Rarigask: A ascensão de Kahtar
1 Capítulo I - Sem saída
–Corre seu idiota! Se ficar parado ai sua única utilidade vai ser virar churrasco!
Myishi conhecia aquela voz bem até demais, mas seus olhos estavam fixos na destruição, seu corpo havia travado, sua mente mal processava o que estava acontecendo ali, diante dele. O que antes fora uma bela cidade cheia de casas humildes porém bem arrumadas, jardins coloridos, pessoas gentis e muros brancos que abrigavam todos os habitantes contra animais invasores, agora era um cenário
entregue ao caos. Casas queimavam. Corpos formavam tapetes gigantes sobre o gramado acinzentado. Os muros desabavam ao longe. O som das pedras se chocando ecoavam por todo o local, competindo com os gritos de desespero quem traria mais horror aos ouvidos do garoto congelado e dos de seu irmão que o puxava incessantemente, gritando e implorando que ele se movesse. Foi quando todos os sons pareceram desaparecer, pois um rugido estrondoso vindo dos céus se fez ouvir, direcionando toda a atenção para si.
–O dragão está descendo de novo!- Gritou um dos guardas em meio a multidão. Os outros correram para as poucas balistas que sobraram após a primeira rajada de fogo
soltada pelo demônio voador, porém era inútil, o corpo da fera sumia em meio a fumaça e quando visível, passava rápido demais até pros olhos do vigia mais atento.
–Myishi! Você tem que correr! O que você quer parado ai! Anda! — O irmão desesperado
insistia, puxando mais ainda o garoto.
–Pois bem, vou chamar alguém mais forte pra te carregar! — Ele disse, antes de finalmente desistir de puxá-lo e correr para perto de qualquer guarda. Sua corrida não durou muito, pois assim que se distanciou mais um pouco de Myishi, teve que se virar rapidamente, pois mais uma rajada de fogo caiu do céu, acertando um ponto muito próximo do garoto que finalmente pareceu acordar.
''Acordado'' pela dor, Myishi arregalou os olhos e gritou, já correndo pra perto do irmão que agora voltava desesperado. Os dois procuraram o conforto um no outro e se
abraçaram.
–Desculpa, Zaykati! Desculpa!- Ele gritou em meio ao choro.
–Depois a gente resolve isso!- Respondeu o irmão, já puxando Myishi pela mão e correndo. Zaykati era o mais velho, por pouco, mas era, logo o mais responsável e se sentia no papel de cuidar de seu caçula que tinha apenas 6 anos. A vida dos dois já era difícil sem a presença dos pais, e nesse momento mais do que nunca proteger um ao outro era o que importava. Quando começaram a desviar de vários corpos e destroços, Zaykati notou que nas costas de Myishi sua blusa havia sido rasgada e as costas dele agora exibiam uma queimadura grave. Não havia nem tempo de ajudá-lo naquilo, pois correr era a única forma de sair daquele inferno.
Quando os dois já estavam próximo de uma das enormes brechas do muro branco, o pior aconteceu. O dragão pousou poucos metros à frente deles, rugindo para todos os
guardas que tentavam inutilmente abatê-lo. Assim que a fumaça se dispersou, a figura da fera finalmente fora revelada. Um imponente dragão dourado de duas cabeças — o
que era esquisito pois ninguém nunca viu um dragão com essa característica — Ele tinha olhos azuis, duas patas traseiras enormes que tomavam conta de mantê-lo em pé no
muro, duas enormes asas acopladas aos braços e uma cauda longa o suficiente para partir palácios ao meio. Poderia ser comparado a um Narzakri — O atual nome dado aos Wyverns — pela forma física, mas aquelas duas cabeças era a grande diferença. Aquele dragão era único.
Zaykati sabia que aquele era o fim, os dois seriam atingidos em cheio pelo fogo da fera. Ele já tinha abraçado bem o irmão, virando as costas para o dragão, como se seu corpo pudesse servir de escudo humano. Ele sabia que seria inútil, os dois morreriam ali mesmo, mas ele precisava tentar. Após poucos segundos de tensão, o fogo não veio, então Zaykati arriscou olhar para trás. O Dragão estava ocupado incendiando um pequeno exercito que surgiu perto dali, o último esforço dos guardas do local seria surpreender a fera por trás, mas como se surpreende um monstro com duas cabeças?
