Mars 5

Mars procurava dentro de si as fagulhas de seu ódio, com sua mão em seu peito ele tentou sentir algo, mas cada batida de seu coração mentia, seu peito estava vazio.

Sua carroça balançava como um barco num mar tempestuoso. Do lado de fora uma tempestade estrondava os céus e ventos frios e fortes faziam assustavam suas montarias e as faziam urrar.

Mars não sentia o frio, não sentia medo ou ódio, apenas um vazio, e por mais ele tentasse sentir algo, o mundo a sua volta se fechava, a escuridão o chamava, o conforto do nada.

Em seus sonhos, Mars ainda estava na carroça, mas não importava em que fresta ele olhasse, sua irmã estava sempre no mesmo lugar da estrada, e por mais que a carroça se afastava mais próxima ela parecia estar. Ele tentava fechar seus olhos, tentava dormir em seus sonhos, mas Kalli estava sempre lá.

Ele rezava ao sonhador para ela morrer antes de acordar, ele tapava os ouvidos, mas as mesmas frestas que existiam em seus olhos estavam em suas mãos. Kalli chamava seu nome, perguntava onde ele estava e por que ele a deixou, ele podia ouvir a decepção em sua voz, ela sempre acreditou nele, a única que acreditou nele.

Morre Kalli, por favor, morre logo. Papai estava certo, eu sou um covarde e um fraco. Eu prometi salvar você, eu prometi me vingar. Eu menti. Eu o que eu faço Kalli, eu minto, pra você pra mim. Ele estava certo, ele sempre soube que eu não passo de um Wokam.

Wokam era o feminino de Kam, onde um Kam é forte, um Wokam é delicado, enquanto um Kam protege um Wokam cuida. Quando as outras crianças riram de Mars, elas o chamavam de Wokam.

A palavra lhe levava de volta para seus dias no círculo de lâminas, quando seu irmão ainda era vivo. Foi no círculo que ele soube que ele era diferente de todos os outros da sua Linhagem. No círculo os jovens treinavam combate.

O primeiro a entrar no círculo era o desafiante, o segundo a entrar era o desafiado, o primeiro sempre escolhia quem seria o segundo.

Mars tinha sido o último a nascer, mas aprendeu a falar antes que Kalli ou Alex na mesma idade, ele aprendeu a ler sozinho e aos 6 anos, já lia e escrevia melhor que seus irmãos mais velhos. Mars era popular antes de entrar no círculo, ele tinha amigos, quando seu pai olhava nos seus olhos ele sentia o calor do seu orgulho. Mas quando ele fez 11 anos tudo mudou, quando ele pisou na areia do círculo de espadas, ele entrou um Kam e saiu um Wokam.

A espada pesava na sua mão, e seu medo de ser atingido pelo metal cego que eles usavam para treinar, fazia com que ele fechasse seus olhos quando era atacado. Mars perdeu todos os desafios que recebeu, mesmo das meninas. E num mundo onde seu valor era equivalente a sua habilidade com a espada, Mars passou a não valer nada.

Um dia Edruss o chamou de Wokam e todos riram dele, o apelido pegou e já no dia seguinte todos começaram a o chamar de Wokam. Foi quando Alex desafiou Edruss e durante o duelo quebrou seu ombro. Ninguém nunca mais chamou Mars de Wokam, só que para Mars, essa era uma humilhação ainda maior. Seu irmão era o herói, ele era a vítima a donzela a ser salva. E nada mudou, no silencio de suas línguas a palavra ainda estava viva em suas mentes, visível em seus olhos. Especialmente nos olhos do seu pai, mas isso foi apenas no inicio, não demorou muito para seu pai aprendesse que existia uma solução mais simples que olhar para seu filho com vergonha, não olhar e fingir que Mars não existia era muito mais fácil.

E se não era suficiente para sua humilhação Mars nunca ganhar, tudo que ele tinha que fazer era olhar para seu irmão mais velho. Alex nunca perdia, chegando a desafiar cinco Kams de uma vez e surrando todos. E não importava que Mars fosse melhor que Alex em qualquer outra área, qualquer outro estudo, os Hysku não tinham nenhum heróis se não aqueles nascidos no campo de batalha.

