Rainha do Gelo
5 Kallissa 4
Kallissa 4
A deusa da verdade era magnífica.
Nua e de braços abertos, sorria para todos. Um sorriso de piedade e conforto.
Seu corpo era branco, feito de um mármore tão puro e polido que parecia vidro. De longe seu corpo aparentava ser coberto por delicadas linhas que, com a proximidade, sumiam e, em seu lugar, emergiam centenas de pequenas esculturas. Juntas essas pequenas esculturas formavam a escultura maior de “Myr”.
Individualmente pareciam contar uma estória. Sobre obediência, amor e união. Eram famílias de mãos dadas. Quase todas de joelhos. Cada pequena escultura era única, com seus distintos detalhes. Eram agrupados pai e filho, irmão e irmã, noivo e noiva, amigos, e todo tipo de união que se pudesse imaginar.
O nome desse tipo de arte era Dualin. Era umas das características de Caltos, pequenas imagens que juntas formavam uma maior. Todas as grandes Linhagens tinham suas armaduras e símbolos feitos em Dualin. A bandeira dos Hysku era sua grande espada com assas, formada por pequenos bordados da mesma espada com assas lado a lado dando forma a imagem maior.
Kallissa ainda admirava as pequenas formas dentro da estatua, uma em particular – mãe e filha abraçadas – fez Kalli trasbordar a culpa que carregava. Virou-se para sua mãe. Alysta estava junto a Mars, admirando as pinturas da grande guerra. Seu pai ainda se encontrava dentro de uma área do palácio que era proibida a eles. Salvo raras exceções, apenas senadores podiam ter a honra de falar com o Imperador Escravo. O salão onde aguardavam Warion retornar era conhecido como o Jardim das Flores de Tinta.
– Mãe... – Kalli falou com vergonha ao se aproximar deles.
– O que aconteceu não importa minha filha.
– Eu não te odeio.
– Eu sei.
– Me perdoa?
– Você seguiu seu coração, não tem nada a ser perdoado.
– Meu primo foi castigado no meu lugar, e meu pai...
– Seu pai estava errado. É fácil obedecer, deixar que os outros ditem para nós o que é certo e o que é errado. Pessoas boas são capazes de fazer coisas terríveis, em nome da obediência. Belos pássaros presos em gaiolas são apenas um exemplo dessa crueldade despercebida.
– Meu pai me odeia.
– Isso não é verdade.
–Não importa o que eu faça. E quanto mais eu tento, mais ele se afasta de mim.
– O que você lembra-se de seu avô?
– Nada. Ainda não sabia nem falar quando ele morreu.
– Seu avô foi um Paramor muito duro. Reconquistar Chatallary e reclamar a entrada de nossa Linhagem na República era mais que um propósito para ele. – suspirou. – Era uma obsessão que vinha antes de tudo, inclusive de seus filhos.
Continuou, com olhar entristecido:
– Ele falava muito sobre o valor da espada. Forjou seu pai, como um ferreiro forja o metal. Com martelo e fogo. Só que no lugar do martelo, ele tinha a disciplina. Em lugar do fogo, era o calor do combate. Mas crianças não são espadas. Seu pai nunca lutou por glória. Cada vez que ele entrava em um campo de batalha, cada vez que matava, o fazia em busca do amor que seu avô nunca lhe deu.
– Eu me conformo então? Aceito que meu pai nunca vai me amar?
– Ele a ama sim.
– Me diz então por que ele me deserdou? Por que ele deu minha mão em casamento sem ao menos falar comigo?
– Ele teve mais que apenas um motivo, mas um deles minha filha foi para te proteger.
– E os outros motivos?
– Eles não importam.
– O que eu fiz mãe? Por favor, me diz o que eu fiz o que eu fiz pro meu pai me odiar?
– Não importa o que ele pensa, a época das espadas acabou. A guerra acabou. As virtudes de seu pai não são mais virtudes nesse novo mundo, ele tem que aprender as virtudes que todos nos esquecemos. Bondade, empatia e piedade. Não é você que tem que olhar com nossos olhos, nós é que temos que aprender a olhar com os seus. Você é nosso futuro, Kalli.
– O plano foi meu! – intrometeu– se Mars, com raiva. – Você acha que ela é tão especial, que Alex era tão valente. E a verdade? A verdade não importa? Kalli é burra e Alex está morto.
