Rarigask: A ascensão de Kahtar

2 Capítulo II - Um encontro incomum


Delsphien era uma região que abrigava um planalto principal, uma floresta abaixo dele e um conjunto de montanhas colossais quase o rodeando completamente. As montanhas eram tão enormes que mesmo não estando dentro da união dos continentes principais, e sim em uma ilha separada por um mar extenso, eram visíveis no horizonte das terras do norte e oeste, chegando quase a serem vistas pelos países centrais. Um pouco além de suas metades, havia um gigantesco agrupamento de nuvens fixas, ou seja, todas as montanhas, da metade pro pico eram ocultadas eternamente por elas. Ninguém sabia o que havia lá em cima. O máximo que alguém poderia fazer para chegar perto das Montanhas Titãs de Delsphien — Apelido dado a elas — era visitar o Planalto dos Drakkasons. Uma cidade gigantesca localizada no alto do planalto principal. Essa cidade se estendia até o começo das montanhas e haviam várias escadas que possibilitavam uma escalada para o pico de qualquer Montanha Titã, porém o acesso a elas era completamente restrito. A cidade além de protegida por sua considerável altura do chão, ainda contava com a ótima localização afastada dos continentes principais de Rarigask. O que separava o grande aglomerado de continentes da ilha em que Delsphien estava inserida, era apenas o Mar de Hidras. Um mar, cujo o nome já explica bem o que vai tentar te matar caso queira cruzá-lo. Delsphien viria a ser a cidade mais isolada do mundo, mas felizmente na ilha há mais um país: Falsyrk.

Falsyrk é basicamente o nome dado a Árvore Mãe, uma árvore colossal. Enquanto Delsphien tinha as maiores montanhas do mundo, Falsyrk possuía a primeira árvore desde a criação. Ela mantinha todo o equilíbrio natural. Era tão pura que da sua seiva eram feitos os melhores remédios, suas folhas eram a fonte de magia mais poderosa e suas raízes se comidas, davam mais energia do que a mais revigorante das porções. O que permitia a perfeita convivência entre os habitantes de Falsyrk e os de Delsphien era o fato de que Falsyrk era habitada por faunos, conhecidos por serem isolados do mundo, não almejavam lutas, conquistas e muito menos o ouro. Todo e qualquer fauno só quer uma coisa: Cuidar da Árvore Mãe. Nenhum deles jamais deixava seu lar, muito menos viajava para outro país. Isso permitia que os drakkasons de Delsphien nunca fossem incomodados. ''O convívio'' perfeito entre dois povos afastados do mundo.

A única diferença de Falsyrk para Delsphien, era que no caso, o povo drakkason costumava sair de seu lar. Drakkasons viviam juntos até a hora em que eram selecionados para irem à união de continentes, isso ocorria quando eles ainda eram bem jovens. A missão de cada um variava, mas sempre era em busca de um aprendizado pessoal no geral, o que poderia durar décadas. Se um drakkason tivesse pouco amor em sua vida, por exemplo, ele teria que viajar em busca de entender esse sentimento, observando e estudando as outras espécies. Diferente dos faunos, os drakkasons queriam ser inclusos na sociedade, porém a repulsa pela espécie era grande graças a infâmia de serem criados pelos deuses no intuito de punir elfos e dragões — as raças que mais se odeiam. Não se sabia ao certo o que de fato um drakkason era. A opinião mais aceita era a de que foram elfos punidos pela arrogância e avareza. Mas uma coisa era certa, eles eram suspeitos, pois além da origem desconhecida, o próprio lar deles escondia algo por trás de suas inúmeras placas de restrição.

