Rainy Nights

1 Único - Ombrophobia.


Notas iniciais
Nome estranho o do capítulo, né? Vou explicar. Pra quem não sabe, ombrofobia é a fobia (medo extremo e irracional) de chuvas e as coisas que vem com a chuva (trovões, raios e afins). Eu espero que vocês gostem, e peço novamente desculpas se estiver uma droga. Já faz tempo que não posto nada, e eu juro que tentei.

Chuva – uma maravilha natural concedida pelos céus. Tão simples e corriqueira, mas ao mesmo tempo tão rica e serena que é capaz de acalmar até as almas humanas mais inquietas. Não só é capaz de acalmar, como tem propriedades místicas capazes de inspirar desde o empresário movido por dinheiro sentado na cadeira de um escritório até o poeta de alma livre que vive por sua arte. Um dia chuvoso é um dia de introspecção, de calma e de se deitar sob os cobertores quentinhos e adormecer ao lado de quem mais ama. Para a maioria das pessoas, chuva tem gosto de casa. Isso para a maioria das pessoas. Mas não para Mark Tuan.

Para Mark Tuan, chuva tem gosto de qualquer coisa que não seja de casa. Qualquer coisa que seja ruim. Tem gosto de trauma. Dias de chuva não são para se acalmar e adormecer quentinho ao lado da pessoa amada, mas para usá-la como almofada para se agarrar fortemente toda vez que um raio rasga o céu. E no caso da ausência da pessoa amada, é dia de se encolher num canto escuro do quarto, sentado no chão frio com a cabeça entre os joelhos, tremendo como um animalzinho molhado e rezando para que tudo passe logo.

Seria uma pena se, naquele fatídico dia, Mark Tuan estivesse sozinho no dormitório enquanto chovia forte lá fora.

A chuva era tanta que o mundo parecia querer acabar em água. Os ventos, revoltos, passavam brutalmente velozes por todos os lugares naturalmente possíveis, levando consigo grossas gotas d’água que se chocavam contra as janelas dos prédios com tanta força que pareciam ser capazes de quebrá-las. Os telejornais de Seul mal conseguiam noticiar as condições da cidade em tempo real devido à dificuldade de posicionar e manter em funcionamento os equipamentos. E como se não bastasse o caos já instalado, a prefeitura interrompera a transmissão de um canal de televisão para comunicar à população que por conta das condições meteorológicas, a cidade ficaria temporariamente sem luz.

Mark assistia o noticiário tentando se convencer que deveria ficar calmo. Enrolado em seu edredom como uma borboleta em um casulo, deixando um espaço apenas para seus olhos, dividia sua atenção entre o televisor e a janela, respirando fundo cada vez que um monte de gotas d’água a atingia com força, fazendo-a tremer. E quando a chuva piorou, passou a prestar atenção também na porta, rezando mentalmente para que algum dos garotos chegasse logo. Dificilmente chegariam, mas Mark não queria acreditar nisso.

Só haviam duas coisas que Mark Tuan temia mais que chuva – raios e trovões. E naquele exato momento, as nuvens começavam a se chocar como se estivesse acontecendo um terremoto no céu, e raios brilhavam entre as nuvens como em uma cena apocalíptica.

Mesmo enrolado no edredom e trancado na segurança do dormitório, Mark sentia-se completamente desprotegido. Suava frio, o coração batia num ritmo perigosamente acelerado e a característica fraqueza física daqueles momentos começava a se apossar de seu corpo, impedindo-o de manter os membros rijos. Uma estranha queimação subia-lhe desde o estômago até a garganta, sendo quase impossível de impedir, e arrependeu-se de ter passado a tarde inteira sem comer. Tentou respirar fundo, mas o ar lhe faltava como se estivesse se afogando, e lágrimas começavam a se formar involuntariamente em seus olhos. Agarrou com força o edredom, tirando-o de sua cabeça e tentando desesperadamente puxar o ar para dentro de seus pulmões, e sentiu-se tonto ao quase não conseguir.

Trêmulo, desesperado e enxugando as lágrimas com rapidez, Mark esticou um dos braços na direção do celular que estava posicionado sobre a mesa de centro, na intenção de ligar para qualquer um que pudesse correr até lá e lhe fazer companhia naquele momento. No entanto, aquela noite definitivamente não era a sua, e as nuvens chocaram-se causando o trovão mais monstruoso que o loiro já ouvira, seguido de um raio que caiu bem ao lado do prédio do dormitório, iluminando toda a sala e causando um curto circuito.

Mark não teve tempo nem de ver as faíscas que se formaram nos fios dos postes ou pegar o celular. Tudo que conseguiu foi gritar, e suas pernas moveram-se sozinhas para o quarto com uma rapidez incrível, acertando alguns objetos no trajeto por conta da escuridão.

