Rainha do Gelo
7 Mars 1
Mars 1
Pensa. Ou você pensa ou você morre.
Mars acordou com os gritos alucinantes de dor que vinham de sua irmã. As mãos de sua irmã ardiam em púrpura, tão quais as paredes, o chão e o teto, o purpura devorava tudo à sua volta, inclusive os corpos de seus Pais.
Ele não tinha muito tempo, apenas poucos segundos até que o fogo o alcançasse. Mars sabia que ele tinha que pensar numa saída, mas o trovejar dos gritos de sua irmã, ainda ecoavam em sua mente.
O medo aumentava com a intensidade do calor, ele sentia a histeria se apoderando, sufocando sua mente com os impulsos de seu corpo. O desespero lhe dizia, corra, chore, implore.
Existe uma resposta, se eu me concentrar, se eu pensar, eu encontro uma saída.
Mars sabia que escolher para onde ir era sua única decisão. Era como um teste de múltipla escolha, quatro paredes, quatro opções. Não três. Uma delas estava bloqueada pelo teto que desabou sobre o seu pai.
Olhando a sua volta, ele tentou recriar em sua memória onde ele estava, o fogo já havia engolido tudo, o que podia ser queimado juntamente com o que não podia, distorcendo, destruindo e desfigurando.
Uma estátua, no entanto, ainda possuía seu contorno. No chão Mars viu o que restava da outra. E o salão, o salão com os ridículos relógios de parede.
Das três escolhas, duas o levariam morte, indo ainda mais adentro da mansão. A escolha certa, no entanto, o levaria para a sala de jantar que ficava logo abaixo do quarto de seu pai, uma parede depois dessa e Mars encontraria o lado de fora.
Eu acho.
Tudo que ele tinha que fazer era pensar, recriar o maldito salão que ele apenas passou uma vez. Relembrar por onde ele entrou, e de que lado estaria a sala de jantar.
Eu não sei, em nome dos sete profetas eu não tenho a menor ideia.
Estava ficando difícil de respirar, e com cada respiro ele tossia, e com cada respiro ele sentia o cheiro de morte.
O cheiro guiou seus olhos novamente para os corpos de seu Pai e sua Mãe. Seu pai queimava em paz, como quem estivesse apenas dormindo, um sono tão pesado que nem as chamas ou a viga de madeira que perfurava seu peito tinham o poder de perturbar.
Já o corpo de sua Mãe contavam outra estória; Com seus membros encolhidos e seu torso contorcido, ela trazia no que sobrava de seu rosto um inquietante e perpétuo sorriso, um que apenas aquele que não tem mais pele podem dar. Ela morreu em agonia, debatendo seu corpo, procurando um alívio que não encontrou.
Mas, por pior que fosse a visão, e por mais assustador que foram os gritos, nada era mais terrível que o cheiro que impregnava suas narinas. Eu posso fechar meus olhos e ouvidos, mas como posso fechar meu nariz? Se eu respirar pela boca vou comer as cinzas dos meus pais.
Se existiam livros com descrições do cheiro de pais queimados ele nunca os tinha encontrado. E se tivesse que imaginar, ele teria errado. Não tinha nada de parecido com o cheiro de uma caça espetada ao fogo. Claro que não, o sangue é escorrido, não tem pelos, nem órgãos.
Não, o cheiro de morte por fogo era algo que ele nunca havia sentido. Era algo tão profundamente profano que ao mesmo tempo em que o enojava lhe desafiava a decifrá-lo. Pense em outra coisa, pelo sono do Sonhador pense em outra coisa.
Mas sua mente não lhe obedecia, e num ato de insanidade ela tentava desconstruir o cheiro da morte de seus pais. O cheiro amargo e sulfúrico ele imaginou, vinha dos pelos queimados. Os aminoácidos dos pelos continham enxofre. O cheiro de cobre enferrujado vinha do sangue que ele a muito sabia que era rico em ferro. O cheiro do queimado era o mais fácil deles, vinha da pele. O elemento final, e o mais difícil de decifrar. Era o perfume da podridão, o cheiro que reinava sobre todos os outros, pesado e decomposto, este ele tinha quase certeza vinham dos órgãos por serem ricos em líquidos.