Isso se aplicava também na literatura, onde todas as estórias tinham como heróis valentes soldados lutando contra covardes vilões que sendo incapazes de vencer o herói no combate, usavam de artimanhas para derrota-lo, era sempre a mesma estória contada com pequenas alterações, hora o vilão usava de pactos com os selvagens, hora ele usava veneno, ou raptava o grande amor do herói, na maioria das estórias, no entanto, o vilão usava magica.

O final era sempre o mesmo, o herói matava todos em seu caminho até chegar ao vilão e chegando nele, o matava também. Mars sempre torcia para os vilões, mesmo depois que entendia que a narrativa nunca mudava, livro após livro o vilão sempre perdia. Em cada livro novo, Mars sempre procurava um final diferente, um onde o vilão vencesse e o herói perdesse. Que pelo menos uma única vez, o mundo premiasse a ingenuidade no lugar da força. Foi assim que ele leu todos os livros da biblioteca de seu pai. Milhares de livros, centenas de centenas de estórias com heróis e vilões. Mas em todas ela sem exceção o herói vencia, e Mars sempre perdia no final.

Se Alex estivesse aqui ele teria salvo Kalli. Ele era o herói, e eu não sou nada, tudo que eu sei fazer é falar, e palavras não matam, espadas matam.

Ele abriu os olhos, ouviu as rodas girarem sobre um chão de pedras, fechou os olhos e quando abriu viu o sol, e as rodas giravam em grama, fechou os olhos outra vez, alguém o sacudia, mas seu corpo estava distante agora, as frestas se fecharam, e na escuridão Mars encontrou paz.

Alguém chamava seu nome, lhe roubando o conforto do nada o único conforto que lhe restava, Mars ignorou a voz mas a voz o seguiu em seus sonhos, alguém gritava seu nome, Kalli, Kalli gritava seu nome mas ao abrir seus olhos a voz se transformou na voz de Edruss.

– Onde ela está? – Edruss perguntou.

Mars não respondeu.

– Me solta. Mars me solta.

Edruss ainda estava amarrado, Mars ainda estava solto, mesmo depois de ter ameaçado matar Jordu. Eles não me temem, eles olham para mim com pena.

– Onde esta Kalli?

– Morta.

Isso calou Edruss, Mars voltou a dormir.

– Você tem que comer.

Mars ouviu a voz chamar, só que manteve seus olhos fechados até ser sacudido, ele tentou ignorar, mas as mãos fortes prometiam ir além de apenas sacudi-lo. Ele abriu os olhos e viu Edurad.

– Faz três dias que você não come.

– Eu não estou com fome.

– Você vai comer, e para o seu bem.

Edurad não esperou um resposta e puxou Mars pelo braço para fora da carroça.

Sentados ao redor de uma fogueira em pedras brancas, estavam os demais cavaleiros. O velho mexia a sopa encorpada com pedaços de alguma ave. Jordu lia seu livro, Rattile tocava uma melodia triste em sua pequena flauta. Edruss também estava lá, sombrio com sua cabeça baixa.

Mars quase sentiu prazer em ver seu primo com seus braços amarrados a suas costas, com a corda indo até os pês de Rattile como se ele fosse um mascote. Havia corda o suficiente para ele andar uns dez metros.

Tão logo Mars se sentou ao chão, o velho começou a distribuir os potes de sopa. Ele sorriu ao entregar o primeiro pote nas mãos de Mars. Havia felicidade nos olhos do velho, genuíno entusiasmo por ver Mars de pé, mas o sorriso dos seus lábios eram por demais estendidos.

Ao olhar para a sopa era claro que o velho tinha lhe dado os melhores pedaços de carne. O cheiro forte de comida depois de dias de jejum o deixaram enjoado, ele teria vomitado se tivesse algo em seu estomago para vomitar.

Tirando o velho, nenhum deles olhava para Mars, eles comiam quietos, era como se uma nuvem de desconforto tivesse encoberto a todos. Jordu foi o primeiro a terminar de comer e sair, Rattile pegou sua besta e saiu logo em seguida em outra direção, entregando a corda que prendia Edruss ao velho.

O velho terminou de comer, e pegou outro prato, comeu o segundo prato e depois se serviu de um terceiro, este ele levou para Edruss, que amarrado não tinha como comer sozinho, o velho parecia tirar prazer de alimentar seu primo, uma vez que lhe dava colheradas pequenas. Edruss recebia as colheradas com antipatia em seu semblante, mesmo assim, comia obedientemente da mão do velho.

