Ramona Castellyn e os Novos Marotos
1 Alice Longbottom
Eu arrumava calmamente minhas coisas no pequeno quarto. A cama estava arrumada, a escrivaninha já tinha todas as coisas instaladas e o guarda-roupa estava posto. Não tinha mais muito o que arrumar, afinal, logo eu voltaria para Castelobruxo e levaria quase tudo que estava ali; aquela mudança me deixara cansada, mas pelo menos não teria que arrumar a loja. Era o que eu esperava.
Suspirei, me joguei na cama e peguei o livro de minha escrivaninha, um sobre animais que havia pegado na loja de minha tia sem que ela soubesse. Ia começar a ler quando a escutei gritando:
— Ramona! Venha já aqui e traga o livro que me roubou!
Ela já havia descoberto? Esse era o real problema de roubar livros raros. Eles só possuem um exemplar. Eu esperava que ela não se preocupasse com ele depois de uma mudança e pensasse que ele simplesmente sumiu, ou então algo do gênero. Mas levando em consideração que eu roubava bastante livros e já fui pega fazendo isso, não tive sorte.
Eu peguei o livro e agradeci por ter conseguido ler ele antes (iria reler), o coloquei embaixo do braço e sai de meu quarto dando ao pequeno corredor no primeiro andar que dava para ver a loja. Eu olhei pelo corrimão e vi minha tia lá embaixo conversando com um homem alto, com cabelos negros, barba rala e olhos castanhos esverdeados. Ele não parecia um cliente.
Desci as escadas e entreguei o livro.
— Oh, obrigada! – Minha tia sorriu. Acho que ela deixaria para brigar depois que o homem fosse embora. – Ramona, este é Neville Longbottom, ele leciona Herbologia em Hogwarts.
Dei de ombros e estendi a mão. Ele a apertou e sorriu.
— Como se sente sendo aceita na escola? – Ele perguntou.
Eu fiz careta.
— Bem, eu nunca fui aceita em Hogwarts. Estudo em Castelobruxo, a escola da América Latina...
— Ainda não contei a ela a novidade! – Sorriu minha tia, me deixando com os olhos arregalados.
Oh, não, ela não tinha feito isso...
— Oh, sim, entendo – ele sorriu novamente. – Bem, só vim entregar as boas novas e a lista de materiais para o ano letivo que começa dia primeiro de setembro. Esperamos que faça parte da nossa escola, menina – ele, então, bagunçou meus cabelos.
Quem aquele homem pensava que era para bagunçar meus cabelos? Eu respirei fundo e dei um sorriso simpático, afinal, ele não precisava aturar o meu mal humor, ele não possuía culpa de nada e a verdadeira culpada teria ele em breve... ele se despediu, pagou algo no caixa e foi embora. Eu me virei para minha tia, com os olhos cheios de raiva e ódio.
Ela sorria, como se não tivesse nada de diferente e ela não houvesse feito nada demais. Eleonor Castellyn tinha meia idade, cabelos enormes e negros, olhos verdes e pele branca, era uma mulher bonita que pela razão de ser obcecada por livros e demais coisas velhas e ter viajado por todo o mundo atrás deles ela não havia se casado e, mesmo sem se casar ou ter filhos, havia me assumido como responsabilidade quando minha mãe me abandonou.
— O que você fez, tia? – Perguntei, tentando manter a calma. Ela havia feito muito por mim...
— Eu mandei uma carta pedindo para que aceitasse você em Hogwarts, agora que vamos morar no Beco Diagonal – ela parecia feliz e satisfeita consigo mesmo. Então, ela encarou a sua loja. – Oh, isso tudo é tão perfeito!
Eu a encarei com raiva.
— Perfeito, Eleonor? Perfeito? – Gritei sem perceber. Quando os clientes me encararam, minha tia arregalou os olhos e abaixei o tom. – Eu não quero ir para Hogwarts. Quero voltar para Castelobruxo, okay? Terminar o terceiro ano, me tornar capitã do time de Quadribol e coisas do gênero. Eu tenho uma vida em Castelobruxo, não podia ter me perguntado se eu queria uma transferência?
— Castelobruxo é longe e eu simplesmente não posso leva-la até lá. O Trem Voador não passa por aqui, para mim é mais prático que estude em Hogwarts...
— Mais prático? – Eu podia sentir que meus cabelos estavam vermelhos. Isso acontecia quando eu sentia muito ódio... meus olhos também deveriam estar. – Eu não quero praticidade. Se seu sonho era estudar em Hogwarts, meus pêsames, mas o meu não é e não pode viver minha vida por mim.
— Eu não estou ligando para o que você pensa, Ramona. Eu não posso aparatar em Castelobruxo, não vou buscar você em alguma cidade do Brasil, eu não tenho tempo para isso, okay? Eu consegui montar minha loja, tenho muitas coisas para fazer, certo? Agora suba, avise seus colegas de Castelobruxo e se prepare psicologicamente para isso. Dia primeiro de setembro, você, Ramona Castellyn, vai para Hogwarts. Está entendendo?
Minha família era feita de mulheres explosivas. O rosto de minha tia mostrava fúria, eu tinha certeza que havia entrado em uma batalha que eu não podia vencer, afinal não tinha como eu simplesmente fugir. Infelizmente, ela que cuidava de mim e eu não tinha para onde ir... então eu simplesmente bufei e subi as escadas, batendo os pés. Quando cheguei no meu quarto, descontei toda a raiva na porta. A janela em minhas costas explodiu e eu me joguei em minha cama.