Pequenas partículas, pequenos pedaços do seu corpo. Eles estão dentro de mim agora, eu sei o cheiro, eu sei o gosto. Eu sei e nunca vou poder esquecer.
Uma pequena parte dentro dele gritava, sabendo claramente que o tempo desperdiçado iria lhe custar a sua vida. A vida de sua irmã.
Mars olhou para o tapete queimado ao seu lado. Mesmo depois de cobrí-la, as mãos de Kalli continuaram a queimar, o fogo púrpura parecia não se importar que sem ar ele não deveria existir. Foram necessárias quatro dobras do grosso tapete para apaga-lo. Mesmo assim, Mars não ousou sequer olhar para as mãos dela.
Eu deveria deixar ela pra trás, ela só vai me atrapalhar.
Mas, quando o fogo se aproximou dela, Mars pegou sua irmã e a colocou sobre seus ombros.
Foi então que a solução lhe veio à mente, era bem simples na verdade. O salão que se encontrava não era quadrado e sim retangular. Os lados largos vão para a lateral, onde ficavam outros salões e outros aposentos, correr para esse lado é correr para morte. O quarto do meu Pai ficava na parte estreita.
As vigas que desabaram sobre o seu pai, criaram uma grade entre ele e sua mãe obstruindo a segunda parte estreita do retângulo de fogo.
Não existe escolha. Minha vida esta contada na sorte de um jogar de uma moeda ao ar.
Mars tremia, o enigma tinha sido resolvido, restava apenas agir, antes que fosse tarde demais, não havia uma escolha racional para não correr, mesmo assim, suas pernas se recusavam a mover.
Seu covarde. Vai morrer por ter medo de morrer.
Foi quando as chamas alcançaram sua roupa, se estendendo aos restos de tapete que cobriam a sua irmã. Elas não chegaram a tocar sua pele, não precisaram, o medo de não agir, agora era maior que o medo de agir.
Mars correu; Correu como nunca correu em toda a sua vida.
Ele pisou nas chamas, lembrando dos trovadores em seu Reino que nas festas andavam descalços em brasas vivas. Se eu for rápido, elas não vão me queimar.
A dor em seus pês discordavam de sua lógica, mesmo assim, ele não parou. Nem mesmo quando alcançou a primeira parede em chamas. Usando sua irmã como escudo, ele se atirou através dos muros de fogo.
Para sua surpresa, a parede cedeu com facilidade, era como atravessar uma cachoeira de chamas. Do outro lado, outro aposento, este ele reconheceu, era a sala de jantar, a grande mesa de madeira maciça não estava totalmente em chamas, o único móvel que não tinha sido engolido pelo inferno púrpura.
As chamas estavam altas demais, o chão a volta da mesa estava coberto de entulhos que haviam desabado do teto, não davam caminho.
Sem parar, sem mesmo pensar, Mars subiu sobre a mesa, correu até sua cabeceira, e pulou.
Ele atravessou a segunda parede e caiu do lado de fora da casa. Sua roupa em chamas, juntamente com o cobertor de sua irmã.
Ele se despiu primeiro, usando o tecido para apagar o fogo que queimavam os pelos de seu braço esquerdo. Uma vez nu ele olhou novamente procurando o púrpura maligno em seu corpo, apenas depois de ter certeza que estava limpo ele olhou para sua irmã.
O tapete que a envolvia estava em chamas.
– Não.
Com toda sua força ele tirou o tapete que a cobria, e depois rasgou o tecido delicado de suas roupas que também ardiam. Uma vez nua, Kalli estava livre das chamas.
Por um segundo ele se permitiu olhar para as mãos de sua irmã, a visão deu um nó em seu estômago. O negro da pele carbonizada, com o vermelho do sangue e bolhas, várias bolhas, era uma visão pior que quando ele viu as mãos dela cobertas em chamas.
