Ramona Castellyn e os Novos Marotos
3 Expresso de Hogwarts
Estava tudo pronto quando minha tia adentrou o quarto com um sorriso. Nem parecia que eu havia fugido ontem, mas isso não era de se esperar, afinal ela já estava acostumada com minhas fugas. Ela caminhou e sentou-se ao meu lado na cama.
— Animada?
— Muito – admiti. – Alice vai ser minha amiga, está de bom tamanho. Encarar tudo sozinha é sempre mais difícil, foi a senhora mesmo que me disse isso.
Ela riu e concordou.
— Você lembra a mim quando jovem – admitiu, me deixando admirada. – Eu adorava tudo que adora. Era a encrenqueira da família, seu tio vivia me tirando de encrenca... pena que você não tem um Egenor para te tirar das consequências das suas ações.
— Tenho você – sorri.
Ela gargalhou.
— Ah, eu devo ser uma péssima tia! Criei uma delinquente juvenil, como diz sua diretora... mas eu agradeço ela. Ela ajudou muito com a sua transferência, disse que é uma aluna com ótimas notas.
Eu assenti. Realmente era.
— Minhas notas são mesmo boas – confirmei. – E devo continuar com elas assim. Foi o que me impediu de ser expulsa até agora. Vai me ajudar mais para frente, tenho certeza.
Minha tia pareceu pensar.
— Parar de ser uma delinquente juvenil pode ajudar também.
Eu gargalhei. Até parece.
Eu usava uma meia arrastão três quartos, uma bota preta, uma blusa cinza de manga cumprida e uma saia de prega negra pequena. Usava meus cabelos louros, como eu gostava de vez em quando; nunca ficava com uma aparência por muito tempo, vivia mudando, mas vez ou outra voltava ao louro. O gato marrom estava deitado no carpete, dormindo, como sempre.
— Vai levar o gato? – Perguntou minha tia, levantando e pegando o malão fechado, iria leva-lo para baixo. Eu encarei o gato.
— Quer ir pra Hogwarts, bichano? – Perguntei.
Ele se virou e começou a se lamber.
— Eu não vou alimentar ele – afirmou minha tia.
O gato parece ter ouvido.
“Pode me levar, eu deixo”. Desde quando havia sido um pedido para leva-lo? Só queria saber se ele queria ir. Gatos são tão convencidos e arrogantes... não estava querendo leva-lo. Ai eu lembro que tenho um amor profundo por qualquer tipo de animal. Revirei os olhos e olhei para minha tia.
— A senhora tem uma caixa de transporte?
“Eu não entro nessas coisas”.
— Vai como então, inteligente?
“Com você. No seu colo”.
— Acho que nem pode isso.
“E eu pensava que você não seguia regras”.
— E eu pensava que você quisesse comer, mas anda bem tagarela, em – revirei os olhos novamente e olho para minha tia, que olhava tudo com um “que” de interesse.
— Tenho sim – respondeu. Ela pegou o malão e saiu da sala; eu me virei, peguei meu chapéu pontudo negro, coloquei na cabeça e me virei para o gato.
— Estou bonita? – Sorri.
Ele se virou. Gato arrogante! Revirei os olhos, o peguei no colo, fechei a porta do quarto ao sair, desci as escadas com bichano no colo e encontrei minha tia conversando com a funcionária. Dei um leve aceno e rumei para fora, onde se encontrava meu malão. O Beco Diagonal não estava tão tumultuado hoje. Será que Alice já estava na estação?
Minha tia passou, me estendeu a caixa de transporte e me segurou com uma mão. Em segundos de rodopios que eu odiava mas considerava bem útil, nós estávamos na Estação Nove Três Quatro. Haviam tantas pessoas. Tantos bruxos... eu estava pronta para entrar no trem sem mais delongas quando minha tia puxou minha orelha e apontou alegremente para um lado:
— Aquele é Harry Potter! – Ela sorria alegremente.
