegendo seu território.

​A governanta apertou as mãos na bandeja, seus lábios formando uma linha fina de desaprovação e, talvez, de surpresa genuína. O relatório que ela escreveria para o Rei William naquela tarde seria muito diferente de todos os anteriores.

​— Milorde... eu pensei que, devido ao frio... — ela começou, mas sua voz fraquejou sob o peso do silêncio de Charles.

​— Pensou errado — Sabrina interveio, sua voz soando clara e autoritária no quarto. — Deixe a bandeja e saia. E, da próxima vez, bata. Ou a Coroa terá que encontrar uma governanta que entenda o significado de privacidade nupcial.

​A Sra. Halloway fez uma reverência rígida, colocou a bandeja sobre a mesa e retirou-se sem dizer mais uma palavra. O som da porta fechando selou o quarto novamente.

​Charles olhou para Sabrina, um meio sorriso surgindo em seus lábios — desta vez, um sorriso que alcançava seus olhos.

​— Parece que a nossa vigilante finalmente teve algo real para contar ao meu irmão — ele murmurou, voltando a puxá-la para si.

​— Sim — Sabrina respondeu, passando os dedos pelas cicatrizes no peito dele. — Mas agora o perigo mudou, Charles. William queria que nos uníssemos, mas ele queria que fôssemos seus peões. Ele nunca esperou que nos tornássemos uma frente única.

​— Deixe que ele espere — Charles disse, antes de silenciá-la com um beijo. — York é nossa agora. E quem quer que cruze aqueles portões, terá que enfrentar dois lobos, não apenas um.