Mars 3

Eu estou morto? Não, acho que não.

Mars abriu os olhos, no firmamento os amantes estavam um sobre o outro, a lua maior e negra sobrepunha a menor e branca, juntas elas olhavam para ele como um ciclope escondido nos céus, coberto pelo manto escuro da noite.

Sua cabeça latejava como se seu crânio tivesse encolhido, esmagando sua mente, parecia que seu cérebro queria escapar pelas cavidades de seus olhos e ouvidos. A pressão era tanta que Mars imaginava se seria possível que sua cabeça literalmente explodisse.

O sacudir da carroça só piorava a dor. Adicionando o enjoou a sua lista de tormentos.

Ao seu lado estava sua irmã desfalecida e ao lado dela o corpo imóvel de Edruss, ainda com os dois dardos fincados em seu peito e estômago. Pra quê trazer um cadáver?

A carroça era coberta por uma manta marrom, e no seu interior haviam duas bancadas que serviam de cadeira, e o chão era forrado por peles de Tigrakos que serviam de cama. Enquanto que o exterior da carroça era ordinário, o interior tinha sido preparado para dar conforto.

Eles tinham sido vestidos com o mesmo tipo de roupa, o mesmo marrom que cobria a carroça, afinal era o mesmo tecido. Cetra, um dos tecidos mais indigentes encontrado em Caltos. Abundantemente cultivado nas populares fazendas de insetos chamados Cetros. Se existia um tecido que dizia sou pobre, Cetra era esse tecido.

Eles estão disfarçados de fazendeiros.

Mars se sentou na cama de pele ao lado de sua irmã. Quando levou sua mão ao ferimento em sua cabeça esperou encontrar sangue, mas encontrou apenas uma contusão.

Kalli se contorcia e tremia, e no lugar de seu rosto, tudo que existia era uma máscara de agonia e dor. Mesmo inconsciente ela sofria e se remexia. Alguém havia enrolado seu corpo num cobertor, tal qual eles faziam com recém-nascidos em sua terra. Mars puxou sua irmã para seu colo, e afagou suas orelhas do mesmo jeito que ela costumava fazer nas dele quando ele ficava doente.

Esse é o destino dos bravos. Pensou enquanto olhava para o corpo destruído de Edruss. O degolador do Leopardo Rei. O mais hábil de todos os guerreiros da linhagem Hysku. Olha pra você agora.

Edruss moveu o rosto.

– Ele está vivo. Ele está vivo. – Falou Mars num misto de susto e surpresa.

Do lado de fora, Mars podia ver o velho que guiava a carroça pelas brechas da cortina que separavam os dois lados. O velho olhou em sua direção e apenas acenou com a cabeça. Com um bater nas rédeas ele comandou o animal a andar ainda mais rápido, Mars teve que se segurar para não cair.

Edruss sangrava. O sangue pouco a pouco ia acumulando e se mesclava a pele do animal que lhe servia de cama, vermelho com vermelho. Os pelos longos absorviam o sangue inchando e brilhando, caminhando lentamente na direção de Mars.

É só uma questão de tempo para minha vez chegar. Mars pensou em implorar ao sonhador por misericórdia, ele não acreditava que o sonhador fosse mais que um mito. Mas sem ter nada a fazer ou nada a perder, pelo sim ou pelo não, ele rezou.

Quando a carroça finalmente parou de correr, Mars não sabia se horas tinham se passado ou apenas minutos. Ele ouviu o velho descer e caminhar ao redor da carroça até a parte traseira.

A portinhola da carroça foi aberta, do lado de fora Mars encontrou apenas o velho cocheiro. Os outros cavaleiros estavam ausentes.

– O que você quer de mim? – Mars fala ao perceber o velho olhando intensamente na sua direção.

O velho aponta seu dedo com unhas sujas e longas para Edruss.

– Fala, o que você quer?

O velho aponta para a cicatriz de orelha a orelha em seu pescoço.

Seu idiota ele é mudo.

O velho então aponta novamente para Edruss, e Mars arrisca que ele quer ajuda para tirá-lo da carroça. O velho sorri, e depois de colocar Edruss ao lado de uma árvore, eles pegam Kalli e a colocam ao seu lado.

Mars olha ao redor, procurando algo que lhe indique onde eles estão agora. A estrada não é de pedras, todas as estradas que saem de Basilia são de pedra, tirando as menores que levam para lugares que ninguém vai.

O velho voltou carregando um pequeno estojo de madeira que parecia ser ainda mais maltratado e usado que o idoso cavaleiro. Do estojo, ele tirou uma espécie de alicate e uma pequenina faca que curvava para frente. Com esta faca o velho abriu ainda mais o corte no peito de Edruss.