–Sua arrogância! Quantas vezes mais eu terei que lhe falar isso?- Essa voz julgadora pertencia a Hashmirt, o grande líder dos Representantes de Delsphien. Ele aparentava os 30 e poucos anos, mas na verdade tinha no mínimo uma idade de cinco dígitos. Ele rodeava um grupo de drakkasons que iriam partir em busca de seus objetivos pessoais, e não estava nem um pouco satisfeito de ter que lidar com a drakkason em sua frente.
–Eu não sou arrogante, senhor...Por que me acusa disso?- Falou a dita cuja. Ela era baixa, na verdade bem mais do que o normal para uma criança de 6 anos. Seu cabelo era preto e ondulado e batia um pouco acima da metade de suas costas. Sua pele era extremamente clara. Os olhos eram de uma cor turquesa forte, com as pupilas que lembravam bem uma cruz de braços bem mais curtos, quase inexistentes. A região ao redor de seus olhos possuía a mesma tatuagem tribal de Cassiano, porém era um turquesa tão escuro, que sem uma luz batendo nela, parecia simplesmente preta. Os chifres desciam dos lados de sua cabeça e se curvavam um pouco para frente, as pontas chegando no nível de seu queixo. O chifre direito possuía um anel de prata quase na sua base.
–Porque mesmo depois de dois julgamentos de personalidade você continua achando que pode continuar aqui simplesmente porque quer.
–Então posso passar mais uma semana aqui? Nem que seja limpando seus chifres...- Ela disse com o olhar irônico, acompanhado de um sorrisinho desrespeitoso.
–Você é quase um caso perdido...Mas eu não irei desistir de você, Aurazirk. Quando aprender a conviver com alguém além dos seus irmãos, poderá voltar.- Finalizou Hashmirt, já andando para os próximos drakkasons.- Harknah e Harkiras...É uma pena mandá-los para longe de nossa cidade. São os dois drakkasons mais comportados que já vi, em contraste terrível com a sua irmã...- Ele disse, dando uma leve indicada com a cabeça na direção de Aurazirk.- Mas apesar de toda a alegria que a companhia dos dois traz, vejo um vazio em seus corações. Os dois vivem muito uma vida única, quando deveriam se separar mais, serem singulares, conseguir cada um seguir a sua própria estrada. Só porque vieram da mesma estrela, não significa que a sina de ambos deve ser a mesma.
–Compreendemos perfeitamente...- Falou Harknah por entre um sorriso amigável. Ele, assim como o irmão gêmeo, tinha a pele albina, superando a clareza da irmã. Os olhos puxados, lembravam bem a feição de um habitante de Nagahi, eram prateados e as pupilas eram redondas e grades. Ao redor dos olhos havia a marca tribal, na cor prateada, que quando iluminada, chegava a brilhar. O cabelo de ambos era cinza claro e batia na altura dos quadris. Apesar da cor, eles eram bem jovens, tinham 10 anos, 4 anos mais velhos que Aurasirk. E o mais assustador era a altura deles. Ambos eram gigantes, quase da altura que Hashmit. Cada um possuía um par de galhadas pequenas e amarronzadas.

–Vê? Você já responde pelo seu irmão e vice versa.
–Perdão...- Os dois falaram em uníssono, ambos abaixando a cabeça na exata mesma altura, com as mesmas expressões e os mesmos tons de voz, o que fez Hashmirt gargalhar.
–Será uma pena mesmo enviar os dois...-Ele disse, já desfazendo totalmente o sorriso e a postura divertida, ficando sério e rígido outra vez.- Mas é preciso. Vocês se tornarão pessoas melhores com isso.- Finalizou, já indo avaliar os outros drakkasons.

Após uma última despedida, os jovens drakkasons partiram, levando consigo a regra de ouro, a regra seguida por todo drakkason existente ''Nunca se exponha'', dada não só pelo líder, mas também por todos os adultos em seus caminhos para a saída. Ao finalmente deixarem o enorme planalto em que habitavam, os portões para a cidade foram fechados. O som que seus gigantescos blocos de ferro faziam ao colidir, somados ao som metálico das travas sendo ativadas, simbolizava o fim daquela vida fácil e divertida nos pátios de Delsphien, onde as crianças eram mimadas e bem cuidadas por todos os adultos do local. Não haviam pais e mães em si, o máximo que um drakkason tinha era um irmão ou primo. Isso era determinado pela origem de seu nascimento e a forma como chegavam ao planalto, o que ninguém no mundo além deles mesmos sabiam.

