Rapte-me
1 Capítulo Único
Geralmente as pessoas são propensas a julgar os outros, sem os conhecer de verdade. Julgam se tem ou não dinheiro, a maneira como se veste, se porta e se fala. Julga-se até a cor dos cabelos. O formato das sobrancelhas.
O ser.
Kuchiki Byakuya estava acostumado com isso. A posição de sua família na Soul Society, e sua própria posição no seleto grupo dos treze esquadrões... tudo era motivo para o próprio ser julgado.
E sim, ele cresceu acostumado com isso.
Os olhos invisíveis que o perseguem a cada passo que dê.
Tirando-lhe a autonomia.
Arrancando-lhe a liberdade.
Desde criança fora treinado para suplantar isso tudo. Essas coisas são ninharias, dizia seu pai. Você é um Kuchiki, não dê atenção a elas.
Não olhe.
Não ouça.
Transcenda.
Normalmente conseguia transcender. Mas outras horas o peso do nome que carregava era demais e ele simplesmente caia no fundo do poço de sua existência.
E não existia uma boia salva vidas para tirá-lo do lamaçal que era sua vida. Nessas horas se sentia fraco, inútil e acabado.
Sentia-se no lixo.
Tantas pessoas o viam e nenhum o enxergava, realmente. A carapaça de confiança que erguera ao redor de si era tão eficiente que ninguém ousava chegar perto. Então ninguém o entendia, realmente.
Como explicar para os desconhecidos que tudo não passa de uma simples camada de autodefesa construída por anos e anos de julgamentos infundados deles mesmos?
Não, não. Era difícil demais.
Pesado demais.
Era mais fácil cair uma vez ou outra no fundo do poço que tentar explicar.
E era o que o capitão do sexto esquadrão estava sentindo nesse momento. Sentado diante da sua mesa de trabalho, ele segurava um relatório e pensava que sua vida era semelhante ao papel em suas mãos.
Teria que ser lido, mas não compreendido realmente. Seria assinado e passado adiante; uma hora seria jogado fora, dando lugar a coisas mais importantes.
Como seu pai fez: deixou-o de lado para dar lugar a coisas mais importantes.
Balançou a cabeça, tentando anuviar os pensamentos. Deixou sua mesa por um instante, levantando-se da poltrona feita para ele sob medida. Na janela de sua sala, pode observar o por do sol alaranjado. Esticou o corpo, relaxando os ombros.
Estava cansado.
Não apenas de sua vida particular; estava cansado do trabalho, fisicamente. Era estafante cuidar de um esquadrão inteiro. Mas essa foi sua escolha. Era assim que saía das crises existenciais: trabalhando.
Renji não estava com ele na sala, havia sido despachado para um trabalho no distrito norte. Provavelmente não voltaria para o esquadrão àquele dia.
Byakuya pegou a última pasta sobre a mesa e caminhou até um sofá branco, no canto direito de sua sala, próximo a porta. Abriu a pasta, tirando um relatório e forçando os olhos a ficarem abertos.
Mesmo sendo cedo, Byakuya estava com sono.
Talvez fosse melhor dormir e esquecer de vez tudo o que o assola.
Dormindo ele era mais feliz, de fato.
Podia sonhar com um certo ruivo tocando seus cabelos e lhe tirando o kenseikan.
–
Renji corria pelos telhados das casas, numa pressa que não tinha tamanho. Estava atrasado. Ele tinha que entregar o relatório que fez da missão que acabara de concluir. E tinha que fechar o esquadrão, também. Essa era uma das coisas que estavam sob sua jurisdição.
Já era noite quando ele pôs os pés no solo do sexto esquadrão.
− Provavelmente já é bem tarde para fazer meu relatório.
Renji caminhou mais um pouco e chegou à sala do capitão. Ele havia visto ainda no pátio as luzes da sala de Byakuya acesas e as janelas abertas. O ruivo estranhou, visto que o capitão cumpria a risca os horários, dificilmente trabalhava até mais tarde. Abriu a porta e entrou, se deparando com um Byakuya completamente adormecido no sofá branco que ficava próximo a porta.
Havia, no chão próximo aos pés do moreno, um relatório caído que Renji fez questão de pegar, guardar na pasta e colocar sobre a mesa do capitão. Voltou para sua própria mesa e guardou algumas coisas que ele havia deixado espalhadas e com calma, foi andando em direção ao Kuchiki, que se encontrava completamente adormecido.
Byakuya podia não saber, nem ter a mínima noção do quão devotado a ele era Renji. O ruivo ficava até mais tarde no esquadrão todos os dias, só para ser o primeiro a ouvir o “até amanhã” pronunciado pelo moreno.
E era o primeiro a chegar só para ouvir o primeiro “bom dia” dado pelo Kuchiki.
