Razão e Emoção

2 Capítulo 2 – A agente


Notas iniciais
Mais um, agora que começaaa....rsrs

POV Maura

Suspirei fundo e escrevi um: “Obrigada, Angela” ao final do bilhete. Não estava com a mínima vontade de comer nada, mas ao menos ela saberia que vi seu gesto de delicadeza. Subi para o quarto a fim de tomar um banho e dormir, me sentia esgotada nos últimos tempos e já não aguentava mais isso. No dia seguinte após uma noite particularmente mal dormida, fiz minha higiene matinal e fui mais cedo para o trabalho como de costume. Estava no escritório, porém os resultados de alguns exames do corpo que estávamos trabalhando ainda não haviam chegado, já havia preenchido todos os relatórios, aquele caso estava travado e preocupava cada vez mais a todos, mas no momento não havia nada que pudesse fazer, entrei num site de compras e comecei a ver sapatos. Em pouco tempo estava num site de agência de viagens, talvez estivesse precisando de férias afinal de contas... Ouvi alguém bater na porta e entrar na sequencia mesmo eu não tendo permitido a entrada ainda, era óbvio que seria Jane a fazer isso. Levantei rapidamente os olhos e a vi sorrindo para mim, mas não olhei mais nada a não ser a mão que segurava o copo de café que continha agora aquela odiosa aliança. Droga, por mais que tentasse não conseguia não olhar para ela e ficar internamente emburrada. Ela pareceu notar meu desconforto tentando iniciar uma conversa em tom simpático:

– E ai, tudo bem? O que fez de bom ontem?

– Jaques está na cidade expondo numa galeria nova, fui lá prestigiar.

Ela olhou pra cima buscando algo na memória depois continuou:

– Ah, o seu amigo papagaio né? É ele que te chama daquele apelido engraçado de uma ilha da Islândia?

– Noruega. Sim, ele mesmo.

Por um minuto sorri, o marido do Jaques não se lembrava desses detalhes bobos entre eu e meu amigo, no entanto Jane sim. Tá, isso não queria dizer nada, afinal ela é uma detetive, se atém muito mais a pequenos detalhes do que as pessoas comuns, mas era um mínimo gesto que fazia eu me sentir especial pra ela. Tomada por essa sensação fiz a pergunta que me odiei no mesmo segundo que a deixei escapar da boca:

– E você, o que fez?

– Ah, nada de mais, o Casey fez o jantar depois assistimos um filme que ele tinha alugado, era um ai que tá concorrendo ao Oscar, muito chato por sinal, dormi na metade...

Não consegui sorrir apenas assenti com a cabeça, essa noite “nada de mais” incluindo um jantar em casa e um filme alugado que ela reclamaria depois fez durante anos parte da nossa rotina, não dela com outra pessoa ou vice-versa e imaginar aquilo me dava um nó na garganta.

De repente Susie bateu a porta pedindo licença e entrando com um papel. Dei graças a Deus, ao menos agora teríamos que focar no trabalho deixando tudo aquilo que me causava incômodo trancado num canto de meu cérebro. O dia correu agitado, além do caso em aberto que não evoluímos quase nada aconteceram mais um homicídio que o autor foi pego em flagrante e um caso que após várias análises constatei se tratar de um suicídio. Estava guardando o corpo deste último homem na geladeira e arrumando o necrotério já à noite quando ouvi a voz de Jane me chamando.

– Estou aqui, Jane!

Ela entrou já com o casaco em mãos:

– Ei, dia difícil hoje né? – eu balancei a cabeça cansada – Acho que merecemos uns drinks!

– Eu acho que não estou no clima para a barulheira do Dirty Robber hoje, Jane, me desculpe. – a verdade é que não estava com a mínima vontade de sair com ela e o “noivo” já que nos últimos tempos ele parecia se esforçar pra fazer parte da rotina dela até no happy hour do trabalho.

– Ah, mas apesar de eu amar o Dirty hoje vai mesmo estar um caos lá porque é aniversário do policial Cooper e o precinto todo já marcou de aparecer, ia sugerir irmos naquele bar novo que abriu perto da sua casa e ficamos de conhecer, mas nunca fomos... Sabe, faz tempo que não saímos pra conversar em paz sem a galera toda!

Fiquei um tempo em silêncio encarando os papéis que arrumava na mesa. Eu sentia falta de fazer programas a sós com Jane, e pelo visto ela também. Será que queria me contar que havia algo de errado no relacionamento dela com Casey? Não queria ter esperanças, mas porque não tentar ir e ao menos ter um bom momento com ela?