Esse detalhe eles não haviam previsto, o que resultou num massacre total. Naquele momento os irmãos voltaram a correr, agora para longe da visão da fera, porém, uma das cabeças se virou para os dois e começou a acompanhá-los com o olhar. Ela tinha a expressão calma e levemente alegre.
–Tentar fugir é inútil.- A cabeça falou, sua voz mais lembrava um trovão que aprendeu a falar, não era muito tremida, e mesmo calma era alta o suficiente para ecoar por todo o local. A outra cabeça também voltou o olhar para os dois, ela tinha a expressão impiedosa e insana. Os irmãos agora tinham a atenção completa do dragão, pois eram os dois últimos humanos vivos ali. Finalmente, aceitaram que não havia escapatória e pararam, ficando frente à frente com a fera novamente.
–Vamos pisar neles!- A segunda cabeça insana sugeriu.
–Não...- A primeira cabeça falou, fitando os dois.- Esse vão ficar vivos.
–Vivos?! Mas por que?!- A cabeça insana agora parecia mais raivosa ainda.
O mais calmo olhou no fundo da alma dos dois garotos e falou:
–Vocês dois vão até o castelo imperial de Nagahi em Naka, vão avisar ao seu imperador que eu, Kahtar, irei destruir tudo que Sanlet Kier criou caso os elfos puros continuem com o Ritual do Sol Divino.
Sua voz conseguia atrapalhar até os pensamentos deles, invadindo suas mentes. Mas depois dos segundos tensos em que ela se proliferava nos ouvidos dos irmãos, o
sentido do que fora falado agora era recebido tardiamente. Aquilo soava como outro idioma para Myishi. ''Sanlet Kier'', ''elfos puros'' e ''Ritual do Sol Divino'' eram palavras totalmente desconhecidas, mas não era hora para perguntar o tal significado de cada uma. Zaykati assentiu nervosamente por diversas vezes, com a promessa desesperada de que aquilo seria feito. Satisfeito, ou meio satisfeito no caso, Kahtar levantou voo, empurrando os garotos com tamanha a força da batida de suas asas. Dava para ouvir ainda ao longe os resmungos de uma das cabeças por não ter matado os dois últimos humanos dali.
***
Os irmãos já estavam andando na estrada, sem montarias, demorariam pelo menos 5 dias para chegar no castelo do imperador, para completar, nenhum dos dois trouxe provisões consigo, o que tornava a viagem ainda mais difícil. A ferida de Myishi estava piorando e Zaykate não tinha ideia do que fazer. Os dois só teriam ajuda ao chegar em Naka.
–Vamos ter que arranjar comida o mais depressa possível...- Disse Zaykati enquanto tirava sua pequena faca de caça do estojo. A lâmina cintilava com a luz alaranjada do
sol se pondo.- Você monta um pequeno acampamento aqui enquanto eu tento achar algo pra gente.- E com essa última fala, ele adentrou na floresta, deixando Myishi aparentemente sozinho.
