Razão e Emoção
1 Capítulo 1 - Devaneios sem fim
Notas iniciais
Maura contemplava o mesmo quadro há praticamente 10 minutos na elegante galeria de arte em que se encontrava. Ela não estava realmente pensando sobre ele, estava pensando em si mesma, em como estava sua vida e aliás como ela andava bagunçada nas últimas semanas. Correu para resolver tantos problemas familiares de uma família que nem sabia que possuía até 2 anos atrás: o julgamento de seu odioso pai biológico Paddy Doyle, a resistência de sua mãe biológica em ajudar no processo, a meia irmã Callin que possuía agora um de seus rins e na maior parte das vezes parecia não passar de uma adolescente mimada que nunca lhe agradeceu pela cirurgia, abrigar o avô em sua casa e no meio de todo este turbilhão Casey reaparece pedindo sua melhor amiga em casamento? Aquilo não era justo! Jane era tudo que tinha, sua fortaleza, sua única e verdadeira família muito mais forte que qualquer laço de sangue e aquele soldadinho de merda que estava sempre indo e voltando do Afeganistão simplesmente aparecia para leva-la embora de sua vida? Como ela poderia viver sem Jane?
Foi tirada de seus pensamentos por uma voz masculina lhe sussurrando no ouvido:
- Sei que sou um gênio da arte, mas não creio que esta gênia aqui esteja apenas realmente admirando meu quadro há tanto tempo...
Maura se virou assustada dando de cara com um homem alto, loiro, com uma barba grande trajando um terno roxo extravagante e óculos de armação largos sorrindo para ela:
- Jaques! Perdão, eu... Eu estava sim admirando seu quadro! – “Mas não pensando sobre ele” – completou a loira em pensamento.
Jaques Parrot era um antigo conhecido de Maura. Fizeram juntos os primeiros 2 anos de faculdade quando o rapaz percebeu que definitivamente não tinha vocação para a medicina e foi se dedicar a sua paixão que eram as artes. Jaques foi a única companhia na vida estudantil de Maura desde a infância a quem ela podia realmente nomear como amigo. Talvez porque ele fosse tão excluído quanto ela na sala de aula acabaram se aproximando. Maura sempre fora um gênio fora do comum e com pouquíssimo tato para relações interpessoais, e ele só estava lá forçado pela família tradicionalíssima que queria o obrigar a viver a vida deles quando na verdade sempre se sentiu um peixe fora d’água em todos os contextos impostos pelos pais. Apesar do distanciamento que a vida sempre impõe com o passar dos anos e mudanças na rotina ambos se esforçavam para manter algum contato e eventualmente (quando o destino permitia) se encontravam.
Jaques estava expondo juntamente com outros artistas numa galeria recém-inaugurada em Boston. Havia mandado o convite da vernissage para Maura, mas no fundo não achou que ela fosse aparecer, sabia que a legista tinha um trabalho duro e cansativo e eles realmente não conversavam direito há quase 1 ano. Ficou feliz em ver a belíssima loira pela qual ele nunca escondeu ter uma queda na época da faculdade aparecendo naquela noite. Sua “queda” se tornou admiração com o passar dos anos e também à medida que foi descobrindo sua homossexualidade. Hoje ele era um homem casado, bem resolvido e feliz e lhe preocupava um pouco notar que a antiga amiga parecia se esforçar para mostrar que também era, mas ela não parecia se sentir completa. Pelo menos não naquele momento.
- Ei, não minta pra mim! O que está acontecendo com você de verdade? – Jaques sabia que não precisava realmente ter dito a primeira frase, afinal Maura não podia mentir senão teria urticárias...
- Pare com isso, Psita, eu vim aqui para ver o seu trabalho, não para falar sobre mim! – respondeu Maura de maneira carinhosa tentando evitar a pergunta.
- Ok, Bouvet, se você não quer falar não fale, não vou forçar nada. Mas você sabe que se precisar de qualquer coisa pode se abrir comigo, não é?