– Está bem, vou só terminar aqui e te encontro no estacionamento.

Minutos mais tarde estava em meu carro e ela no dela indo em direção ao bar, por ser realmente muito perto optamos por estacioná-los em minha garagem depois ir para lá a pé. Já havia desligado e veículo e retocava a maquiagem no retrovisor quando a vi atendendo o celular e dando voltas na calçada. Depois de um tempo veio até mim com cara de cachorro pidão:

– Maur, me desculpa, não vou poder mais ir... É que esqueci completamente que o Casey tinha reservado lugares num restaurante que eu queria comer faz meses, não dá pra cancelar, sabe, semana que vem ele provavelmente viaja de novo e...

– Tudo bem! – a cortei de forma seca, não queria ficar ouvindo nada que envolvesse a vida de casal dela mais do que o necessário.

Ela continuou com a carinha de dó que normalmente me comovia, mas estava disposta a ser firme, não disse mais nada, apenas me dirigi à porta com a chave já em mãos.

– No fim da semana a gente vai, ok?

– No fim da semana eu vou jantar com Jaques e o Tylan. – abri a porta e me virei para ela novamente – Bom jantar, Jane, até amanhã!

Ela fez menção e me abraçar mas parou acenando com a mão e se afastando em seguida, percebeu que havia me irritado mas não tinha nada para dizer então apenas foi até seu carro. Fechei a porta sem nem vê-la partir. Eu não estava realmente irritada, magoada seria a palavra certa, ela simplesmente me trocou por um cara que nunca esteve ao lado dela quando precisou, isso era inadmissível para mim. Esquentei o macarrão que Angela havia deixado na noite anterior, jantei tomando um de meus vinhos preferidos, depois continuei bebendo, quando a garrafa acabou percebi que todos os pensamento que me aborreciam ainda não haviam sumido e tudo que queria naquele instante era justamente isso. Levantei, peguei as chaves e fui para o tal bar, se Jane não precisava de mim para fazer seus programas eu também não precisava dela, oras! Andei duas quadras pra baixo, atravessei a rua e entrei num bar pouco movimentado e mais sofisticado do que aparentava ser por fora.

Andei calmamente olhando em volta e sentei no balcão admirando um pianista tirar um belo som logo ao lado. O lugar era bem agradável e tinha pessoas bonitas, acho que estava mesmo precisando sair para lugares assim. Pedi uma Marguerita e a degustava lendo o restante do cardápio. Não levou muito tempo para notar um grupo de homens numa mesa olhando para mim. Nenhum deles me chamava à atenção de fato, mas me permiti pensar que fazia tempo que não saia com ninguém, o que me levou a pensar em como estaria Ian depois de tanto tempo. Não, eu definitivamente não precisava aumentar minha lista de pensamentos frustrantes e aborrecedores, talvez sair com um daqueles homens a minha frente fosse uma boa opção para distrair de vez minha mente. Nisso tive a visão bloqueada por uma mulher morena, relativamente alta e magra vestida numa camisa simples branca de linho decotada, jeans justo e um casaco preto cinturado de apenas um botão. Ela se abaixou um pouco para deixar os olhos à altura dos meus, eram escuros e amendoados, ela sorriu e falou um pouco alto devido a música:

– Com licença, posso me sentar aqui? – ela apontava para o banco vazio ao meu lado, um dos poucos vazios no balcão a bem da verdade.

– Oh, claro, sem problemas!

A morena se sentou e pediu uma dose de uísque sem gelo. Olhei um pouco impressionada para ela que me pegou no flagra:

– Não tem sido um dia muito bom... – depois com um sorriso largo completou – Se bem que me ensinaram que é pecado colocar gelo no uísque, pra apreciar tem que bebê-lo assim, e eu gosto de apreciar bem as coisas!

Eu sorri para ela de volta. Sua voz era agradável e seu olhar transmitia simpatia. Seu copo chegou e ela o levantou apontando para minha bebida:

– Saúde!

Ergui minha Marguerita e respondi ao brinde. A observei dando um longo e prazeroso gole, toda sua postura corporal e vestuário aparentavam ser de uma mulher forte e decidida, um uísque sem gelo aparentemente combinava bem com a personalidade daquela estranha. Ri internamente, estava mesmo analisando uma mulher que simplesmente dividia o balcão comigo? Eu estava mesmo disposta a distrair minha mente com qualquer coisa. Novamente ela me viu a encarando e puxou um assunto:

– Gosto dessa música!