–Venham, eu sei para onde devemos ir.- Disse Aurazirk, tomando a frente dos irmãos, porém logo foi puxada por um deles para o meio entre os dois.
–Mais devagar, Aura...Você pode se ferir caso caia. Por favor, fique junta de nós...Não queremos ver você machucada.- Falou Harkiras, a sua expressão preocupada era adorável. Além de convencer Aura, ainda contava com força dupla graças a Harknah que a imitava perfeitamente, aumentando o ar de preocupação ao redor deles.
–Certo...Certo...Mas o que vocês têm em mente? Vamos nadar o Mar de Hidras inteiro até o continente?
–Vamos atrás de uma embarcação. Os adultos sempre colocam várias no final dessa estrada.- Respondeu algum dos dois, mas Aurazirk não os encarava no momento, e sim a floresta logo abaixo do pequeno penhasco em que estavam, e sem sequer ligar para a direção do som em meio às distrações, poderia ser qualquer um falando, e ironicamente não fazia diferença.
–Mas algum de vocês sabe navegar?
–Bem...Podemos tentar. Eles já devem ter facilitado isso para nós. Não nos deixariam a mercê de um mar perigoso.- Respondeu Harknah. Aurazirk só teve noção que era ele por tê-lo encarado no último segundo em que sua boca se movia. Ele sempre andava à direita dela para não confundi-la. Os dois prometeram sempre mantê-la no meio para que toda conversa chegasse a seus ouvidos, pois quando juntos, os gêmeos costumavam criar uma ''bolha'' na hora de se comunicar, impedindo assuntos com outras pessoas ao redor. Manter a irmã no meio, permitia que ela se tornasse parte das conversas ou simplesmente da energia ali presente.

***

Após uma longa caminhada, os três irmãos já estavam exaustos. Logo iria escurecer e não havia sinal algum de barcos ou até mesmo do mar. Os pés dos gêmeos doíam, ao contrário dos de Aurazirk, pois ao contrário deles, ela andava de quatro, o que era considerado falta de educação, apesar do fato que os pés dos drakkason tinham esse formato estranho justamente para isso: Aumentar a agilidade. Correr e escalar eram duas atividades que a espécie dominava com maestria, possuindo uma aptidão felina. Porém era considerado extremamente errado fazer isso em público, pois os drakkasons almejavam ao máximo a aproximação do normal. Correr e escalar como animais selvagens não contribuía muito nesse objetivo. No entanto, sem ninguém ao redor para jugá-los, Aurazirk se aproveitou do momento. Estava exausta, mas seus pés não doíam tanto quanto os dos irmãos.
–Por que não se expõe, logo?- Falou Harkiras, rindo levemente.- Pelo menos iríamos para o continente mais rápido.
–Se eu pudesse...- Aurazirk suspirou, se levantando. — Algum sinal de alguma coisa?
–Bem...Acho que estamos perto do mar, mas eu não sei ao certo. Sinto o cheiro dele mas sequer o enxergo no horizonte...- Disse Harkiras, enquanto analisava o local. Uma floresta escura que parecia sem saída. Todas as árvores pareciam as mesmas e não importava o quanto andassem, todos os caminhos pareciam repetidos. Aurazirk olhou ao redor e se deparou com algo que a enfureceu na hora.
–A pedra com formato de coelho! Já é a quarta vez que passamos por ela!
Os gêmeos se entreolharam, ambos com a expressão de desgosto.
–Podemos tentar ir pela direita...- Sugeriu Harknah, timidamente.
O grupo então seguiu pela direção sugerida.
–Por que eles não nos permitem mostrar nossos talentos?- Perguntou Aurazirk enquanto caminhava chutando algumas pedrinhas soltas na estrada sem fim.- Somos tão esquisitos assim?
Harkiras olhou diretamente para a irmã por uns segundos, procurando a resposta mais adequada e fazendo uma careta pensativa bem esquisita durante o processo.
–Ahh...Bem...Digamos que...Nós somos meio que os antagonistas nos livros sagrados das raças solares.
–Então pra quê fingir ser algo que não somos? Para um bando de gente que nos odeia nos odiar menos?
–Sim.- Harknah, respondeu simplesmente.
Aurazirk fez uma careta de desgosto, iria falar algo mas se interrompeu. Após uma longa pausa, ela concluiu:
–Isso não é justo.
–Sim...Mas se a nossa raça quiser se tornar parte do mundo, teremos que nos privar da nosso maior talento.- Falou Harkiras, por fim.