– Minha irmã primeiro. Ele não e importante.

O velho ignorou Mars. Totalmente concentrado, com o alicate ele puxou o primeiro dardo do peito de Edruss. Um jato de sangue subiu ao ar. O velho segurou o braço de Mars guiou sua mão ate o pequeno gêiser de sangue pressionando o ferimento e impedindo o sangue de jorrar.

Mars olhou nos olhos do velho que ele a primeira vista, considerou apenas um senil cavaleiro. Não encontrou senilidade, ou medo, ou mesmo excitação, nos olhos cinza ele via apenas tempo, décadas de convívio com a vida e a morte. Mars conhecia esse olhar, era o olhar do seu Pai, no código da espada, eles chamam esse olhar de o olhar da lâmina.

Quando o velho tirou sua mão sobre a dele, Mars teve que usar seus dois braços para que o sangue parasse de escapar por entre seus dedos. Com as mãos ainda sujas em sangue o velho apertou a bochecha de Mars e sorriu com malícia.

O velho então voltou sua atenção a Edruss e puxou o segundo dardo que estava alojado no estomago. Desta vez não ouve um jato de sangue. Do estojo o velho pegou um pequeno pote com uma pasta verde musgo. Usando então a faca miniatura ele cortou o ferimento num X, e depois aplicou a pasta espremendo ela para dentro com força.

Depois o velho se afastou deixando Mars segurando o buraco não tratado.

– Ei, o que eu faço?

O velho não respondeu e saiu andando, deixando Mars sozinho, com seu primo e sua irmã.

Mars considerou soltar o ferimento e pegar sua irmã e fugir usando a carroça antes que o velho voltasse. Seu primo e claro morreria em segundos.

– Seu cretino, por que não me obedeceu? Você merece morrer.

Ele então relaxou os músculos dos seus braços, o sangue novamente escapou por entre seus dedos.

Chances são que você morreria de qualquer maneira.

Foi então que ele ouviu montarias se aproximando. Droga, tarde demais. Pensou, e com isso voltou a pressionar o ferimento no peito de Edruss.

Eram os dois cavaleiros menores. Somente agora Mars notou o quanto eles eram parecidos, o mesmo pelo escuro, os mesmos lábios caídos nos lados da boca os mesmos focinhos achatados. Sangues puros sem dúvida, com traços claros da Linhagem Bulltip.

Os Bulltip faziam parte do Lilad, as primeiras Oito Linhagens de Caltos formadas pelos Sulaki na Idade dos Bárbaros. Tinham uma reputação de guerreiros destemidos, eles seguiam o Código da Fúria. Onde desde pequenos aprendiam que apenas os destemidos eram merecedores de viver. Tinham 10 provas de bravura, uma diferente a cada ano de vida, começando aos 5 e terminando aos 15, a mais conhecida era aos 10 anos. Conhecida como a queda dos bravos. Um jogo cruel onde o objetivo era pular de lugares cada vez mais altos, aquele que pulasse da maior altura vencia. Era comum crianças quebrarem pernas e braços na queda, em alguns raros casos elas morriam, quando isso acontecia uma festa era dada em nome dos pais, congratulando eles pela bravura de seu falecido filho.

Os Hysku são intelectuais se comparados aos Bulltip.

Os dois cavaleiros ataram suas montarias na carroça e andaram na direção de Mars. Apensar de serem parecidos eles não eram idênticos. O cavaleiro que carregava a besta tinha um corpo mais atlético, já o outro era maior, mais troncudo e musculoso.

– Onde esta o Açougueiro? – Perguntou o troncudo cavaleiro.

Seu cretino, como um mudo me diria onde foi.

– Não sei, ele não me disse.

O cavaleiro menor sorriu.

– Rattile, me acha esse velho vai.

O cavaleiro menor obedeceu. O outro então andou até sua sombra cobrir Mars.

– Não era para ter sido assim.

– Como era para ter sido?

– Garoto, nós viemos salvar vocês, aquele que primeiro levanta a espada...

– Responde pelo sangue. – Mars terminou as palavras do cavaleiro. – Meu pai costumava me dizer isso.

– Eu sinto pela sua família.

– Sente? Você tem a menor noção do que é ver sua família morrer?

O rosto do cavaleiro mudou, seus olhos primeiro ficaram distantes, vendo algo que não estava lá, vendo algo ainda mais terrível em outro lugar. O cavaleiro parecia que queria chorar, mas antes da primeira lágrima correr ele colocou suas mãos no pescoço de Mars, o toque machucava e o sufocava.