– Come. – Falou Edurad para Mars.

O pote de sopa estava frio nas mãos de Mars, ele considerou jogar a comida fora, mas sabia que o cavaleiro não estava brincando, era difícil dizer se ele queria ajudar ou apenas uma desculpa para agredi-lo.

Mars se obrigou a beber da sopa, e depois que o cavaleiro continuou a encará-lo, ele se obrigou a comer um pedaço de carne.

– Posso voltar para carroça?

– Você acredita em algo menino? – Edurad perguntou.

Mars apenas olhou para o cavaleiro, os olhos negros de Edurad tinham uma intensidade e ele piscava com uma frequência incomoda.

– Eu perguntei se você acredita em algo menino.

– Não.

– É por isso que você sofre.

– Me deixa em paz.

Mars virou as costas e caminhou de volta. Ele não queria discutir, tudo que ele queria era dormir e esquecer. Mal Mars se deitou no seu canto da carroça quando ouviu que alguém tinha entrado logo atrás.

– Você quer morrer? – Edurad montou sobre Mars, colocando suas duas mãos sobre seu pescoço. – E isso que você quer?

Antes que Mars pudesse responder as mãos de Edurad começaram a estrangulá-lo. Os olhos de Edurad estavam abertos de tal maneira que parecia que tinham crescido de tamanho.

Mars resistiu, timidamente a principio, mas quando estava claro que o cavaleiro realmente queria mata-lo ele lutou com todas as forças, se debatendo e arranhando o rosto do cavaleiro que ainda o olhava intensamente.

– Olha para mim garoto, olha para mim como ela olhou.

Os braços de Mars perderam a força, e sua visão começou a ficar negra. Então Edurad soltou do seu pescoço, e Mars respirou fundo e se arrastou para o canto da carroça apavorado.

– Nós não temos moral Mars. Nós escrevemos códigos e leis, mas as regras que são criadas servem apenas para servir aqueles que as escrevem. – Edurad se sentou ao lado de Mars e continuou – Minha esposa era a mais bela wokam de minha vila, ela poderia ter casado acima do bronze de seu berço, mas me aceitou. Tivemos apenas um ano juntos como marido e mulher. Em todos os meus anos, apenas naquele ano eu soube o significado de ser feliz.

Mars olhou ao seu redor procurando um sinal que alguém estava perto o suficiente para ele chamar por ajuda. Chamar quem? São todos meus inimigos aqui.

– No nosso último dia juntos. – Continuou Edurad – Eu cheguei em casa e a encontrei se lavando em vinagre, seu lindo rosto estava inchado, e seu pescoço carregava marcas de mordidas. Ela lavava entre suas pernas. – Edurad colocou uma mão no rosto de Mars. – Você entende o que eu lhe contando?

– Sim.

– A dor de saber que ela tinha sido estuprada me enlouqueceu. Minha honra tinha sido roubada, e alguém tinha que pagar com sangue. – Edurad fechou sua mão num punho, só que seus dedos eram tortos e dois deles não dobravam mais. – Eu perguntei quem, mas ela se recusou a me dar um nome. Então eu perguntei com meus punhos. – Edurad chorava enquanto representava o acontecido socando o ar. – Eu sabia que o que eu estava fazendo era errado, mas quando o primeiro dente dela caiu ao chão eu enlouqueci, eu implorei para ela me dar um nome, mas ela só me olhava, com medo, com surpresa. Só ela tinha o poder de me parar, mas ela não me parou, por mais que eu batesse nela, ela não falava, já era tarde, quando eu vi que tinha quebrado sua mandíbula. Eu sabia então que não tinha mais volta. Ela não podia mais falar, e eu não podia mais parar.

Edurad mostrou seu punho aberto, seus dedos tortos.

– Ela roubou minha honra, e eu roubei sua beleza, e quando me cansei de bater, seu rosto estava desforme, irreconhecível, apenas seus olhos, seus lindos olhos azuis não tinham mudado. Foi quando eu a deixei ir.

