Rainha do Caos
2 Dois - Nunca diga que não tem como piorar
Notas iniciais
Meu dia não podia ficar pior.
Depois de ser injustamente castigada por algo que o Ian também tinha uma grande parcela de culpa, acabei descobrindo que meu gato, Tofu, desapareceu. Sumiu do mapa, evaporou. Não tenho nem um pouco de dúvida de que foi o peixe albino do Ian que fez isso. Minha mãe está brava comigo, o que não é novidade. E pra piorar, rasguei a capa do meu trabalho de história.
Ah, sim, e mais um mínimo detalhe: acabei de ser mandada pra diretoria. É, definitivamente não tem como piorar.
– Você está suspensa, Srta. Foster — retiro o que eu disse. É óbvio que pra mim sempre tem como piorar.
Desviei meu olhar do grande narizão da Sra. Gotte e encarei o sorriso malicioso na sua boca.
– Como é que é? — perguntei escorregando na cadeira, intimidada com a cara perversa dela. — Mas eu não tenho culpa de nada!
– É o que os culpados sempre dizem — ela explicou me fuzilando com os grandes olhos escuros dela. — E além do mais, eu peguei você no flagra. Dessa vez você não vai escapar, Foster.
Engoli a seco. Sabe nos contos de fada quando o vilão faz a mocinha se ferrar? Então, está acontecendo isso, tirando, é óbvio, o fato de não haver uma mocinha.
Algumas horas antes...
Foi minha mãe que se ofereceu pra nos levar à escola. Digo nós, porque Ian estuda no mesmo colégio que eu. Quer dizer, mais ou menos.
O St. Claire&Reece é um colégio centenário. Reza a lenda que ele foi fundado por um casal milionário, que prezava a inteligência acima de tudo. Só que algum tempo depois, brigaram e então resolveram meter um muro no meio, separando-o em dois lados. O fundador resolveu aceitar apenas garotos do seu lado, porque já estava cansado da complicação das mulheres. E a fundadora abrigou do seu lado apenas garotas, porque detestava o machismo dos homens. Pelo menos, é essa a história que eu ouvi.
Encontrei Alicia Clarke, minha melhor amiga, logo quando cheguei à Entrada Norte. Ela, como sempre, vestia seu uniforme completo: casaco vermelho perfeitamente passado sobre a blusa branca colocada dentro da saia azul plissada e os sapatos perfeitamente lustrados.
Olhei pro meu all-star desbotado.
– Caramba, Alicia — murmurei indignada enquanto ela vinha na minha direção. — Não precisa humilhar não.
Ela revirou os olhos, colocando uma mecha escura do seu cabelo para trás.
– Elise, você sabe. Se um fio de cabelo meu estiver fora do lugar, minha mãe enlouquece! — Ela riu. A mãe dela era estilista.
Assenti rindo também, mas meu humor sumiu quando vi a Lucy, uma garota loira, e lembrei-me da Barbie.
– O que foi, Elise? — Alicia perguntou aparentemente preocupada enquanto íamos para o corredor dos armários. — Ah, nem precisa dizer. Foi o Ian, não foi?
– É óbvio — resmunguei. — Ele é o que mais coopera pra minha vida ser uma desgraça.
Ela suspirou cansada.
– Ai, não entendo você, Elise — Alicia disse. — O Ian é um cara tão legal.
Fuzilei ela com os olhos.
– É claro, além de não ser você que mora com ele, não é a sua vida que ele faz um inferno todo dia.
Como todo ser humano não é perfeito, Alicia tem o mesmo defeito que a grande parte da população dessa cidade tem: todos acham que Ian é o garoto mais perfeito do universo. Sinto pena dela, mas estou cansada de avisar que ele na verdade é um babaca.
– Elise! — Alguém cantarolou distante. Droga. Essa voz de nariz entupido era reconhecível lá da China.
Assim como nessa escola há aspirantes a presidentas ou cantoras country, há também aspirantes a socialites burras e fúteis. Esse é o caso de Sienna Bloonfield.
– O que foi? — Respondi o menos amigavelmente possível, dando de cara com ela e suas seguidoras fiéis.
Sienna sorriu exibindo aqueles dentes perfeitamente alinhados e brilhantes o bastante para serem capazes de cegar.
– O meu aniversário está chegando — ela disse com empolgação.
Dei de ombros.
– E eu com isso? — Perguntei com descaso.
O sorriso brilhante dela murchou.
– Eu estou te convidando — murmurou ela impaciente.
– Oh — coloquei a mão no peito fingindo surpresa. — O que eu uma mera mortal fez para ter a honra de ser convidada para a festa de vossa realeza?
Sienna Bloonfield estreitou os olhos ficando vermelha.
– Escuta Elise, eu nunca convidaria alguém como você para minha festa de aniversário, se não houvesse algo que eu pudesse desfrutar disso — ela deu ênfase no você como se eu tivesse acabado de sair da lata de lixo. — Se o Ian ver que eu estou me tornando amiguinha da irmã dele, ele mais cedo ou tarde, vai sair comigo.
