Rainha De Copas
3 Capítulo três
Notas iniciais
A calmaria antes da tempestade durou três dias. Nesse tempo meu irmão melhorava da luta com ajuda dos cuidados de minha tia.
No final da noite do terceiro dia, os soldados que protegiam a vila bateram na porta da casa. Estávamos sentadas na sala fazendo companhia uma para outra, aproveitando o calor da lareira enquanto meu irmão dormia em um dos quartos. Com o som virei bruscamente, como se espera o bebum, era algo tão assustado quanto. A tia elegantemente se levantou enquanto espanava de sua longa saia uma poeira invisível.
--- Minha querida venha cá. --- disse estendendo os braços em minha direção, não esperei um momento para pular entre eles. — Ive, preste a atenção, deve dizer que fui a sua casa no dia que seu pai morreu e que eu o esfaqueie quando não parou de bater em Leif e em você, entendeu?--- sussurrou em meu ouvido.
—-- Mas tia...— mentir não era uma idéia que me agradava.
—-- Não importa que tipo de ameaça eles te façam, nem a mim ou a você, ou mesmo a Leif, devemos manter essa historia até o fim, afinal você quer protegê-lo não?
Seu aperto ficou mais forte, como se quisesse passar uma mensagem.
—-- Eu quero, mas...
—-- Leif e eu contamos com você, meu amor.
Dito isso ela me soltou. Naquele momento senti que era um adeus. Olhei para ela como jamais olhei, queria absorver tudo, estava com medo de perder essa chance, minha última.
Cabelos grisalhos presos em um coque frouxo, fios molduravam seu rosto alongado, olhos espichados, agora uma piscina azul de tristeza e preocupação, uma boca cheia, mas pálida como o restante do rosto. Vestia um vestido longo e elegante ao estilo do reino de copas (presente do marido que vivia indo a capital de Wonderland) com babados nas pontas, longas mangas e alto colarinho, sua cor era branca e preta a cor do reino, a cor da vila. Ela não era a mulher mais bonita, mas era uma das mais elegante e imponente que já vi.
Corri para a janela no momento que a tia fechou a porta atrás de si. Os três soldados usavam coletes, botas e luvas tudo de couro marrom. Na cintura, dois levavam espadas, mas o líder pendurava um par de adagas. A cara de contentamento que os de espadas levavam, logo mudou para uma de raiva com a conversa entre os quatro.
—-- Ela está o acobertando!! — Gritou raivoso um dos guardas, tomando uma postura ofensiva com a mão no punho da espada, mas em um movimento elegante, o líder girou seu corpo e esbofeteou-o no rosto calando-o efetivamente.
Olhando com um ar severo para minha tia, disse algumas palavras que por mais que me esforçasse a distância não permitia escutar, agarrou seu braço e, assim, os quatros foram embora.
Na manhã seguinte a notícia tinha se espalhado como fogo em mato seco, “a esposa de um dos membros do conselho matou um membro da vila por um de sangue!” “Que absurdo!” Em pouco tempo todos tinham uma historia maldosa para contar sobre ela.
Esperava que viessem atrás de mim como ela disse, mas não fui incomodada. Assim, com sua confissão, foi condenada, mas como seu marido não estava na vila, não poderia ser executada, então aproveitaram esse período para tentar convencê-la de voltar atrás.
Foi presa em uma jaula para urso manchado, na praça central de frente onde estava sendo montado o palanque de sua execução. Era uma tática comum, fazer com que o condenado assistisse a lenta preparação, sem comida e sem água (normalmente) para que a angustia e desespero cresça em seu peito e escureça sua mente, dessa forma ficando disposto a tudo para fugir da condenação, até denunciar um ente querido.
Uma ótima técnica, uso muito.
Enfim uma semana tinha se passado.