A mente de Myishi estava saturada de informações daquele dia, o garoto ainda carregava os gritos de desespero em sua cabeça. Por que atacar uma humilde vila? Por acaso Kahtar tem medo de enfrentar de frente o imperador? E por que atacar Nagahi? Era um continente famoso por sua paz constante, tão pacífico que todos os seus respectivos países se uniram, concordando em ter um rei para cada e um imperador governando todos, imperador esse que foi justamente o responsável por manter a paz. Esses pensamentos se repetiam, mas não tanto quanto o tal do ''Sanlet Kier''. Quem era Sanlet Kier, e o que eram elfos puros? Ele não conhecia essa raça. Conhecia os elfos de Nagahi, elfos que compartilhavam a mesma característica dos
humanos de Nagahi, olhos bem puxados e cabelos com fios mais grossos que humanos e elfos de outros continentes. Ele próprio era assim, seus olhos puxados eram totalmente pretos de modo que fosse preciso muita luz para dissenir o que era íris e o que era pupila. Seu cabelo negro era meio espetado e volumoso, uma franja caía sobre seus olhos. Em suma, humanos e elfos dividiam o continente, humanos em vilas menores, elfos em vilas maiores. Qualquer um acharia injustiça naquilo, mas havia um porém. Os elfos vivem muito mais do que um humano, assim tendo mais experiencia e mais conhecimento que os mesmos, o acordo entre as duas raças seria que uma manteria a outra. Enquanto elfos cuidavam das partes politicas e militares, humanos cuidavam do fornecimento de comida, armas e ferramentas. Ambos se favoreciam, e a pobreza se tornaria rara em Nagahi. E era assim até...Até aquele momento. Pois agora com os novos eventos aquela notícia com certeza mudaria tudo. Myishi poderia até imaginar...Tropas e mais tropas de elfos marchando rumo uma sangrenta luta contra o implacável Kahtar, ele e seu irmão recebendo carinhos e mimos por terem trazido a notícia crucial, e talvez...Até talvez...Seus pais finalmente voltando para ver os dois ao saberem da noticia, ele sorriu ao imaginar isso, mas os pensamentos sobre um futuro incerto teriam que cessar, pois um grito foi ouvido, um grito que Myishi conhecia bem até demais.
***
–Zaykati! Você tá bem?!- Myishi gritou enquanto andava por entre a mata fechada. Seus olhos se encheram de lágrimas, ele estava apavorado, animais pequenos iam e vinham correndo, entrando e saindo de arbustos, o que nos ouvidos do garoto parecia mais o som de um monstro gigante se aproximando. Ele estava só, pelo menos naquela parte da
floresta. Ao olhar para trás, Myishi já notou que estava perdido, sequer lembrava a direção de onde veio e isso foi suficiente para que ele chorasse de vez. Ele se manteve nesse estado de desespero por não mais que 20 segundos, pois logo em seguida pisou em algo metálico e logo viu...Era a faca de Zaykati, tinha um pouco de sangue nela e nas árvores ao redor haviam vistosos arranhões, houve uma luta ali, e pelo visto Zaykati não foi o vencedor, pois seu corpo estava jogado cruelmente no chão, uma poça de sangue saía dele. Myishi ao se deparar com o irmão daquele jeito, fez de tudo para não gritar, sua boca já estava aberta, o desespero pronto para escapar, mas o garoto o manteve ali, preso, formando um nó sufocante em sua garganta. Ele se abaixou e pegou a faca do irmão, sua mão tremia loucamente, a faca pesava muito mais do que aparentava.
Myishi a segurou com as duas mãos na frente do corpo e caminhou a passos hesitantes até o irmão caído.
–Z-Zaykati...?- Ele choramingou, baixinho, sibilando. -Você tá vivo?- Myishi deu um chute leve em Zaykati, este tossiu pesadamente, o que fez o menino esquecer todas as regras de sutileza diante o perigo e se abaixar desesperadamente pra ver melhor o irmão.
–Se levanta! Por favor!- Myishi choramingou enquanto chacoalhava Zaykati fracamente, as lágrimas escorriam livremente pelas suas bochechas e caíam no peito ensanguentado do irmão que sequer conseguia falar direito e respirava pesadamente, com pausas abruptas. Foi quando Myishi finalmente tomou coragem para ver o peito do irmão: estava completamente avermelhado, o sangue escorria de vários arranhões profundos, e para o desespero maior, a pele ao redor das feridas tomou uma cor negra, a boca dele espumava. Não se tratava de arranhões de um mero felino e sim algo muito pior: algo venenoso. Zaykati olhou fracamente para o irmão que estava mais assustado ainda por ter notado isso. Entre vários suspiros e com muita dificuldade causada pela força que tinha que exercer para expelir cada palavra, falou:
–Corre...- E sem nenhuma pausa entre a última palavra e o que vinha a seguir, ele se contorceu numa última tosse e morreu. Myishi arregalou os olhos, suas pupilas mesmo em plena escuridão ficaram contraídas, ele começou a tremer como se sentisse um extremo frio, queria chorar, na verdade, ele queria gritar até ficar rouco, ser levado por uma onda de desespero e raiva até finalmente tal monstro matá-lo, mas ele só ficou ali, paralisado, sufocado com os próprios desejos, a mente já exausta de tantas situações horríveis simplesmente parou junto aos movimentos do garoto.
