Ravena

5 A nova Ravena


Notas iniciais
Capítulo meio grande, mas prometo que o próximo vai ser bem curtinho!! Boa leitura!

Me encarei um pouco. Ao lado da porta tinha uma tira de vidro que dava para ver o corredor. Vi os médicos passando e, pelo nome do hospital no jaleco, eu estava no mesmo lugar. Andei até a porta e saí. Parecia tudo normal. Fiquei um tempo parada no corredor, só encarando as pessoas e as coisas. Me senti viva de novo por que as pessoas passavam e me olhavam. Será que vou voltar a vida em outro corpo?

Saí do hospital e cambaleei para a esquina. Olhei para os dois lados. Meu corpo estava totalmente perfeito, meu rosto, cabelo, até meus olhos continuaram sendo azuis perfeitos sem nenhuma olheira. Atravessei a rua, e foi quando um rapaz mexeu comigo. Num instante tomei um susto, depois o encarei por alguns segundos antes de desviar os olhos. Os rapazes nunca me olharam, tampouco mexeram comigo. Mas, agora, eu sinto isso, eu vivo isso.

Continuei andando, até que parei num bar razoavelmente badalado. Teria passado despercebido, se não fosse por um Brad sentado ali afogando as mágoas. Cheguei mais perto e o vi bebendo um tipo de vodka, e me perguntei por qual motivo o dono do bar vendeu vodka a um menor de idade. Sentei na cadeira ao lado dele e tentei não chamar atenção. Pedi ao Bar Man uma tequila e um bombom de licor. Primeiro: meu rosto está com um ar mais maduro. Segundo: não sabia como iria pagar!

Resolvi puxar assunto com Brad, e ouvir aquela voz linda de novo. Olhar nos olhos azuis dele e ter ele me olhando. Taã quieto e pensativo.

– E aí, qual o problema? – perguntei em uma espetacular atuação.

– Você quis dizer os problemas, né? – ele falou, com a voz meio seca.

– Bom, estamos no mesmo barco então. – falei, e então ele deu um leve sorriso. Depois uma golada. Aquele sorriso me encanta.

– Me envolvi com as pessoas erradas. Estou quase perdendo a certa. E me arrependo cada fio de cabelo de ter magoado ela. — ele deu outro belo gole na vodka e me encarou.

– Perdendo ela? – perguntei, realmente interessada em cada palavra que sairá da boca dele.

– Ela sofreu um acidente... Está em coma. – ele fez uma pausa curta para retomar o fôlego e logo prosseguiu – eu poderia ter falado com ela. Ela poderia ter ido sabendo o quanto eu a amo. Simplesmente fui no errado, persisti na dúvida e errei com o certo. Ninguém nunca me entendeu ou me fez delirar como ela.

Brad era diferente. Não era aquele menino que pensei que fosse, não mesmo! Eu pensei em insistir e ver aonde isso acaba, mas eu sei que ele não me daria atenção, já que está mesmo é apaixonado pela Ravena. E eu fico feliz por isso.

– Uau! Que história! – exclamei — Quer um conselho?

– Por favor... — ele pediu de cabeça baixa e recostou-se no balcão.

– Não desista dela. Aonde quer que ela esteja, ou você estiver, ame ela do mesmo jeito. Pois ela pode estar mais perto do que nunca. – levantei e saí da bancada, mas senti ele segurando meu braço.

– Você... me lembra muito ela, sabia? – ele revelou.

Eu refleti alguns segundos sobre aquilo, já que meu novo rosto não tem nada a ver com a Ravena.

– Eu só sinto isso. Você tem um jeito de agir, um jeito de falar igual ao dela. – e então ele me olhou com um olhar diferente, mas tentei não encará-lo. – Qual seu nome?

Bingo! O que falaria agora? Droga! Pense Ravena. Pense.

– Lisa. – mandei na lata, e confesso que não sei o motivo de ter falado esse nome. – Olha, o que te disse ali foi só um conselho... Não uma resposta pra tudo.

Tentei sair de novo, mas ele insistiu e me puxou de novo.