Olhei em direção ao pianista e reconheci alguns acordes de “Fly me to the moon” de Frank Sinatra. Ela tinha bom gosto, pensei.

– Eu também, é muito bonita. – fiz uma pausa dando um longo gole que finalizava minha bebida – O lugar todo é bem bonito na verdade, nunca tinha vindo.

– Nem eu. – ela respondeu sorrindo. – Sou Emily Prentiss, a propósito!

Estendi a mão para apertar a dela que estava a minha frente:

– Maura Isles, prazer!

Passamos alguns segundos a mais que o necessário com as mãos dadas nos encarando nos olhos, aquela morena tinha um magnetismo único, era impossível não se prender a ela quando ela se dirigia tão diretamente a você.

– Então, o que você faz da vida, Stra. Isles?

– Pode me chamar apenas de Maura, e ah... Se quer mesmo saber, você disse que tem tido um dia difícil, Stra Prentiss, eu também! Se incomodaria se não conversássemos sobre trabalho?

– Na verdade isso seria um grande favor! – respondeu ela relaxando mais na cadeira – E Emily só está bom. Mais uma?

Olhei minha taça vazia, já começava a ficar tonta afinal bebi uma garrafa toda de vinho antes de chegar ali, mas voltaria a pé de qualquer forma, acenei positivamente com a cabeça e ela logo chamou o garçom. Perdi a noção de quanto tempo conversamos e do quanto mais bebemos, ela era uma companhia realmente agradável, me fazia rir e tinha uma cultura espetacular, pelo visto já tinha viajado muito também já que trocávamos impressões sobre outros países de maneira muito pontual. Num determinado momento me levantei dizendo que estava na hora de ir embora, eu tinha noção que já tinha passado um pouco da conta mas precisaria trabalhar no dia seguinte então retirei a carteira da bolsa contando quanto de dinheiro deveria deixar, a vi olhar para mim preocupada:

– Você não vai dirigindo assim não é?

– Oh, não se preocupe, eu moro aqui perto, vim a pé!

Ela virou o último gole de sei lá qual seu copo de bebida depois retirou algum dinheiro do bolso depositando sobre o balcão e se levantando em seguida.

– Ok, então vamos.

– Como assim, vamos? – perguntei confusa me preocupando mais com minhas passadas do que com o que ela realmente havia dito.

– Eu não sou nem louca de deixar você ir embora sozinha no estado que está, te acompanho até sua casa.

– Ei! – reclamei ofendida – Eu não estou bêbada está bem? Eu nunca excedo completamente meu limite de resistência a substâncias alcoólicas uma vez que...

Não completei a frase ao notar que já estávamos do lado de fora e eu tropecei num degrau da saída sendo segurada fortemente por Emily. Ela me encarou de maneira séria depois abriu novamente um sorriso e me deu o braço para que eu segurasse nele:

– Está bem doutora sabichona, mesmo assim faço questão de garantir que você chegue sã e salva a sua residência.

Franzi a testa, em algum momento eu teria dito que era médica? Bom, não tinha realmente certeza, provavelmente sim. Segurei no braço dela e fomos andando até minha casa. Poucos minutos depois chegamos, ainda travávamos uma conversa animada, rindo bastante não sei ao certo do que.

– Obrigada por me acompanhar, Emily, foi um prazer sua companhia!

– Não tem de quê! Eu que agradeço por ter melhorado tanto o meu dia, Maura.

Fiquei a encarando com a chave nas mãos, não queria que ela fosse embora, na verdade, estava me sentindo tão bem com ela ou talvez fosse apenas meu nível alcoólico falando mais alto o quanto andava me sentindo só, de qualquer forma arrisquei:

– Você não quer entrar? Não tenho uísque, mas talvez você queira uma água...

– Uma água cairia bem agora, amanhã só funciono na base de muito café, isso é certeza!

Eu sorri e abri a porta convidando-a a entrar na sequencia, fui pendurar a bolsa no cabideiro que fica ao lado da porta, mas errei a mira e o deixei cair no chão, rindo abaixei para pegá-lo, após algumas tentativas consegui pendurar, me virei e vi Emily realmente próxima de mim me encarando de maneira séria, hesitei um pouco naquele instante:

– Você quer água gelada ou...

– Pensando bem, eu acho que quero outra coisa! – ela respondeu dando mais dois passos em minha direção e agarrando com força minha cintura me deu um beijo avassalador.

Notas finais
Espero que estejam gostando! Bessos galera