Ele estava paralisado novamente, mas dessa vez sem o irmão para puxá-lo para longe do perigo, que estava se aproximando. Dois pontinhos brancos de luz cada vez mais próximos dos dois, sendo acompanhado por um rosnado ascendente. Myishi conseguiu apenas virar os olhos lentamente para a coisa. Tremendo mais ainda. Ele não queria fugir. Afinal, fugir para onde? E o que ele faria sem o Zaykati orientando e protegendo ele? Sempre foi assim, ele era o irmão mais novo, logo tudo em sua vida era
dado pelo outro irmão. Desde comida até aos conselhos mais cruciais. Zaykati era como um herói para Myishi, como...Um pai. Era disso que o garoto o chamava às vezes por algum impulso. Se seu único herói havia caído perante aquela fera, quem garantiria que ele, o caçula fraco, inútil e paralisado faria alguma coisa?
Ao adentrar na pálida luz da lua, o animal fora revelado, era um leão de prata: Uma raça de leões negros cujo em sua juba são encontrados vários espinhos prateados,
como se um porco espinho estivesse abraçado ao seu pescoço. Ele se aproximou lentamente, mostrando os dentes em um rosnado nada amigável. Myishi o esperava, na verdade, ansiava pela morte não importava qual fosse sua fonte. E quando o animal estava prestes a dar o bote, surgiu uma última e repentina fagulha de coragem em Myshi, que rapidamente posicionou a faca para frente do corpo ainda agachado, e ao ter a proximidade suficiente, o garoto a afundou no queixo do animal, se levantando abruptamente para fazer isso. O leão arregalou os olhos e grunhiu e sua juba ficou totalmente eriçada. Myishi sequer deu tempo para a fera
reagir, já puxando a faca de volta e a afundando de novo, dessa vez mais para frente, no pescoço do animal. Ele fez isso por várias vezes, gritando por causa do ódio, e não dos
espinhos que rasgavam sua mão toda vez que ele apunhalava o leão, cujo as patas cederam, fazendo-o desabar. Porém, mesmo diante da morte da fera, Myishi não parava de furá-la, desejando que ela sofresse tanto quanto fez Zaykati sofrer.
Após uns segundos, ele finalmente parou, ofegando, ainda com a expressão de insanidade que agora parecia habitar seu rosto jovem. Quando retomou a consciência, a primeira coisa que sua mente ordenou foi que ele olhasse para as garras do animal, assim que o fez, ele notou que elas eram enormes e grossas, e acima de tudo, estavam limpas. Sem ter a lembrança ao certo dos ferimentos de Zaykati, ele se virou para ter a visão novamente do irmão, mas algo a bloqueava, ou melhor...Alguém.
–Você quem matou esse bicho ai?- Falou um homem alto, parado diante de Myishi. Suas pernas eram estranhas, pois assim como um fauno, os pés e a canela do homem se assemelhavam as patas traseiras de um animal quadrúpede, mas tinha o aspecto meio reptiliano meio aviário que só era identificável graças aos pés expostos. A sua região dos olhos e bochecha tinham desenhos tribais numa cor meio amarelada, seus olhos em si eram de uma cor acinzentada, levemente puxada para o azul, sua pupila lembrava a de um felino. As orelhas lembravam as de um elfo, enormes, pontudas, porém as pontas eram mais quadriculadas. Um par de chifres brancos desciam dos lados de sua cabeça e subiam novamente, se projetando para frente, na altura dos olhos. Seu cabelo era loiro e ondulado, batia um pouco depois do meio de suas costas, e uma cauda dourada balançava calmamente atras das pernas do que agora, olhando bem, definitivamente não era um humano. Ele usava pesadas roupas marrons, com pequenas placas de aço no peito, uma espécie de armadura leve. Sobre seus ombros, além da continuação da armadura, havia por cima das ombreiras de aço, uma capa amarrada, de um tom marrom mais escuro, com o capuz caído. Por mais estranha que fosse suas pernas, ele usava calças que eram adaptadas justamente àquele formato, deixando apenas os seus ''pés'' do lado de fora.