***
Estava sentada no caixa, lendo um livro sobre feitiços enquanto balançava minha varinha.
— Não pode fazer magia, Ramona – disse minha tia, pegando a varinha passando por mim.
— Me devolve! – gritei, mas ela já estava longe. Eu nem estava fazendo magia!
Eu revirei os olhos e continuei a ler, agora com as duas mãos no livro. Estava absorvida na leitura quando a campainha em cima do caixa tocou; eu abaixei o livro e encarei uma menina. Deveria ter a minha idade, cabelos longos negros, olhos verdes, um sorriso delicado no rosto e parecia bem feliz.
— Em que posso ajudá-la? – Perguntei, já que ela ainda não tinha dito nada.
— Oi, eu sou Alice Longbottom – quem havia perguntado o nome dela? Revirei os olhos novamente. – Eu queria saber se vocês possuem essas ervas.... – ela estendeu a mão. Ela tremia e suava frio.
Eu encarei ela, depois peguei a lista e comecei a ler.
— Esses ingredientes... por que quer fazer uma Poção do Esquecimento? – Perguntei sem perceber.
Ela pareceu desesperada.
— E quem é você para perguntar essas coisas? Só me venda! – Ela quase gritava, parecia realmente desesperada.
Eu ri.
— Calma, querida. Eu só sou curiosa – então, desci do balcão. – Venha. Eleonor, cuida do caixa! Estou atendendo uma cliente importantíssima, filha do Prof. Neville Longbottom!
Ela arregalou os olhos. Minha tia surgiu do nada, sorrindo imensamente, sentando no balcão e assumindo meu lugar. Eu havia conseguido! Então peguei meu livro, sorri e segurei o braço de Alice, a arrastando escada acima e a levando até o meu quarto. Ela estava bem confusa...
— Isso não faz parte da loja – ela disse, entrando em meu quarto.
— Eu sei, logicamente, Alice Longbottom – respondi. Sorri, me deitando na cama enquanto ela continuava sem entender. Eu amava isso! – Então, me diz por que precisa dessa poção? Você quer usá-la para esquecer um ex-namorado?
Ela ficou irritada.
— Não! – Quase gritava. Eu a encarei feliz com a reação da menina. Ela pareceu perceber e fechou ainda mais a cara. – É para fazer meu irmão se esquecer de uma coisa e preciso urgentemente.
Eu sorri.
— Hm, coisas de irmãos! Me diga, o que você quer que ele esqueça? – Eu estava ficando animada.
Ela cruzou os braços.
— E por que eu contaria? – Perguntou ela.
Eu abri a minha escrivaninha e peguei um pequeno frasco com um conteúdo dentro. Sorri e a entreguei.
— Estou te dando esse frasquinho de Poção de Esquecimento. Por conta da casa!
Ela o pegou desconfiada.
— E por que faria isso?
— Por que eu quero saber o desenrolar dessa história. Estou super entediada com tudo que vem acontecendo, minha tia acabou de pegar minha varinha porque não confia em mim e outras coisas mais. Quero um pouco de emoção, só isso – eu estava bem chateada e aquelas coisas, havia desabafado em uma carta para minha amiga em Castelobruxo, mas não era a mesma coisa que falar. – Ah, mas pode ir embora. Se quiser, é claro.
Ela pareceu estar menos enraivecida, até sentou-se nos pés da minha cama.
— O que houve?
Eu a encarei. Nem a conhecia. Poderia falar com ela sobre isso? Dei de ombros e pensei: foda-se.
— Eu sou do Brasil – disse, me sentando. – Estudava na Escola de Magia e Bruxaria Castelobruxo. Era tudo perfeito, sabe? Eu estava quase me tornando a capitã do meu time de Quadribol, era só isso que eu queria, e adivinha? Minha tia teve que vir para cá e ela simplesmente me matriculou em Hogwarts sem eu saber! E eu perdi meio ano do terceiro ano! Vou começar tuuuuudo de novo.
A menina pareceu meio chocada com eu ter contado. Passando alguns segundos, ela se recompôs.
— Mas Hogwarts é ótima – ela tentou argumentar. – Claro que não vai ter seus amigos...
— Nenhum amigo – corrigi. – Não conheço ninguém de lá. E essa coisa de transferência não é uma coisa comum.
— Bem, se quiser pode andar comigo – ela disse. – Vou para o terceiro ano. Sou da Lufa-Lufa.
Eu a encarei.
— Que gentileza – aquilo me parecia caridade. Não estava tão entusiasmada com isso, ela percebeu e abriu um pequeno sorriso.
— Pode dizer que é uma retribuição – ela mostrou a poção que eu havia dado. – E se quer saber, eu quero que meu irmão se esqueça que me viu roubando alguns galeões da minha mãe...
Eu levei a minha mão à boca de espanto.
— Você não parece alguém que rouba! – falei, ficando mais interessada. Talvez eu até apreciasse a companhia dela.
— Eu precisava do dinheiro para comprar uma varinha nova – ela pareceu um pouco envergonhada. – Não queria que ninguém soubesse que a minha quebrou.
Mais interessante a cada momento.
— E como quebrou sua varinha? – Perguntei.
— Não foi eu que quebrei – ela cruzou os braços, irritada. – Foi a Isabelle Nott. Vai conhecer ela quando ir para Hogwarts...
— Uma valentona? Isso vai ser engraçado – afirmei, sorrindo. Eu a encarei com felicidade. – Sabe, acho que você foi a melhor coisa que me aconteceu nesses dias. Agora Hogwarts não parece tão péssimo, só parece ruim.
Ela franziu o cenho.
— Obrigada?
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