– Meu filho...
– Seguir o coração é uma estupidez. O coração sempre quer o que não pode ter. – ele se vira para a irmã. – Você reclama do seu lugar, e o meu? Onde estou nessa escala? Alex vem primeiro, mesmo hoje, mesmo morto; você em segundo, mesmo errada, mesmo desobediente. E eu? – ele fala sorrindo. – Terceiro de três, sou o primeiro dos últimos.
Alysta vai abraça-lo, porém Mars se afasta e caminha para longe dela, entrando numa das salas desguardadas do palácio. Kallissa vai atrás do irmão.
O salão era espaçoso com o teto alto dividido em três partes. Na parte mais alta, subindo dez lances de escadas, ficava a maioria das cadeiras. Dezesseis ao todo. Na parte mais baixa havia um segundo círculo de cadeiras. Essas apenas a dois lances de escadas. Oito ao todo.
No centro, na parte mais baixa do salão, onde não havia degraus, apenas uma cadeira próxima à parede, deixando o centro livre. Mars estava no ponto mais baixo, sentado na única cadeira com encosto e braços.
– O que você esta fazendo? – a irmã perguntou.
– Não sei. Sendo invejoso e melodramático, eu imagino.
Ela ajoelhou– se a seus pés, ficando com seu rosto na altura do dele.
– Sempre achei que não se importava com o que os outros pensavam sobre você.
– E não me importo.
– Não?
– Eu deveria ser o próximo Paramor. Sou mais inteligente, mais que todos, mais que nosso pai. “O código da espada” é uma estupidez. Todas as batalhas são decididas com números. Não são espadas que ganham a batalha e sim o numero de espadas. O maior numero sempre ganha. Só que você nunca vai ouvir ninguém falar sobre o valor da matemática. Ou o valor da covardia em apenas lutar com a vantagem das probabilidades do seu lado.
– Não é tão simples.
– Para você não é simples. Para mim, sim. Pode-se fazer um cálculo depois de algumas batalhas que vai dizer quanto vale cada um de nossos soldados comparados ao inimigo. Você da um valor numérico a cada terreno, adicionando na vantagem e subtraindo na desvantagem... Outro valor a cada soldado, de acordo com os livros, um soldado experiente vale por cinco inexperientes, um soldado inexperiente tem uma maior chance de morrer em sua primeira batalha que em suas próximas quatro combinadas. Com a informação certa o cálculo é simples. Eu testei esses números com as batalhas em livros de História. Em oitenta por cento das vezes meus cálculos repetiram o resultado de cada conflito.
– Por que você nunca me falou isso?
– De que adianta? Quem me ouve? Eu falei pro nosso pai, eu mostrei os números. Ele não entendeu, e ainda riu de mim. Ele, que não conhece o significado dos números primos, falou que eu não sabia nada sobre nada. Não importa quantas vezes eu esteja certo, ninguém me ouve porque ninguém tem inteligência suficiente para entender do que estou falando.
– Errado. Eles não o ouvem porque você coloca tudo como uma competição. É mais importante provar que os outros estão errados do que mostrar o porquê de você estar certo.
– ELES ESTÃO ERRADOS.
– Não importa.
– Como não?
– Tem que escolher um. Ou você os convence fazendo-os acreditar que a ideia é deles, ou você prova que estão errados e os chama de burros. É um, ou outro.
Ele coloca a mão no queixo, pensando de forma dramática.
– Você está certa.
Ela acaricia as orelhas dele.
– Eu também o amo, bobo.
– Eu não falei que te amava.
– Não, você me chamou de burra. Só que tem coisas que você não precisa dizer e todos sabem mesmo assim. Eu sei que você me ama, e você sabe o mesmo de mim.
– Você não é burra. Comparada a mim é. Só que, comparados a mim, quem não e.
Eles riram. Kallissa olhou séria para o irmão. Mars desviou o olhar.
– Olha pra mim. – ela fala e ele obedece. – Para mim você sempre vem em primeiro lugar.
– Caçador e presa? – ele a convida a brincar.
Ela sorri e acena com a cabeça. Corre para longe dele, escondendo-se atrás das cadeiras do Senado. Mars corre atrás dela tentando tocar em seu pescoço. Quando finalmente consegue, eles tombam juntos ao chão, rindo novamente.
