Rainha da Neve

2 A Profecia do Ermitão


Notas iniciais
Capítulos curtos por enquanto, mas a tendencia é aumentarem com o passar do tempo.

Tudo começou com um ermitão. Sim, é hipocrisia afirmar que tudo começou com ele, afinal acabei de deixar claro que os começos são dificilmente determinados. Essa também, de qualquer jeito, se torna um pedaço perdido no meio de uma história maior, se você considerar como referencial a história da humanidade ou mais do que isso, do mundo. Mas, para contar a história das pessoas que queremos, o começo dos anos 1700 parece longe o bastante.

Tudo começou com um ermitão no começo dos anos 1700. Um ermitão, como todos sabem, é um homem que se isola da sociedade e vive sozinho. Pois então, esse ermitão vivia sozinho no meio da uma montanha norueguesa, perto de uma queda d’água. Seu nome se perdeu no tempo, mas esse não parece ser o fato mais importante sobre figura tão exótica. Tinha uma barba longa e branca, quase nunca usava camisa apesar do frio constante da Noruega, e os olhos eram de um azul bonito.

Além disso tudo, era surdo. Começou a perceber que ensurdecia quando sentiu dificuldades em ouvir a queda d’água ao seu lado. E, como vivia sozinho, não era de seu feitio falar muito. Como ainda não estava enlouquecendo, não falava consigo mesmo. Talvez tenha feito um voto de silêncio também, ninguém sabe dizer ao certo. O que importa é que perto do fim de sua vida, esse ermitão silencioso foi encontrado por alguns jovens ousados que haviam se aventurado pela montanha perigosa e chegaram até o velho. Ele não falava, mas nessa ocasião falou. Assim que viu os jovens, fazendo um esforço claro para que suas palavras fossem ouvidas na voz sem uso, o velho surdo disse suas últimas e tristes palavras.

“Nascerá uma garota… Uma garota cujo poder ninguém será capaz de parar se não um igual… Uma garota que controla o frio… Uma garota que destruirá todos nós… Uma garota que sabe… Sim, ela sabe…”.

Nenhum dos homens entendeu o significado das palavras, mas cada um deles decorou exatamente as palavras ditas pelo ermitão. Chegaram mesmo a perguntar o que ele queria dizer. Mas o ermitão surdo apenas continuou balbuciando suas palavras:

”Os trolls falaram, os trolls sabem das coisas… A verdade… Uma garota…”.

O ermitão suspirou seu último suspiro logo após repetir várias vezes as mesmas palavras e, depois de cavar uma cova para que não deixassem o corpo do velho em qualquer lugar, os jovens continuaram a subir a montanha, sem se atreverem a comentar o estranho fato. Quando chegaram ao topo da mesma, se depararam com algo mais estranho do que o velho ermitão surdo e suas palavras ditas ao vento.

Quando pararam para descansar naquela noite, sentados em pedras que encontraram e conversando alto, eles logo foram surpreendidos quando as pedras em que estavam sentados ganharam vidas e se transformaram em pequenas criaturas. Os homens apenas haviam visto aqueles seres em livros de estórias antes, mas souberam do que se tratava assim que os viram. Eram trolls. Trolls, seres imaginários que haviam acabado de pular dos livros de estórias.

Nenhum deles parecia muito feliz em ter servido de assento para os jovens. Apavorados, eles tentaram pedir desculpas, mas um dos trolls, o mais velho deles, virou-se de imediato para um dos homens e disse, em uma voz irritada:

“Seu futuro é nevado, seu reino sucumbirá, suas terras serão amaldiçoadas com um inverno eterno. Com rajadas de frio, virá a magia negra e alguém que governará com um gélido coração. E tudo perecerá com neve e gelo a menos que sejam libertados pelo sacrifício de uma espada”.

Os homens correram depois de ouvir essas palavras. Desceram a montanha o mais rápido que puderam e ficaram felizes por não terem se machucado como temiam que teriam sido.

O problema era que o homem para quem o troll ancião falou aquelas palavras não era um homem comum. Ele era o príncipe mais novo de um reino independente chamado Arendelle. Assim, ele e seus amigos retornaram a Arendelle e contaram o que havia acontecido em sua viagem. Ninguém lhes deu muita credibilidade e todos eles continuaram suas vidas. Acontece, que mesmo sendo o príncipe mais novo, com as mortes precoces e inesperadas de seu pai e irmãos mais velhos, ele veio a ser o Rei.

As palavras do troll ancião nunca se tornaram verdade enquanto ele foi Rei, mas sempre o atormentaram. Ele escreveu sobre elas com a intenção de alertar futuras gerações, mas com o tempo, as palavras viraram nada mais do que um conto que as mães contaram aos filhos antes de irem dormir, para colocar medo nos pequenos. O Rei, antigo príncipe mais novo, achou que as palavras haviam sido uma maldição por terem se sentado nos trolls, mas, pelas palavras do ermitão que foram ouvidas antes, eu imagino que na verdade era apenas um aviso.

Um aviso de algo que inevitavelmente aconteceria.