– Eu te conheço, Lisa. Eu estou sentindo algo com você, sua presença me recorda alguma coisa, mas não sei bem o que é.

Bebeu muito? Ok, não disse isso, mas fiquei imóvel encarando ele. Eu não queria me render a ele, eu tinha que ser forte, afinal, eu não sou a Ravena. Se ele se render para mim, é como se ele tivesse nos braços de outra menina, uma espécie de traição. Mas, não resisti. Sou burra, fraca, e meus hábitos não vão mudar. Quando ele se levantou, eu o beijei. Aquela boca... Fiquei derretida em senti-la novamente, mas, desta vez, de língua. Foi rápido, mas encantador. Me senti envolvida com aquele momento, porém não o culpo por ter entrado no embalo do beijo. Eu o forcei, e espero que ele não se culpe por ter “traído” a Ravena. Quando nos afastamos, o horário da igreja bateu em três badaladas e eu me virei. Meia noite.

Não sei o que aconteceu, mas, como num mar de fumaça, sumi dali. Aquele momento tinha acabado e eu estava no hospital novamente, para ser mais exata, no quarto. Toquei em um objeto e atravessou. Voltei a ser alma penada. Não sei dizer o que ocorreu naquele instante. Mas, uma coisa posso dizer: Foi perfeito!

Fiquei boa parte da noite refletindo, pensando no que havia acontecido. Foi maravilhoso. Mas, o que aconteceu depois? Não tive tempo para me despedir. Será que sumi da frente dele, do nada? Preciso descobrir.

Resumi meu dia. Sete horas da noite eu virei humana em outro corpo, e meia noite virei alma penada de novo. Será que acontecerá isso todos os dias? Terei que descobrir com o tempo. Essa coisa de ser humana por um período seria a nova chance a qual minha tia se referiu?

Berrei, gritei, me descabelei. Odiava não ter respostas, e odiava tê-las somente se eu as conquistasse.

No dia seguinte, acordei me sentindo estranha. Eu estranhei o fato de que não sinto sede nem fome, porém consigo dormir. Mal abri os olhos e vi a coisa mais magnifica que eu poderia ver na minha vida inteira... Ou na minha morte! Vi minha mãe! Ela, chorando tanto, e apertando tanto minha mão. Chorei desconsoladamente. Corri até ela e a abracei. Abracei ela daquele jeito que eu sempre abraçava. Apesar de ser um pouco fria, ela sempre provou que me amava. Sempre cuidou de mim, sempre me amou de todo coração. E depois beijei aquela bochecha rosada dela, que caíam lágrimas e mais lágrimas. Ela estava numa cadeira de rodas.

Minhas lágrimas se transformaram em raiva, ódio, eu não aguentei ver tudo sem poder tocar, sorrir, viver! Me joguei em cima da cama, em cima do meu corpo, e gritei, chorei.

"Eu vou voltar agora!" — Ordenei para o nada. — "Eu quero, e eu vou!" — Eu dizia, chorando muito.

"Me devolva aos meus pais!" — Implorei! Nada aconteceu, exceto pelo fato de Brad entrar no quarto. Sentei na cama e olhei a Ravena em coma. Eu não merecia estar ali.

Brad e minha mãe conversaram muito e sobre tudo. Ele tentou consolá-la, o que que achei muito simpático da parte dele. De repente, ela suspirou e seu pescoço pendeu. Ela desmaiou.

Brad correu pedir ajuda, enquanto eu tentei reanimá-la. Claro que não tinha como, mas gritei palavras de superação, chorei ao lado dela. E andei ao lado dela quando dois médicos apareceram para leva-la para um quarto de recuperação. Eu acompanhei o processo, fizeram várias tentativas até que por fim ela voltou a respirar, porém entubada.

Naquela tarde, e já de volta ao meu quarto, recebi outra visita. Todo o pessoal do coral da igreja estava sobre minha cama, cantando tristes louvores. O padre leu um verso da bíblia enquanto todos choravam. Beth, Filomena, Daiane, Nathalia, Hugo, Fernando, Adrian, e todos os outros. Eles nunca se comunicavam comigo frequentemente, então pensei “por que estão chorando?”