Contudo, desta vez, o riso morre ao perceberem seu pai, parado na amurada, observando-os com pesar nos olhos.
– Pai. – Kallissa falou enquanto se levantava. – Nos só...
– Vamos embora. – Ele falou. Sem esperar uma resposta se foi.
Basília era dividida pelo Rio das Lágrimas. Um rio amplo, profundo e traiçoeiro, onde nenhum barco ousava navegar. Existiam apenas quatro pontes que ligavam o Sul ao Norte. Todas extremamente bem vigiadas.
Porém, não igualmente vigiadas. Aos que vinham do Sul, nenhuma pergunta era feita, enquanto todos os que vinham do Norte eram parados e questionados. Alguns até mesmo revistados.
Ao passar a ponte e olhar pela janela, Kallissa ficou chocada. Era como se tivesse entrado em outra cidade. As casas agora eram de madeira, as ruas mais estreitas, e os habitantes usavam roupas simples. Quase todos mestiços, de sangue impuro.
– Essa área da cidade é um lixo! – reclamou Mars.
– Nossa Linhagem vive desse lado da cidade. – explicou Alysta. – Não se preocupe, nossa Vila fica numa área mais próspera.
– Por que nossa Vila não é na parte boa da cidade? – insistiu Mars.
– Essa é a verdadeira cidade. – explicou Warion, irritado. – O comércio, as forjas, os estábulos e noventa por cento de todo o povo.
Aqui se faz o trabalho da colheita dos frutos. Já o outro lado do rio é apenas o lugar onde esses frutos são consumidos.
– Então toda aquela beleza que vimos não era real? – indagou Kallissa.
– É real para quem as têm. – filosofou Mars.
Nas ruas apenas pobreza e miséria. Quando a carruagem parou para esperar uma procissão, a Myr passar, Kalli avistou uma imagem que lhe doeu o coração.
Sentada no chão de terra, encostada em uma parede suja, estava uma velha canina. Seu pelo não era somente mestiço, mas desnudo em pequenos trechos. Coberta de sarnas, ela expunha seus olhos negros e tristes enterrados em remelas. Mantinha a esquelética mão estendida. A velha encontrou seus olhos, mas antes que Kallissa pudesse fazer algo, eles já estavam novamente em movimento.
– Chegamos. – anunciou Warion, não muito depois.
Ao atravessarem os muros de sua Vila, foram recebidos com uma grande festa. À sua volta, seus primos, sua família, e os demais puros sangues da Linhagem de Hysku. Sua mãe e Mars foram os primeiros a sair da carruagem. Kallissa segura o braço do seu pai antes que ele o ofereça.
– Pai, quero falar com você.
– Agora não é hora.
– Nunca é a hora?
Ele se vira e a encara sério.
– O que você quer Kallissa?
– Eu quero que você me diga o que eu fiz?
– Você sabe o que fez.
– Não, o que eu fiz para você me abandonar.
– Eu não sei do que você esta falando.
– Sabe sim. Está escrito em seus olhos o desconforto que é estar na minha presença. Lembra quando você me carregava nos ombros, quando você me jogava pro ar e me segurava antes deu cair.
– Você age como uma criança, mas você não e mais uma.
– Por que você não admite? Admita que não me ama!
– Tudo é tão simples para você, não minha filha? Uma criança apenas entende o mundo pela ótica do querer.
– Então me diga, pela sua ótica, o que eu fiz para merecer o seu desprezo?
– Você não fez nada. O erro foi meu.
– Qual erro?
Ele puxa seu braço e sai, deixando-a sozinha.
Tão logo ela colocou os pés do lado de fora, sua tia se pôs em seu caminho para abraça-la. Tentou ainda alcançar seu pai, mas agora era seu tio que a impedia.
– Pai.
Agora seus primos estavam à sua volta, cheios de entusiasmo e alegria. Perdendo o pai de vista, resignou-se a se apresentar e ser apresentada a todos. A menor de suas primas, Gigi, não desgrudava de seu braço. Falava, ininterruptamente, sobre tudo que lhe vinha à cabeça.
– Pai!... – grita.
Seu pai não se vira e continua a andar. Qual foi seu erro?
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