– Ah, aquela ameba sem cérebro tinha mesmo que estar envolvida nessa palhaçada — bradei furiosa. Uma parte de mim não estava tão surpresa com isso. Sienna persegue Ian desde sempre. — E eu não sou irmã dele — lembrei.
– Ameba tem cérebro? — A loira atrás de Sienna perguntou curiosa. Resolvemos ignorar esse comentário.
– E além dos mais Ian nunca sairia com você — Alicia pronunciou-se pela primeira vez. Havia até esquecido de sua presença.
Sienna gargalhou e eu não consegui encontrar a graça.
–E o que você acha? — Ela apontou para Alicia. — Que ele sairia com você?
Alicia cruzou os braços, mas preferiu ficar quieta. Sienna estalou os dedos e sua outra seguidora entregou os convites pra ela.
– Esse é o seu, Elise. E minha mãe mandou te convidar — ela entregou com descaso um a Alicia.
Abri o envelope roxo e li o convite. Sem querer, uma risada escapou por meus lábios.
– Já tinha esquecido que você fazia aniversário no Dia das Bruxas, sabe — comentei sarcástica.
Sienna revirou os olhos.
– Espero sem falta você e seu irmão na minha festa. Até mais, Foster, Clarke — ela acenou e saiu rebolando com suas amiguinhas pelo corredor.
– Ele não é meu irmão — gritei, mas acho que ela não escutou.
– Eu detesto essa garota — Alicia comentou ajeitando a bolsa no ombro.
– Entra pro clube — sugeri rindo.
A aula de história foi boa por um lado e ruim por outra. Boa porque a professora nem se lembrou do trabalho que havia passado na semana passada e que eu, acidentalmente pra deixar claro, rasguei a capa.
O lado ruim, péssimo e trágico ocorreu porque a Sra. G (a chamamos assim porque o sobrenome dela, quando pronunciado, parece mais alguém morrendo engasgado) resolveu nos passar um trabalho em duplas. De primeira eu até curti, porque Alicia e eu sempre fazemos juntas, mas então a velha disse que as duplas seriam por sorteio.
Sério isso? Sorteio? Com a sorte que eu tenho isso não vai prestar...
E é obvio que não prestou. Meu nome foi anunciado logo depois do de Sienna Bloonfield. Fala sério, sinceramente, eu preferia ter caído com a drogada da Alena do que com a Sienna.
Quando os dois primeiros tempos acabaram, Alicia e eu fomos para o jardim. O que foi um grande erro.
– Eu não acredito que sua mãe te deixou de castigo — ela comentou incrédula. — Às vezes você conta umas coisas tão bizarras do Ian e da sua mãe que não tem como acreditar!
Eu demorei alguns segundos pra digerir.
– Você está me chamando de mentirosa? — Saltei indignada.
Alicia assustou-se com o meu berro.
– Não, não. É claro que não — explicou ela. — Mas é que o Ian não parece ser esse mostro que você fala. As garotas dessa escola morreriam pra conseguir vir até escola com ele como você faz todo dia.
Cruzei os braços.
– O problema é que eu nunca quis isso — murmurei. — Eu faria de tudo pra trocar de lugar com essas garotas.
– Olha aquilo — Alicia apontou para o muro que divide as duas partes da escola. Tinha umas quatro garotas o escalando. — Aposto que três delas estão subindo pra ver o Ian.
Bufei bem alto.
– Ahh, e como é que você sabe? — Perguntei um pouco curiosa.
Ela sorriu de um lado com uma expressão que eu nunca havia visto em seu rosto.
– Porque eu já fiz isso — ela contou tímida.
Arregalei os olhos, incrédula. Eu não podia acreditar nisso. Alicia Clarke, a senhora perfeitinha, escalando o muro do colégio!
– Fala sério — ri alto demais.
– Ué, é verdade. Foi naquela vez que você faltou por causa da diarréia — a fitei um pouco aborrecida por ter feito me lembrar desse fato negro do passado. — Qual é, vai dizer que nunca escalou o muro pra ver o que tem do outro lado?
Neguei com a cabeça.
– Então hoje é um ótimo dia pra deixar suas primeiras marcas digitais no muro do colégio — Alicia me empurrou não muito delicadamente.
– O que? Não, eu não vou fazer isso! — Exclamei. — E a Sra. Gotte? — Perguntei procurando por nossa nada querida coordenadora.
Alicia me arrastou pelo braço, chamando Greta Mason, uma garota do terceiro ano que estava por perto.
– Ouvi dizer que ela está com indigestão. Então não vai vir hoje — Greta murmurou.
Ok, ok. Onde está a velha da Gotte quando mais precisamos dela? Na sua casa, dentro do banheiro, sentada no vaso, lendo uma revistinha de crochê. Como a vida é bela!
Quando eu acordei pra vida, Alicia e Greta faziam uma espécie de degrau pra mim, com as mãos. O muro não era tão alto, só precisava de um empurrãozinho pra subir...
Ahh, esqueci também de dizer que Greta Mason luta kung fu, o quer dizer que ela tem mais força do que uma garota comum. Então, tecnicamente, o empurrãozinho dela combinado com minha falta de coordenação motora me faria voar. E pra minha infelicidade, fez.
Ploft!
Isso foi eu caindo para o outro lado do muro.
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