Pois é, as pessoas só reconhecem o valor de outras depois que essas outras não integram mais a sociedade. Depois que essa outra não pode mostrar sozinha seu próprio valor. Quando deu sete horas, eu já sabia o que iria acontecer. Me preparei, e logo já estava no banheiro. Não pigarreei, apenas saí às pressas.

Trombei com Brad no corredor, e, pelo que vi, toda minha turma do colégio estava chegando para uma visita. Quanta ironia, quanta hipocrisia. Zombam, me taxam na testa como a excluída, riem de mim pelas costas, e depois aparecem desconsolados.

Quando Brad me viu, sorriu ligeiramente. Eu fechei a cara para ele, que estranhou. Amber e Anna estavam sérias, sem nenhum tipo de emoção ou comoção. Mas, também, não me importo com elas a ponto de me preocupar se estão ou não sentindo minha falta – o que, é óbvio, não estão. Depois que toda a turma, de dois em dois, entrou no meu quarto, Brad saiu e me encontrou no corredor. Claro, fiquei parada esperando todos irem embora. E, também, eu não tinha para onde ir.

– Caramba, é aqui que está internada a menina? – perguntei, com um lindo tom de não sei o que está acontecendo.

– Sim! — ele respondeu triste. Reparei que ele estava de óculos de sol, e assimilei que tinha chorado muito.

– Me desculpa por ontem, eu estava bêbado. – ele soltou.

– Se é assim que prefere se justificar, acho que te desculpo. – falei. E ele me encarou.

– Lisa, eu preciso me distrair, sabe? Preciso esfriar a cabeça, esquecer que isso aconteceu por um tempo, por que senão esses problemas só vão me assolar e me deixar cada vez mais para baixo. – e ele pausou para pegar um ar, mas não retomou.

– Entendo! – foi só o que consegui dizer, e, realmente, entendia.

– A gente estava se conhecendo – ele recomeçou, e percebi que iria falar de mim, quer dizer, da Ravena em coma. – e a gente estava se gostando. Eu curtia muito ela, e acho que era um sentimento reciproco, sabe, eu sentia isso. E eu não tive tempo de me desculpar, não tive tempo de dizer o quanto eu estava gostando dela. – ele abaixou a cabeça e passou a mão por debaixo dos óculos, para enxugar as lágrimas.

Virei-me, pois não queria mostrar minhas emoções. E eu estava chorando como ele.

– Poxa, Lisa, como você se emociona fácil com histórias tristes. – ele falou, e meio que deu uma risada.

– As histórias de amor, você quer dizer. – falei. – E esse amor todo que você tem pela Ravena, você precisa curá-lo. – eu estava dizendo para ele me esquecer, melhor, esquecer a Ravena. Por que eu estava dizendo aquilo? – o amor é uma cicatriz, Brad, e você precisa deixá-lo cicatrizado. Se você deixar abrir, vai doer, e vai ser ainda mais difícil cicatrizar.

Eu ainda estava de costas para ele, pegando aquele ar para não chorar ainda mais.

Foi quando senti a mão dele em meu ombro, então coloquei a palma da minha mão na costa da mão dele.

– Você tem toda razão. – ele afirmou. – Vamos sair comigo, se distrair comigo, eu preciso de companhias que me fazem bem... e você está me fazendo muito bem. Até por que, depois de tudo isso, depois dessa ferida no meu coração, e pelo amor que sentia pela Rav...

– Eu topo. – concordei. – Não quero minimizar a Ravena, tampouco descarta-la. Mas, mude de assunto pelo menos uma vez, senão não vai conseguir esfriar sua cabeça.

Ele fez mais do que falar, ele agiu. Me abraçou por trás, e recostou a cabeça dele em meu ombro.

– Obrigado! – agradeceu. – Amanhã, Le Coffee, sete e meia?

Eu queria sentir mais aquele abraço, e não responde-lo. Mas ele me fez um convite.

– Com certeza! – respondi.

– Eu te pego na sua casa. Onde você mora? — ele perguntou meio esperançoso.