Era até difícil para Renji pensar quando ele podia ver Byakuya daquele jeito. Quer dizer, ele nunca podia ver o moreno assim. Embalado num sono bom, que o fazia sorrir, mesmo que muito pouco.
O ruivo foi se aproximando mais e a única coisa que ele conseguia pensar era com o quê podia estar sonhando Byakuya, que pudesse fazê-lo sorrir enquanto dorme.
Imagina, ver o moreno sorrir era algo que Renji presenciou um número tão restrito de vezes que mal conseguia se lembrar de realmente ter visto isso algum dia na vida.
Talvez tivesse delirado com um sorriso do moreno em meio a uma febre.
É, isso era mais plausível.
Renji sentou no braço do sofá e ficou observando Byakuya.
Apenas isso.
Via o peito do moreno subindo e descendo num mesmo ritmo e podia ainda vê-lo sorrindo mais de perto. Podia ver as linhas da face de Byakuya e chegar à conclusão – mais uma vez – que ele era a personificação do que havia de mais perfeito em todos os mundos possíveis.
E Renji ficava feliz sendo o único expectador daquele espetáculo.
Um show particular.
− Renji... – suspirou Byakuya.
O ruivo quase caiu da poltrona com o susto que levou.
Kuchiki Byakuya estava dormindo.
Kuchiki Byakuya estava dormindo, sonhando e sorrindo.
Kuchiki Byakuya estava dormindo, sonhando, sorrindo e falou enquanto dormia o nome de Renji.
Não.
Não podia ser possível.
Isso era informação demais para a cabeça do ruivo.
Renji iria entrar em curto circuito.
Byakuya estava sonhando com Renji e por isso havia sorrido.
As faces de Renji ganharam uma coloração completamente diferente da habitual pele amorenada que ele possuía e seu coração começou a bater tão descompassado que jogou o tronco para trás, com medo das batidas acordarem aquele que dormia ali tão perto.
Byakuya estava sonhando com Renji.
Byakuya estava sonhando com Renji.
O ruivo precisou repetir isso mentalmente umas dez vezes, para se dar conta que realmente o moreno que dormia sonhava, de fato, como ele. E que por sonhar com ele é que o moreno havia sorrido.
E de repente não era mais satisfatório estar perto.
Renji precisava tocar Byakuya.
À distância, que já era pequena, foi vencida de forma trêmula pelas mãos do tenente e o ruivo tocou os cabelos do moreno. E sentiu com esse pequeno gesto um arrepio no corpo inteiro.
Por mais divino que fosse Byakuya, ele podia ser tocado por outra pessoa.
Mas não qualquer outra pessoa.
Podia ser tocado por Renji.
E o ruivo sentia que podia alcançar o moreno. E deixou seus dedos se emaranharem nos fios negros e ali se perderem.
E sim, naquele momento, tudo o que Renji tinha era Byakuya.
Foi um momento lindo.
Até que Byakuya abriu os olhos, ainda sonolento. A partir daí Renji ficou sem reação. Por que, né, como explicar o que estava fazendo? O homem podia pensar que o ruivo estava se aproveitando dele.
− Err... K-Kuchiki s-sama – tentou desesperadamente Renji dizer alguma coisa. Nem que fosse o nome do homem. Só para não ficar no ambiente aquele silêncio constrangedor.
E Byakuya percebeu ali que existia alguém que podia confiar. Pode parecer estranho, mas era isso mesmo que o capitão sentia. Ele via ali que a pessoa que ele queria ter por perto estava, realmente, perto. E mesmo depois de acordar e aprumar o corpo corretamente no sofá branco, a mão direita de Renji ainda permanecia perdida entre os fios de seus cabelos.
E eles ficaram se olhando por um bom tempo, até Renji elevar a mão esquerda até o alto da cabeça de Byakuya.
− Estou retirando seu kenseikan, senhor. Me desculpe, acho que baguncei seus cabelos meio que sem querer – disse Renji, já recuperado do susto inicial.
Nesse momento, nesse pequeno momento, Byakuya sentiu uma alegria sem tamanho. Pode parecer bobagem para as pessoas de fora e ele sequer demonstrou isso para Renji.
Mas estava feliz.
Porque tinha alguém que compreendia ele e essa pessoa estava ali, na sua frente. Uma pessoa que o entendia sem que Byakuya precisasse pronunciar uma palavra. E que com ele a seu lado, Byakuya podia ser, enfim, livre.
Notas finais
Sim, eu fiz maratona Bleach esses dias e fiquei com muita vontade de escrever uma RenBya porque vamos combinar os dois são muito amor ♥
Deixei de ler Bleach na saga Fullbring e tinha chegado a conclusão que havia perdido meu tempo lendo o mangá. Bleach é uma droga. Você odeia, larga, e acaba voltando pra ela D:
Espero que gostem da história.
Bjo =*
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