Eu encarei de longe. Nem sabia como ela sabia quem ele era, de costas e daquela distância... mas aqueles cabelos ruivos. Eram inconfundíveis!
— Gina Potter! – Eu sorri. – Ela é incrível. Queria ter visto um jogo dela quando fazia parte das Harpias de Hollyhead. Agora ela só escreve colunas, mas ela é realmente minha heroína!
Minha tia me encarou.
— Você precisa escolher melhor seus heróis.
Eu arregalei os olhos.
— Que atrevida! Gina Potter é uma excelente heroína, e lutou na Batalha de Hogwarts. Ah, tia, pelas barbas de Merlin! Vou entrar no trem.
Não me despedi de minha tia, a baba-ovo de Harry Potter desde que me entendia por gente. Em meu ver, o único ídolo que ela possuía que também era meu era Newt Scamander.
Ao entrar no trem, eu comecei a procurar Alice. Infelizmente eu sou muito desistente, então desisti depois de cinco minutos e entrei na próxima cabine disponível, me jogando no banco enquanto ouvia o gato reclamar que queria sair da caixa de transporte. Dei de ombros e o tirei de lá, ele indo deitar no outro banco e eu fiquei pensando qual seria a real diferença. O estofado? Deve ser.
Estava pensando no que faria quando o trem começou a andar. Pensei em olhar pela janela, mas lembrei que não tinha nada para ver na saída da estação; afinal, eu ainda estava irritada por não estar em Castelobruxo. Então que o trem partisse!
Foi quando a porta se abriu. Eu estava deitada, então apenas levantei a cabeça para ver quem era e me surpreendi ao ver Alice; ela estava junto com duas garotas. Uma era bem bonita, tinha cabelos loiros prateados, olhos azuis, ela vestia um vestido azul e deveria ser um ano mais velha. A outra tinha cabelos castanhos avermelhados, olhos castanhos, sardas e usava saias enormes e uma blusa de manga sete oitavos. Alice usava calça, uma regata e tênis.
— Oi! – Eu sorri, me sentando. – Alice!
— Oi, Ramona – ela devolveu o sorriso. – Essa é Dominique Weasley. Essa é Lucy Weasley – apontou para a de óculos. – Meninas, essa é Ramona Castellyn. Conheci ela no Beco Diagonal, nós jogamos sopa na cabeça do meu irmão!
Dominique levou a mão na boca, sorrindo e surpresa.
— Você jogou sopa na cabeça de Frank Longbottom?
— Se esse é o nome dele, sim! – Devolvi, sorrindo. – Não vão se sentar? – Disse, depois virei para o gato. – Se forem sentar onde está o gato, podem colocar ele na caixa de transporte.
“Não pode não”. Eu ignorei, não ia falar com um gato na frente dos outros. Obviamente.
Elas se sentaram. Lucy e Dominique se sentaram na minha frente, Dominique pegou o gato no colo e começou a acariciar. Alice se sentou ao meu lado, sorrindo.
— De que casa você é, Ramona? – Perguntou Lucy. – Nunca te vi em Hogwarts.
Esse povo é fascinado em casa?
— Ér... eu fui transferida. Não tenho casa ainda – expliquei.
Dominique e Lucy ficaram animadas.
— Que legal! – Dominique falou. – Nunca vi ninguém sendo transferido.
— Espero que vá para Grifinória – comentou Lucy.
— Ela vai para a Lufa-Lufa – revidou Alice.
— O que você gosta de fazer? – Dominique perguntou, interessada. O gato gostava que a loira o acariciava, pensei em dar ele para ela.
— Gosto de jogar Quadribol, minha matéria preferida é Magizoologia e no meu tempo livre eu faço qualquer coisa que me faça rir muito. E, o mais importante, não sei me apresentar!
Dominique riu um pouco, Lucy apenas sorriu, deu de ombros e se levantou.
— Vou indo – ela se levantou e saiu.
Alice revirou os olhos.
— Lucy está bem chata ultimamente.