Edurad estrangula o vazio. Mars olha chocado mal respirando, com medo que a estória acabasse e ele lembrasse que ele estava lá. Mal o pensamento passou por Mars e Edurad olhou profundamente em seus olhos.

– Você entende o que eu estou tentando te dizer menino?

Não tenho a menor ideia. – Sim.

– As leis dos Kam chamaram um crime de honra, minha esposa foi renegada pela família e seu corpo foi dado aos animais, quanto a mim, eu era livre aos olhos da lei, minha fúria era justificada pelos códigos de minha Linhagem. Mas aos olhos de meus vizinhos, eu era um estranho, mesmo os maridos que batiam em suas esposas, mesmo as esposas que apanhavam de seus maridos. Bom dia seguidos de silêncio eram o jeito deles me punirem, de me mostrarem que não haveria perdão para meu crime. Como poderia eles perdoarem a mim, quando eu mesmo não sabia como.

O que você quer comigo seu louco?

– Eu tentei me matar, porém meu irmão me vigiava como uma segunda sombra. Ele deixou bem claro que se eu quisesse me matar, teria que mata-lo primeiro. – Edurad parou de falar e quando voltou as palavras saíram com dificuldade. – Eu considerei matar meu próprio irmão.

– E por que não matou?

– Não sei. Derramar o próprio sangue é diferente de derramar o sangue dos outros. – Edurad fechou os olhos. – Eu queimei tudo que tínhamos. O cheiro dela estava em todo lugar, me atormentando com as lembranças do que eu tive e perdi. Mas ela continuou comigo mesmo assim. Ate hoje, não existe uma noite que eu não acorde chamando seu nome, sentindo o seu cheiro.

Edurad parou de falar, mas agora cativado pela estória Mars queria saber mais.

– Por que você não se matou?

– Eu ouvi dizer que Myr me perdoaria. E eu queria o perdão. Quando eu entrei no seu templo eu era um Kam destruído. – Ele apontou para Mars. – Eu estava onde você esta menino. Cheio de ódio e vazio de propósito. Foi quando eu conheci Jordu, Myr o colocou na minha jornada para me mostrar o caminho.

– Que caminho? – Mars perguntou realmente interessado.

– O caminho da verdade, o caminho da luz.

Edurad percebeu o rolar dos olhos em Mars, e como um relâmpago, ele o pegou pela garganta com uma mão e apontando seus dedos tortos da outra em sua direção.

– Você acha que sabe alguma coisa menino? Você não sabe nada. Nos estamos quebrados e perdidos. Minha vida inteira eu lutei contra mim mesmo, certo e errado, certo e errado, mesmo agora, um lado meu diz mata ele. Mostra para ele o que é dor. – Os olhos de Edurad brilhavam de desejo e descontrole. – Nós Kam não temos moral, as verdades não nascem da terra, elas caiem dos céus.

– Myr. – Mars falou sufocando.

Edurad o soltou e sorriu.

– Isso. Quando você ouvir a voz da perfeição você vai saber, e toda sua dor vai ser lavada. E a escuridão que você está alimentado vai dar lugar a luz branca de Myr.

– Então você também ouve a voz dela?

– Ela fala comigo através de Jordu.

– Como você pode saber se ele realmente fala com ela?

– Ele não é o único que a ouve.

Edurad parecia mais calmo, era possível ver suas pálpebras, e seu olhar estava menos intenso. – Jordu não matou sua irmã. Nós não somos seus inimigos, nós estamos do mesmo lado, contra aqueles que mataram sua família. – Edurad se virou para ir.

– Espera.

Edurad não se virou, mas parou.

– O Kam que matou sua mulher, você descobriu quem foi?

– Não. Mas Myr prometeu vingança. – Edurad falou antes de sair.

Mars ficou no escuro da carroça, ouvindo o silêncio da noite. Ele não estava mais com sono. A estória de Edurad era um enigma que ele tinha decifrado, ele queria rir, ele queria gritar a todos e forçarem a eles verem o quão brilhante ele era.

Eu não sou fraco pai, você é fraco, fraco e morto. Alex não seria capaz de sobreviver nesse mundo, como Edruss não é capaz. Eu vou mostrar para você, eu vou mostrar para todos quem eu sou.

Mas, ainda cedo, ele teria tempo de rir amanha, se tudo der certo, amanhã seria um grande dia. O dia de sua vingança.