A loira sorriu em resposta bem a tempo de notar um negro atlético vestido numa roupa social discreta e com cabelo rastafári parado ao lado dos dois com a testa franzida:
- Por mais que vocês me expliquem eu nunca vou decorar o porquê desses apelidos internos...
- Na verdade o motivo é tão estranho e genial quanto estas pessoas aqui na sua frente, meu querido! – respondeu Jaques apertando a bochecha do outro. – No primeiro semestre daquela odiosa faculdade de medicina que papai me fez entrar um professor passou uma pesquisa em duplas e como eu era o “turista” que só chegava de ressaca e dormia lá no fundão não conhecia ninguém e fui pra biblioteca tentar, Deus sabe como, fazer o trabalho sozinho e encontrei a senhorita esquisitice da sala que só tirava 11 de 10 e ninguém sabia a cor dos olhos, porque estava sempre com a cara enfiada num livro, sentada num canto. Pensei: “ou faço dupla com ela ou pego DP, vou arriscar”, me apresentei e a reação da loirinha aqui (depois do susto, claro) foi dizer: Parrot, é um sobrenome interessante... Sabia que os papagaios são da família Psittacidae composta também por araras e periquitos e sua característica predominante é o tipo de bico blá blá blá, enfim, soltou a enciclopédia que tinha dentro dela! — neste momento tanto o negro quanto Maura riam abertamente, ele imaginando e ela lembrando claramente da cena, Jaques continuou – Eu fiquei chocado, pensando: “Foda-se, melhor pegar DP, essa menina é doida”, mas ao mesmo tempo achei tão engraçado e fofo o jeito que ela se expressava que resolvi dar uma segunda chance, nos encontrávamos todo dia na biblioteca após as aulas e um dia alguém tinha deixado um atlas na mesa que sentamos, comecei a folhear e de repente me deu um estalo: “Ei, seu sobrenome é Isles né?” Sai caçando a parte que falava sobre ilhas e abri numa página todo feliz: “Ilha Bouvet, a ilha mais isolada do mundo, combina com você, já ouviu falar dela?” Claro que ela respondeu sim, que era uma ilha norueguesa e quis me dar mais uma aula de geografia, mas em poucos minutos um encarou o outro e começamos a rir. A partir daquele dia comecei a chamar ela assim, no começo ela não gostava do apelido, mas dai como troco passou a me chamar de Psita (afinal nem ela tinha paciência de falar o nome todo da ave) eu achei justo e pronto, foi isso. Assim começamos nossa amizade com apelidos estranhos de pessoas muito cultas!
Maura praticamente chorava de rir com as lembranças que o amigo revelava ali, realmente eles eram muito estranhos e cultos para inventar algo assim, e ela adorava isso, percebeu o quanto sentia falta dele por perto.
- Você se casou com um louco, Tylan. – disse por fim encarando o negro
- Pois é, a cada dia tenho mais certeza disso!!
Jaques fez cara de ofendido ganhando um selinho do marido, que na sequencia falou sobre possíveis investidores num projeto apontando para o outro lado da galeria. Maura entendeu que o amigo precisava se retirar e se despediu dos dois dizendo que provavelmente não estaria mais na volta, estava cansada, mas marcaram um jantar para o final da semana.
Maura se retirou da galeria mais leve. Foi para casa perdida em pensamentos que envolviam a época da faculdade, Jaques e tudo mais, sua vida nem sempre girou em torno do trabalho e problemas. Chegou em casa e se deparou com um bilhetinho de Angela na geladeira: “Querida, tinha preparado uma macarronada para Jane, mas como Casey está na cidade e ele sempre cozinha pra ela trouxe pra você! Beijos” o que fez a loira automaticamente completar o pensamento: e nem de Jane, sua vida também nem sempre girou em torno dela, pena que isso parecia fazer milhares de anos agora...
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