Eu olhei com atenção para Alice, ao meu lado, depois para Dominique, atenciosamente passando a mão no gato e me veio uma coisa na mente. Eu encarei Alice.
— Você obrigou elas a virem me conhecerem?
Dominique deixou de passar a mão no gato e encarou Alice. Ela pareceu muito chocada, Alice parecia tentar disfarçar alguma coisa e quando eu comecei a gargalhar, as duas me encararam como se eu fosse louca.
— Que atencioso! Mas não precisa fazer esse tipo de coisa, okay? – Então coloquei os pés sobre o outro banco e encarei Dominique. – O gato parece que gostou de você. Quer ele?
Ela ficou surpresa.
— Não é seu?
— Ele apareceu na minha casa no Beco Diagonal e minha tia disse que não ia alimentar ele. Fiquei com dó de deixar ele lá e trouxe. Mas se gostou dele, ele é todo seu... tem uma caixa de transporte também.
Dominique pareceu pensativa, passando a mão no gato e o analisando.
— Qual o nome dele?
Agora era minha vez de pensar. Com preguiça, acabei desistindo.
— Gato – sorri.
Ela riu.
— Ele não tem nome?
— Não.
Ela riu novamente.
— Fico com ele então.
— Ótimo! – Disse, me levantando, subindo no banco e pegando a caixa de transporte que era rosa. Eu nem havia percebido que ela era rosa. Ela sorriu ao aceitar. O gato deveria estar dormindo, mal sabia o que ele ia dizer quando acordar. E esperava não estar por perto para ouvir. – Você parece legal. Vou estar de olho para ver se não vai maltratar!
Ela sorriu. Aquela garota deveria arrasar muitos corações, logicamente.
— Pode deixar.
Alice pareceu feliz por termos, pelo menos superficialmente e momentaneamente, nos dado bem. Uma hora depois, ela foi embora com o gato, que acordou enquanto ela o colocava dentro da caixa de transporte rosa. Ficamos Alice e eu, conversamos bastante e deu para perceber que demoraríamos um pouco (ou talvez isso não acontecesse, eu esperava que não acontecesse) para que nossa amizade acabasse.
Ao chegar na estação de trem, os alunos primeiranistas estavam seguindo um cara grande e velho, bem grande mesmo. Eu não sabia ao certo o que fazer, mas segui com Alice para as “carruagens”. Antes e chegarmos, ela comentou que as carruagens eram puxadas magicamente. Quando cheguei, vi que eram testrálios, mas pensei se deveria contar ou deixar ela seguir com aquela imaginação.
Como eu via testrálios? Era bem simples. Aos quatro anos, quando eu ainda morava com meus pais, eu vi quando um bando de homens invadiram nossa casa e nos assaltou. Eles haviam amarrado minha mãe e eu, na hora só estávamos nós em casa, mas mais tarde meu pai chegou e eles ainda estavam lá. Eles se assustaram com meu pai e bateram com tudo em sua cabeça... e como se não bastasse, quando ele caiu no chão, eles continuaram a bater. Minha mãe e eu choramos muito.
Demorou anos para eu conseguir superar isso. No começo, minha mãe e eu fazíamos terapia. Quando completei seis anos e comecei a demonstrar que possuía magia, minha mãe jogou toda a culpa em mim. Ela era um aborto, não podia fazer nada... mas eu era uma bruxa? Por que não fiz nada?
Eu me pergunto, mãe: como uma criança de cinco anos que nem havia despertado a magia podia fazer alguma coisa?
E ela continuou. Passou um ano jogando isso em minha cara, além de dizer que eu era uma aberração. Foi quando eu conheci meus tios e vi uma esperança. Quando completei oito anos, minha mãe conheceu um homem e, depois de seis meses, me deu para minha tia e foi morar com ele.
Essa é minha história. Ou uma parte dela. No final vocês descobriram que eu consigo ver testrálios.
Pegamos a carruagem conversamos bastante. Eu havia começado a ficar animada com tudo aquilo.
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