Myishi se afastou, assustado com a figura a sua frente, mas logo teve que parar, impedido pelo corpo do leão, ele olhou para o animal e de novo para o ser em sua frente, sobressaltando-se com a mão dele, abruptamente estendida em cumprimento.
–Cassiano Martinelli.- O ''homem'' falou, olhando para a própria mão, esperando algum movimento por parte do garoto. Myishi hesitante, cumprimentou a mão de Cassiano, ela era gelada, parecia que o ele havia enfiado a mão por horas na neve. Com um balançar tenso e obviamente forçado pela figura esquisita, Myishi recolheu sua própria mão de modo exagerado, chegando até mesmo a recuar o ombro.
–Você sabia que esses leões estão entrando em extinção? É muito errado sair por ai matando eles...
Myishi ainda estava assustado, olhava para o homem ainda com a expressão insana, como se todo aquele êxtase ainda estivesse borbulhando dentro dele.
–Pode falar comigo, garoto. Eu não mordo. — Cassiano disse, sorrindo. Seus dentes pontudos o contrariaram imediatamente.
–Esse leão...-Ele fez uma pausa, o que iria falar a seguir ainda pesava em seu coração.- Matou o meu irmão...Não merecia continuar vivo...
Cassiano olhou para o corpo do garoto mais velho atrás dele, e com tamanha indiferença voltou a olhar para Myishi.
–Lamento informar, mas seu irmão era doido. Atacar um leão de prata? Eles possuem espinhos venenosos, sabia?- Ele fez uma pausa e olhou para a mão de Myishi, cheia de furos causados pelos espinhos, logo depois olhou pro garoto e levantou uma sobrancelha, questionativo.
Myishi olhou para a própria mão e arregalou os olhos, agora que tinha se dado conta do
erro grave que cometera.
–Olha, eu posso até chupar as suas mãos, mas você vai ter que me descolar umas moedas.- Falou Cassiano, com a expressão levemente irônica.
Myishi se afastou de novo, mais assustado ainda.
–E você? O que você tá fazendo aqui de noite?- Ele perguntou enquanto apertava o pulso, como se pudesse impedir o sangue de circular.
–Bem...Eu sou um drakkason. Meu dever é estudar as formas de vida — Ele disse revirando os olhos, como se fosse a milionésima vez que repetisse esse mesmo discurso — e compreendê-las nas mais diversas...
–Já entendi.- Disse Myishi, interrompendo o tal discurso.
–Obrigado por me poupar do resto.- Ele fez uma breve pausa. — Então, legal te conhecer garotinho moribundo. Boa sorte ai com...Ah...Sua morte.- E com isso ele virou as costas, já seguindo seu caminho.
Myishi agora poderia morrer, e ao lado do irmão. Esse deveria ser seu fim, nada do que aquele dragão queria importava agora, morrer seria sua última tarefa. A figura do
drakkason já sumia em meio às árvores. O garoto sentia sua visão começando a ficar turva. Ele estava perto de Zaykati, podia ouvir a voz do irmão o consolando mais uma vez, sentir seu abraço que por tantos anos o protegera desde um pombo que havia levantado voo próximo demais, a um imbatível dragão cuspidor de fogo. Mas algo o puxou das nuvens de volta para terra, aquele sentimento de que não era hora de se
deixar levar. Era como se algo dentro dele o mandasse acordar, correr atrás daquele homem e sobreviver para contar a história da bravura de Zaykati para seus próprios pais. E essa ordem foi cumprida. Myishi correu, cambaleando, para o caminho que Cassiano havia seguido. Ele passou apenas a andar, desorientado, até finalmente cair de cara na terra fria, respirando com dificuldade. Sua visão agora tinha escurecido de vez, e todas as suas forças foram apagadas como a chama de uma vela.
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