Empurrou a porta desajeitadamente e correu para o canto do quarto, caindo ao se assustar com o barulho que a porta fez ao bater. Arrastou-se no chão até estar próximo da parede, abraçando as próprias pernas e abaixando a cabeça como uma criança. Cada vez que ouvia o vento soprar por entre os prédios e seus olhos eram incomodados pela claridade dos raios, tremia e se encolhia um pouco mais. Àquela altura do campeonato, já chorava descontroladamente, ao passo que tentava buscar o ar entre os soluços.

Sentia-se assustado, impotente, fraco, completamente desprotegido. Mais do que isso, sentia raiva de si por ter um medo tão... bobo. Para piorar a situação, era a primeira vez que passava uma tempestade sem Jackson desde que chegara na Coreia. Quando os outros não sabiam o que fazer, era sempre ele que estava lá para confortá-lo. E agora, que estava sozinho, sentia-se ainda mais patético por depender de alguém para se acalmar quando estava fazendo escândalo por causa de um tanto de água caindo do céu. Sentia-se estúpido.

A chuva não cessava, o tempo não passava, ninguém chegava. O fato de estar na escuridão e não poder fazer absolutamente nada sobre isso ainda tornava tudo pior.

Mark tomou um susto quando a porta foi aberta de repente, e tudo que conseguiu fazer foi gritar. Não quis olhar. Tinha um medo completamente irracional, porém verdadeiro, de que toda aquela água caindo do lado de fora fosse estourar todas as janelas e fazê-lo se afogar. Só o pensamento já o deixava completamente sufocado.

Atreveu-se a levantar um pouco a cabeça e abrir os olhos para ver quem era, e sentiu alívio pela primeira vez naquela noite ao ver a silhueta de Jackson vir correndo em sua direção. Levantou propriamente a cabeça quando o outro praticamente se jogou sobre ele, abraçando-o com força. Embora estivesse encharcado, estava quente, como sempre. Mark conhecia muito bem aqueles braços, aquele corpo... Era aconchegante. E era incrível o efeito que Jackson tinha sobre ele.

Não protestou quando o mais novo o beijou de forma afoita, apenas retribuiu, sentindo-se seguro pela primeira vez naquela noite. Quando se separaram, ateve-se a abraçar Jackson, agarrando com força o tecido de sua camisa por baixo da jaqueta, tentando controlar o choro.

– Mark... – Jackson suspirou – Me desculpa por ter saído de casa, por ter te deixado sozinho nesse temporal! Eu sou mesmo um idiota!

Mark não respondeu, apenas suspirou, aproveitando o abraço.

Jackson puxou Mark para cima de leve, enquanto se levantava. De mãos dadas, foram caminhando lentamente até a cama, onde Jackson se deitou, deixando que Mark se deitasse por cima dele.

Ficaram assim por longos minutos, apenas aproveitando do abraço um do outro, Mark tentando acalmar seu coração que não parara de bater acelerado desde que a tempestade começara. Todo seu esforço foi jogado por terra quando um trovão estrondoso foi ouvido e Mark se arrepiou todo, agarrando-se mais à Jackson.

– Shh, calma. – Sussurrou Jackson, passando carinhosamente uma das mãos sobre as costas de Mark – Eu estou aqui, não estou?

– Desculpa... – Disse Mark, levantando a cabeça, a voz ainda embargada.

– Você não precisa me pedir desculpas, Mark. Eu só quero que você entenda que nada de mal vai te acontecer.

Mark suspirou. Não era como se conseguisse facilmente entender aquilo.

– Jack... – Olhou para o namorado, os olhos carregados de tristeza – Você me acha estúpido?

– Claro que não, meu amor... – Jackson sorriu – Por mais estranho que seja seu medo, nunca vai ser estúpido. Você não é estúpido.

– Então por que eu continuo assim? – Perguntou, a voz voltando a ficar embargada.

– Não importa. – Jackson suspirou – É o seu medo e eu respeito. Mais do que isso, eu vou sempre estar aqui pra te proteger do que quer que você tenha medo. Porque eu te amo.

– Eu também te amo.

Mark sorriu. Apertou os braços ao redor de Jackson da forma que podia, ainda fraco por causa da crise que acabara de ter. Estava voltando a se acalmar, e só conseguia pensar no quão incrível era o efeito que Jackson tinha sobre si. Um simples par de braços ao redor de seu corpo e algumas palavras sinceras foram suficientes para que ele começasse a se acalmar.

– Jack? – Chamou.

– Hm?

– Essas noites chuvosas não são tão ruins quando eu tenho você.

Para Mark Tuan, chuva podia até não ter gosto de casa, mas Jackson Wang com certeza tinha, e o que ele sentia na presença do outro não havia noite chuvosa ou qualquer outro fenômeno meteorológico que fosse capaz de mudar.

Notas finais
Obrigada pra quem chegou até aqui, e eu espero, do fundo do meu coração, que tenha gostado! Me diz o que achou! :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!