– Todos nos sabemos o que e dor menino.

– Você esta me machucando.

O cavaleiro o solta mas o continua a lhe encarrar com uma intensidade desconfortante.

Ele e louco.

­– Vai descansar menino, deixa que eu cuido do seu irmão.

Somente agora Mars percebeu que tinha soltado novamente o ferimento de Edruss. O cavaleiro tomou o seu lugar tapando o buraco com uma de suas mãos.

– Eu não sou um menino, meu nome e Mars. E ele não é meu irmão, é meu primo.

– É um prazer conhece-lo Mars, meu nome e Edurad. O cavaleiro que estava ao meu lado é meu irmão, Rattile.

– O que vocês querem de nós? – Mars espera, mas o Cavaleiro não responde. – Eu tenho o direito de saber.

– Muito bem então. Um de vocês três é o escolhido.

– Escolhido para que?

– Mars, Mars... – Kalli chamava pelo irmão.

Ele correu para seu lado.

– Eu estou aqui. – Ele não tinha coragem de tocá-la, como se ela fosse uma estátua de areia, que ao menor contato fosse se desfazer e escorrer por entre seus dedos.

­– MARS. – Ela gritou abrindo os olhos.

– Eu estou aqui, eu estou aqui Kalli. – Seus olhos se encontraram. Kalli não estava ali, ela delirava de dor, suas pupilas estavam totalmente dilatadas, ele podia sentir o calor de sua febre.

É aqui que você morre? Não me deixa sozinho Kalli, por favor, fica comigo. Mas sua esperança perdia força com cheiro de morte que vinha de dentro do casulo de seu cobertor.

– Mars, você está ferido? – Kalli perguntou olhando para o nada. Eu? Por que você tem que pensar em mim?

– Não, eu estou bem.

– O fogo. – Ela murmurou.

Kalli se contorcia constantemente, cada músculo do seu corpo se dobrava procurando um alívio que não conseguia encontrar.

– Não tem mais fogo Kalli. Você está me ouvindo? O fogo acabou.

Ela fechou os olhos, e seu corpo se debateu menos.

Ela vai morrer.

Mars ficou sentado próximo a árvore com Kalli ao seu lado, de tempo em tempo, ela murmurava algo que ele não conseguia entender.

O velho e Rattile voltaram da floresta trazendo suas mãos cheias de gravetos de madeira e com eles montaram um pequeno fogo.

No fogo eles deixaram uma panela com sopa e uma vara de metal com a ponta achatada. Quanto o metal ficou vermelho. O velho pressionou a ponta incandescente ao peito de Edruss, que acordou urrando de dor quando o buraco no seu peito foi cauterizado.

Edurad segurava Edruss por traz, enquanto ele se debatia tentando escapar. Edruss mordeu o braço do velho quando este tentou colocar amarras em suas mãos. Rattile rapidamente começou a esmurrar o rosto do ensandecido guerreiro, só que para cada murro que ele dava, mais os caninos de Edruss se aprofundavam no braço do velho.

Rattile então pegou uma pedra no chão, com o dobro do diâmetro do seu punho. Foram necessários cinco porradas com a pedra no crânio de Edruss para que ele finalmente desmaiasse.

O velho não chorou, nem gritou, mas gemia um pouco e suas mãos tremiam. Mesmo assim ele tirou de seu estojo linha e agulha, e costurou primeiro o corte na testa de Edruss, antes de costurar a si mesmo.

– Por quê em nome de Eru o maldito, você não falou para seu primo que estamos todos do mesmo lado? – Perguntou Edurad agora de pé.

Nos não estamos no mesmo lado. – Ele não ia me ouvir.

Edurad lhe deu as costas e foi atender as montarias.

– E minha irmã?

Rattile amarava Edruss, braços e pernas. Enquanto o velho costurava seu braço direito com o esquerdo. Nenhum deles respondeu.

Edurad voltou montado.

– Nós temos que continuar. – Falou olhando para Mars.

– E minha irmã? Vai deixar que ela morra sem ser atendida? É sua maldita profecia, e se ela for a escolhida?

– Se ela for a escolhida ela não vai morrer. – Falou Edurad.

– Ela precisa de ajuda. – Mars falou quase em súplica.

– Jordu ficou na cidade a procura de um remédio. Sozinho ele vai fazer um tempo melhor, cedo ou tarde ele nos encontrara nesta estrada.

– E por que não podemos esperar por ele aqui?

– Por que ele não é o único a nossa procura.