Após alguns longos minutos de caminhada, Aurazirk freou novamente, rosnando. Os gêmeos já iriam perguntar o que estava acontecendo, mas nem precisaram, pois com um leve olhar para direita, era possível enxergar uma pedra com um formato semelhante ao de um coelho.
–Estamos perdidos...- Disse Harkiras, sendo interrompido no mesmo segundo.
–Deixem eu fazer logo de uma vez! Não vou precisar me expor!- Rosnou, Aurazirk.
Mais uma vez os gêmeos trocaram os olhares.
–Certo, pode...- Seja lá qual fosse o irmão que havia falado isso, logo foi interrompido. Aurazirk só precisou da palavra ''certo'' para já ir pulando em uma árvore alta, escalando ela com uma velocidade absurda, suas garras, agora expostas, dobraram essa velocidade, e em poucos segundos, ela já estava no galho mais alto. Então finalmente ela pôde visualizar...Nada além de mais inúmeras árvores iguais àquela, até as nuvens pareciam as mesmas. Deu pra ouvir o praguejar da garota até do alto das Montanhas Titãs. Quando o rápido ataque histérico acabou, ela simplesmente saltou pro chão. As pernas da espécie absorviam impacto de modo impressionante, não foi diferente com Aurazirk.
–Nada além de árvores idiotas! Tudo nessa porcaria tem que ter a mesma forma?! Até meus acompanhantes vieram repetidos!- Ela disse, olhando de um para o outro repetidamente.
Os dois irmãos reviraram os olhos, sincronizados e com um suspiro, Harknah falou:
–Vamos sair dessa. Só precisamos de alguém que saiba como andar por aqui.
–Ideia brilhante, não sabemos nem aonde nós mesmos estamos!
–Não seja tão negativa...- Falou Harkiras, balançando a cabeça.
–Eu só que ria ir pra casa! O que a gente fez de tão ruim para eles nos expulsarem?- Aurazirk abaixou a cabeça, controlando ao máximo o choro.
Harkiras alisou o cabelo da irmã, acalmando ela com algumas palavras gentis. Enquanto cuidava disso, Harknah avançou um pouco para dentro de uns arbustos, sozinho. Após olhar bem ao redor e não notar uma singularidade sequer no cenário, ele decidiu que não era possível confiar em seus olhos, então os fechou, se concentrando apenas nos sons que a floresta emanava. Foi como se um outro mundo surgisse, estendendo-se até onde sua aguçada audição alcançava. Formado apenas de sons, porém eles se mexiam, respiravam, falavam, enfim, estavam vivos e Harknah encontrava uma forma de estudá-los: Insetos cantando, a brisa batendo na grama, o farfalhar das folhas, o ranger dos galhos fracos ao balançarem, os cochichos dos seus irmãos conversando e finalmente o som de cascos. Sim, cascos pisoteando a grama. Mas o mais estranho era a frequência deles, sons únicos que se repetiam no mesmo tempo de passos humanoides.
–Encontrei algo! — Harkiras e Aurazirk no mesmo segundo levantaram a cabeça, olhando na direção da voz de Harknah. Os dois começaram a correr na direção do irmão.- Venham logo!
–Espera! Espera! — Falou Harkiras enquanto chegava no local, ofegando e já indo pro lado esquerdo do irmão, deixando o espaço no meio para Aurazirk.
–Estão ouvindo? Talvez seja um cavalo...- Harknah sorriu ao falar, ele se orgulhava muito de sua boa audição.- Mas os passos são o que me confunde...Cavalos não são bípedes.
–Pode ser um fauno.- Respondeu...Alguém.
Os três irmãos pararam pra pensar na sugestão, mas ao se tocar que aquela voz não pertencia a nenhum deles, todos olharam sincronizadamente para esquerda. O que eles viram foi o próprio fauno, parado ali ao lado deles, também procurando com os olhos por algo por entre as árvores. Ele era bem adulto, aparentava os 33 anos. Suas pernas de bode ficavam expostas, diferente dos drakkasons, os faunos não precisavam vestir calças pois o pêlo grosso já cuidava de cobrir tudo. Na frente do torso eles nasciam um pouco abaixo de seus umbigos, aos lados do corpo eles já alcançavam a região das costelas, e nas costas eles cresciam por cima de toda a coluna. No topo de suas cabeças haviam chifres de bodes e suas orelhas também eram idênticas às do animal. Aquele fauno em especial tinha o cabelo castanho escuro extremamente bem penteado, partido para o lado esquerdo, era volumoso graças as suas várias ondas, e o que mais chamava a atenção eram as suas costeletas, grossas e repicadas, elas o deixavam com um ar de homem nobre. Seu pêlo era acinzentado, com manchas castanhas quase pretas. Na sua coluna eles começavam a ficar cada vez mais escuros, até finalmente adquirirem a cor castanha escura de seu cabelo. Ele os olhou de volta, sorrindo simpaticamente.
–Vocês se perderam, né?
–Não...-Antes que pudesse terminar de falar Aurazirk foi impedida por Harkiras.
–Sim! Por favor nos ajude!- Ele implorou.
O fauno riu da expressão suplicante do garoto.
–Estava acompanhando os três já faz uns segundinhos...E estão andando em círculos, sabiam?
–Sim, sabíamos. Tem uma maldita pedra com forma de coelho aparecendo direto no nosso caminho. Já passamos várias vezes por ela.- Respondeu apressadamente Aurazirk para não ser interrompida.
–As pedras de caça?! — O fauno não se segurou e começou a rir avidamente. A única coisa que os drakkasons poderiam fazer era esperar o homenzinho risonho voltar ao normal. — Vem cá, vocês sabem que elas significam ''área de caça'', né? Estão espalhadas pela estrada toda.
Os três irmãos balançaram a cabeça, ainda com os olhos arregalados pelo trauma que a risada daquele fauno havia causado. Ele ficou sério no mesmo momento em que notou isso.
–Uh...Sério que não sabem? Desculpa por rir, então...
–Isso não tem importância agora...O importante é que senhor é praticamente a natureza encarnada...Então poderia nos ajudar a chegar ao aglomerado de continentes? — Falou Harkiras, apressadamente.
–Era para onde eu estava indo.
Os três ficaram chocados, um fauno viajante era tão comum quanto um arqueiro cego de nascença.
–Falei algo erra...-
–Você é um fauno.- Aurazirk interrompeu.
–Bem observado...-
–O que tá fazendo fora da sua árvore? — Ela interrompeu novamente.
Tampando a boca dela, o fauno respondeu:
–Sou um enviado, ta bom? Simplesmente me mandaram viajar pelos continentes atrás de algo secreto.
Aurazirk estava cheia de perguntas a fazer, mas com a boca tampada só era possível ouvir uma rajada de sons abafados. Prontamente, Harknah falou:
–Bem, então podemos ir com o senhor?
–Claro! — Ele disse, retirando a mão da boca de Aurazirk — Faremos uma troca, guio vocês por todas as florestas enquanto vocês me oferecem proteção no Mar de Hidras, certo?
Os três estranharam a pergunta, deixaram isso claro pela forma que se entreolharam.
–Não se preocupem com isso. A única coisa que irão fazer é apenas olhar para o mar de tempo em tempo, para que elas vejam os seus rostos.
Os garotos não tinham o que contestar, afinal, quem tinha mais idade ali era ele. Apenas assentiram e começaram a seguir o fauno quando este começou a andar.