Minha garganta secou, o estoque de salivas esgotou, e eu senti um leve frio na barriga. Sinceramente, não sabia o que dizer. Onde eu moro? E ele ali, me olhando. Eu já estava de frente para ele, mergulhando nos lindos olhos cor de mar.

– Vamos fazer assim, me encontra aqui na frente do hospital. – falei.

Ele riu.

– Na frente do hospital? Por que diabos você estaria esperando um cara te buscar para um encontro na frente de um hospital?

– Encontro? – perguntei. Brad corou, e sua bochecha foi ficando cada vez mais vermelha. E ele riu de novo, mas, dessa vez, sem graça. – Tá, esqueço o que disse se esquecer que deve me encontrar na frente do hospital.

– E devo te encontrar onde então?

– Na frente do hospital, ué. – ri. – Mas, sem piadas sobre estar na frente do hospital esperando você.

– Fechado! – ele riu. Então bati os olhos no meu quarto. Já não tinha mais ninguém, todos os alunos deviam estar cambaleando por aí, ou no refeitório do hospital, ou, em caso mais extremos, ido embora. Mas, uma coisa me atiçou. Onde estava Jenni?

Fiquei olhando para todos os lados, enquanto Brad tinha atenção ao celular.

Se toda minha sala veio, então cadê a principal? Cadê minha melhor amiga?!

– Onde você está, mocinha? Se eu não te achar, te mato, senhorita Jennifer Galego– sussurrei para mim mesma. Pelo visto, pensei alto demais.

– Oi? Você conhece a Jenni? — perguntou Brad. Fiquei sem saída.

– Ahn... Na verdade... você deve estar se confundindo. Conheço uma Jennifer, mas não deve ser a mesma a qual se refere. — tentei mentir.

– Qual é, Lisa, você disse Jennifer Galego. — ele retrucou. – E, assimilando que toda a turma da Ravena veio vê-la, e, por coincidência nessa turma tem uma Jennifer Galego, então imagino que seja a mesma a qual me refiro.

– É... Pois é, conheço sim. — me precipitei. Fiquei acanhada, até ele me deslanchar de vez.

– Já imaginava! — ele exclamou. – Mas, ela veio sim, vou chamar ela pra você.

– Não! – segurei o braço dele. – não precisa, sério. Eu falo com ela depois.

– Imagina, Lisa. Sem esse negócio de timidez, eu chamo ela pra...

– Não – intervi de novo. – ela deve estar ocupada.

– Ela precisa acalmar os ânimos – ele falou. Meu Deus, como ele é insistente. — só um instante.

E então ele entrou no meu quarto. Então é por isso que não a vi. Deve ter sido uma das primeiras a entrar no meu quarto, e, como minha melhor amiga, estava lá até agora. Porém, se Brad chamasse ela eu não teria saída. Ela nunca viu meu rosto, vai dizer que não me conhece, e então eu ficarei em maus lençóis com Brad. Quer dizer, ficarei com certa fama de mentirosa, coisa que no momento eu não preciso.

Olhei tensa para os dois lados, até para cima e para baixo, e pensei em sair correndo e abandonar tudo ali. Mas, não deu tempo nem de pensar em agir, já que quando dei um passo vi Brad e Jenni saindo do quarto. Eles conversavam. Brad me avistou e apontou para mim, todo risonho. Jenni estava com uma cara péssima, e fez uma cara duvidosa.

– Essa é a Jenni que você disse que conhecia, não é, Lisa? – ele falou, todo alegre, já que pensou que estaria fazendo um reencontro de amigas. Mas não. – Qual é, meninas, timidez agora? Se abracem, eu já sei que são amigas.

– Não é timidez, Brad – disse Jenni. Em sua voz tinha espanto, e em minha face tinha mais espanto ainda. Meu coração pulou, acelerou. – É só que eu nunca vi essa menina na minha vida.

Brad cerrou as sobrancelhas e me encarou.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Próximo capítulo será curto, apenas uma passagem de Brad e Lisa (Ravena). Obg gente!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.