Os preparativos prontos, as pessoas ansiosas para o show, os conselheiros descontentes que nada saiu dos lábios da prisioneira a não ser baixos soluços era a situação daquele dia. Não importava quem fosse convencê-la, ninguém conseguia fazê-la ver que a vida dela era mais valiosa que de um “de sangue”. Esperavam que seu marido pudesse por juízo em sua cabeça, era uma oportunidade boa para a vila.
Ele chegou ao final da semana, montado em um dos poucos cavalos da vila, preto, meio azulado, com olhos pratas, sua capa cravada com o símbolo da vila, uma adaga prata fincada em um toco de tronco enraizado, cobria todo o seu corpo. Do jeito que forçava o cavalo a correr pela vila era obvio que já tinha sido avisado do destino de sua amada. A população já sabia que sua chegada era a sentença e foram se dirigindo também ao local. Leif e eu que o avistamos entrar nos limites da vila já corríamos até a praça.
Quando chegamos estava lotada, sussurros de entusiasmos, outros de tristeza, outros simplesmente de tédio, o fato era que o barulho era alto. Os olhos focaram em Leif, raivosos e desdenhosos.
—-- Ive é melhor nos separarmos aqui.--- Sussurrou.— Vê se consegue se aproximar da tia, ela vai gostar de ver um rosto familiar, eu vou ficar no canto para não chamar atenção.
Aceitei a idéia e corri entre as pessoas tentando chegar à jaula, elas estavam sendo afastadas pelos guardas, mas pequenina dei um jeito de me esconder entre as caixas que ficavam por perto. Aproximei-me protegida pelas caixas e finalmente podia vê-la.
As correntes presas ao chão forçavam-na a ficar de joelhos. Seus cabelos sempre tão alinhados agora assanhados e sujos, sua roupa empoeirada, seu rosto demonstrava cansaço das noites mal dormidas. Preparei-me para chamar sua atenção quando percebi que um homem de capa com passos firmes, mas cautelosos, se aproximava da jaula, levemente dava para perceber seus ombros tremerem. A tia levantou os olhos e com um sorriso conformado e cansado o recebeu. Ela sabia que ele nada poderia fazer.
Ele agachou em sua altura e estendeu a mão para acariciar seu rosto uma última vez. Inclinanda em sua mão, suspirou.
—-- Leif guarda a explicação, por favor, eu te peço cuide dos meus afilhados, meu amor. Eu ... --- Um soluço escapou de seus lábios, seu corpo tremia, não queria morrer, mas a salvação era a condenação de seu afilhado, não poderia viver com isso.
—--“Faça apenas aquilo que possa viver depois com”, né?— Disse com pesar. O ideal de minha mãe.
—-- É. – me senti invadido um momento muito íntimo, pensei em me afastar, mas antes de tomar minha decisão a corneta gritou, era hora. O tio foi afastado da jaula, um jovem mercenário de uns de 16 anos com seu longo cabelo preso, farda de couro e espada na cintura, a soltou permitindo alguns segundos para que tentar se ajeitar.
Entretanto logo já a levava pelo braço em direção a escada do palanque, o líder esperava no primeiro degrau.
—-- Ainda dá tempo senhora. — Disse com um tom cansado. Ela nada disse. --- Solte-a. ela é capaz de seguir por si só, foi a escolha dela.
Obedecendo, o jovem a largou e deu um passo para trás. Com um pouco de dificuldade ela se equilibrou, estava fraca, fora uma semana difícil, preferia ser arrastada, cada passo seu era uma luta interior. Não queria morrer!
Pareciam que eras passaram quando chegou ao centro do palanque. Atrás de si já estava o executor, que usava um gorro preto cobrindo todo o rosto, apenas os olhos azuis eram vistos.
--- Ajoelhe-se senhora. — Sua voz fria de alguma forma penetrava o barulho da multidão. Ela ajoelhou. – Algo a dizer?
Lágrimas escorriam em seu rosto, suas mãos entrelaçadas tremiam, ela balançou a cabeça negativamente. O executor levantou o machado e em um movimento veloz decepou sua cabeça.
Vermelho, muito vermelho.
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