***

A viagem durou cerca de duas horas. O fauno conseguiu encontrar diversos atalhos que iam de túneis a abismos ocultos. Era simplesmente inacreditável a forma que ele conseguia encontrar sinais no cenário que não fossem árvores e pedras de coelhos, e ao segui-los, mudar totalmente a paisagem em que eles estavam. Todo o curso se tornou muito menos maçante, e para melhorar a situação, o fauno se revelou um ótimo bardo, cantando durante toda a viagem. Sua voz era simplesmente angelical e todas as suas canções tinham letras inspiradoras. Aventuras épicas eram contadas, as histórias de todas as guerras viravam música em sua boca e as narrações tinham tanta qualidade que houve certa suspeita por parte dos irmãos pois geralmente um fauno só se familiariza com assuntos que retratem a natureza e os animais, ou seja, suas músicas eram sempre tranquilas.
–Sintam só esse cheiro...- O fauno sorriu, já puxando bem o ar da praia para dentro de seus pulmões. — É o cheiro do desconhecido nos aguardando.
–De desconhecido já basta você...- Mais uma vez Aurazirk teve a boca tampada, dessa vez por Harkiras.
–Shh! Não vamos ofendê-lo. Não agora, tá bom?
Aurazirk puxou a mão do irmão, se libertando para falar à vontade.
–Como vamos saber se esse doido não vai nos jogar no mar?
–O doido aqui tem boa audição, sabia? — Falou o fauno, já procurando por uma embarcação.
Então Aurazirk sibilou, zangada:
–Como vamos saber se esse doido vai nos ajudar?
–Não saberemos. Mas é melhor confiarmos nele do que encararmos todo o percusso sozinhos. Outra, se tentarem nos matar, temos a permissão de nos expor. — Respondeu Harkiras, baixinho de modo que nem Harknah com sua exímia audição ouviria.
–Venham, crianças! Achei um barco! — Gritou, o fauno, já ao lado do que parecia um drakkar com espaço para 5 homens. — Mas tem um pequeno problema...
–Qual? — Perguntou Harknah. Os três já estavam se reagrupando perto do barco.
–Essa banheira não tem remo nem vela. Imagino que isso seja ruim.
–Normal. Esses barcos foram feitos para justamente nos levar para o aglomerado.
Harknah estudou bem a estrutura do drakkar, haviam pequenas inscrições na sua amurada. Estavam na língua drakkasiana. Falavam de um espírito guia dos drakkasons que habitava o mar. Com um sorriso estampado no rosto, ele se voltou para o fauno:
–Esse barco não precisa de controles. É só entrar e pronto.
–Se a vida toda fosse fácil assim...

