Rascunhos de gaveta

1 Ilusões segmentadas


Tarefa dantesca a que impora a si mesmo. Como lutar com tal criatura bestial, gigante e horrenda? O castelo era o monstro, em suas dezenas de metros, suas estruturas rochosas e sua base em forma de reptil, lembrando uma tartaruga colossal.

Era apenas um homem contra uma estrutura inteira. Talvez se tivesse um exército... e mesmo assim, uma estrutura sólida impenetrável contra espadas e setas de aço o deixava em uma situação desesperançosa.

A presença da besta era aterradora. Em sua volta, sob terra árida e praticamente infertil, haviam vários camponeses trabalhando contentados com suas batatas mirradas. Os mais próximos da besta tinham o privilégio de um solo mais irrigado, pois da água que absorvia, um pouco ainda era excretada.

A visão mais nauseante era a dos poucos transeuntes que conseguia observar pelos parapeitos do castelo monstro, formas que lembravam humanos, todos distorcidos, com espamos esporádicos que lembravam risadas. Comendo e fartando-se, jogando pedaços e pedaços de carne apenas mordiscadas pelos ventos. E a carne se tornava podre pela sáliva venenosa.

Era possível também ver os brilhos dos adornos nas roupas e acessórios que os seres contorcidos utilizavam. O grande problema dessa visão não era a vestimenta em si, mas a cena perturbadora de ver um aglomerado dessas criaturas absorver a essência vital dos camponeses transformando-os em pérolas e cristais para adorno... um palácio de almas torturadas...

Ao passar pelas vilas mais periféricas ouvia os diálogos dos camponeses e se espantava:

– Como são bondosos esses senhores. Nos deram seu próprio esterco como adubo para nossas batatas.

– Sim, e até nos deram algumas espadas para nos cortarmos em nossos jogos, e comermos os membros decepados quando tudo acabar.

– Bom é que se dermos nossas melhores batatas pra eles, uma vez por mês ganhamos de seus adornos belissimos. Viu a Julieta? Os melhores produtores de batata a têm presenteado, como é linda aquela moça.

– Mas você viu o Bartolomeu? Que homem esganado, comeu todas as 5 batatas que produziu, aquele guloso, agora está passando fome, bem que mereceu! Por isso nunca ganha uma jóia.

Sem aguentar continuar por ali, o aventureiro prossegue sua jornada rumo ao centro daquela civilização.

Um tanto afastado da periferia, era possível ver um acumulo maior de batatas. E em troca de umas batatas extras, e ocasionalmente uma ou outra jóia, alguns moradores dos cantos mais periféricos aceitavam gastar uma parte extra de seu tempo plantando para seus companheiros.

As conversas por ali mudavam um pouco de rumo:

– Plantar batata todo dia para dar mais da metade àqueles bochechudos bunda moles. Ainda bem que metade das minhas batatas são plantadas pelo João da periferia sul, assim só tenho que entregar o proporcional da outra metade praqueles patifes. E o João ainda acha que tá valendo a pena plantar pra mim. Pobre tolo, que continue com aqueles jogos de degladiação pra não morrer de estresse. Haha!

Outros ainda diziam:

– Temos que acabar com essa política das batatas! É um absurdo! Vamos começar a plantar abóboras!

Em outros cantos ainda era possível ver um aglomerado de pessoas planejando:

– Temos que começar uma revolução. Vamos usar todas as nossas batatas para comprar todos os adornos dos monstrengos. Assim eles não vão mais conseguir dominar as periferias.

E uma multidão exaltava e aplaudia:

– Ééé??!! Isso aí! Uhul!

Uns poucos ainda diziam:

– Vamos usar todas as nossas batatas pra fazer espadas e canhões de batatas e invadir!

Farto daquilo, o aventureiro parou de olhar em volta e prosseguiu.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.