Mars abraçou sua irmã, eles estavam vivos, era tudo que importava. Foi então que olhou ao seu redor. A mansão de sua Linhagem estava desabando, nos céus ele via os pilares de fumaça negra, cada pilar, era uma casa, cada pilar era uma tragédia tão grande quanto à sua.
Havia centenas de centenas de pilares negros no ar.
Mars não foi o único a sair com vida, seu primo Edruss tinha escapado numa situação parecida. Ele também trazia o corpo de sua irmã em seus braços. Mars não sabia dizer qual de suas primas era. O corpo estava desfigurado pelo fogo.
Edruss também estava quase irreconhecível, seu braço direito, seus ombro e parte de seu rosto tinham sido queimados. Não apenas seu pêlo, mas sua pele. Edruss olhou para Mars chorando, o tom de sua voz foi algo que Mars nunca tinha ouvido antes, e nunca iria ouvir novamente.
– Me ajuda, por favor, me ajuda a salvar minha irmã. – Edruss falou com lágrimas que apenas corriam pelo seu olho esquerdo. Ele provavelmente esta cego do outro.
– Ela está morta. – respondeu Mars sem emoção.
– Não, não. – Edruss continuou a respirar na boca de sua irmã, continuou a pressionar seu peito, mesmo depois que as costelas dela se quebraram como gravetos sobre o seu toque. Ele pode sentir o contorno de um coração que não batia e não bateria mais.
– Nós temos que sair daqui rápido. – Mars falou alto desta vez, Edruss, no entanto, ou não ouviu ou o ignorou, continuando a tentar ressuscitar sua irmã.
– Ela está morta.
Edruss continuou a ignorá-lo.
– Ela está morta seu cretino. – Mars gritou.
Edruss parou e olhou para Mars, um olhar que carregava com si mais que apenas ódio, existia também uma promessa de violência, talvez morte. Mars não se intimidou e continuou a falar tão logo se levantou.
– Meu pai está morto, minha irmã é a Paramor por direito de sucessão. O juramento que você fez com sangue na espada ainda vigora.
Edruss olhou pela primeira vez para Kallissa deitada ao solo, ele olhou então para sua irmã. Sem falar uma palavra, ele se levantou lentamente ainda olhando Mars com um ódio mortal.
– Nós estamos em perigo. – Mars falou como quem tenta explicar algo a uma criança.
– Do que você esta falando?
– Isso não foi um acidente, não é uma coincidência que a cidade está em chamas na mesma noite em que chegamos.
– Quem seria capaz...
– Nós não temos tempo, quem quer que seja vai terminar o que começou.
– O que você quer que eu faça?
– Esquece.
– O que?
– Agora é tarde demais.
Foi então que Edruss ouviu o que Mars já tinha visto. Dos destroços do portão principal, três cavaleiros vinham em sua direção.
Todos os três usando armaduras escondidas dentro de mantos velhos e simples, todos os três armados com espadas longas.
Mars e Edruss se puseram diante de Kallissa.
O primeiro cavaleiro, o mais alto de todos, parou seu cavalo a um palmo deles.
– Eu vim aqui por vocês. – Falou.
– Eu imaginei. – Mars respondeu.
Tudo que Mars conseguia pensar era na velha estória de um capitão cujo barco encontrou a maior de todas as tempestades, com seu barco destruído e sua tripulação afogada, ele implorou ao sonhador para não esquecé-lo. Se foi milagre ou sorte, a estória não conta, mas o capitão sobreviveu, sendo carregado pelas correntes até uma ilha deserta. Depois de agradecer ao Sonhador por sua misericórdia, o capitão colheu uma das frutas da ilha, ainda carregando no rosto o sorriso de seu privilegiado destino, na primeira dentada, do primeiro pedaço, engasgou, e como todos no seu barco, morreu sem ar.
Tudo que eu peço sonhador, é que eles matem Edruss antes de mim.
Fale com o autor