Ao entrarem no drakkar, como se já estivesse programado, ele seguiu seu curso. Parecia seguir um caminho pré-programado.

–''Drakkar''...''Drakkasons''...Posso comentar a irônica semelhança? — O fauno falou, quebrando o silêncio monótono.
–Por favor, não. — Respondeu Harknah.
–Então tá, desculpa... — Ele falou, desviando o olhar.
O silêncio sequer durou mais cinco minutos.
–Farracolt Sansariel.
Os três garotos olharam para o fauno, questionativos.
–E o nome de vocês?
– Aurazirk.
– Harknah — Ele havia falado no exato mesmo segundo que o irmão, interrompendo o nome dele por estar mais próximo de Farracolt.
– Espera, espera, espera...Qual o nome do outro?
– Harkiras. — Respondeu, dessa vez sendo ouvido graças ao silêncio concedido.
– ''Harkiras''...''Harknah''...Posso comentar a irônica semelhança?
Os três garotos reviraram os olhos, passando a se concentrar na água.
–Vocês são as três crianças mais idosas que eu já vi. Por que são tão...Uh...Chatos? Ninguém brinca lá em cima?
–Não brincamos das mesmas besteiras que vocês. — Aurazirk respondeu, já recebendo os dois olhares reprovadores dos irmãos.
–Ignore ela. É uma arrogante. — Falou Harkiras.
–Vamos ver como ela vai se comportar diante dos desafios reais. — Falou Farracolt. — Vocês dois também.
–Nós dois? — Os gêmeos perguntaram em uníssono.
–Não sei nem dizer quem é quem. Vocês são muito...Uh...Iguais. E não falo só fisicamente. Dependem muito um do outro...Falam da mesma forma, se comportam da mesma forma, estão me encarando da mesma forma e devem até pensar a mesma coisa, como ''quem esse cara pensa que é e do que ele está falando?''
Os gêmeos se entreolharam, confusos.
–E essa troca misteriosa de olhares confirma exatamente esse pensamento. Já experimentaram pelo menos usarem roupas diferentes ou cada um ter seu próprio estilo de cabelo?
–Nós vamos mudar...É questão de tempo. — Respondeu Harkiras.
–Já responde pelo seu irmão?
Os dois já iriam contestar, mas se embolaram nas ideias e ambos desviaram o olhar, preferindo deixar a resposta de lado. Farracolt riu com isso, e riu de modo que chegou a superar a estranheza da primeira risada.
–Vamos enlouquecer antes mesmo de chegar no aglomerado. — Falou Aurazirk, já com a expressão de espanto estampada em seu rosto.
–Que nada...São só alguns dias de viagem. Agora o mais importante: Onde tá a comida? — Falou Farracolt, ainda rindo levemente.
–Acho que é só abrir a tampa do piso. — Deduziu Harkiras, olhando para fendas que formavam um quadrado no chão do barco.
Farracolt já tentou abrir a tampa com voracidade, quase arrancando-a no processo. Assim que divisou o que havia dentro do piso, ele se deparou com uma pilha de carnes cruas, ovos e muitos cantis de couro.
–C-carne quase podre e ovos crus? É isso que seus amorosos guardiões consideraram provisões adequadas às crianças?
Os três garotos olharam entusiasmados para carne crua e os ovos ali. O olhar dos três não mentia, eles viam aquilo ali como um banquete, e dos melhores.
–É. Eu vou morrer de fome. — Afirmou Farracolt, de braços cruzados e cenho franzido.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.