Rainbow War
36 Beijo de vidro
Notas iniciais
POV Hikari
Acordei me sentindo um lixo, mas era o preço a pagar. Sabia que Jack jamais voltaria a me olhar na cara depois do que eu fiz, mas eu sinceramente não queria nem pensar. Depois daria um jeito de ele me perdoar. Levantei-me da cama, usando meu kimono de seda preta, e sai do meu quarto para tomar o café da manhã. Hoje é domingo, o dia perfeito para se enterrar um cadáver.
– Bom dia, Hikari-chan. Como está se sentindo hoje? – perguntou papai, quando cheguei à mesa para comer.
– Estou me sentindo um lixo. Queria poder voltar no tempo, mas não acho que consiga. Se eu pudesse, faria tudo completamente diferente! – respondi.
– Querido, não importa o que você fez. Se existe algo que nunca lhe ensinamos foi abaixar a cabeça para qualquer coisa. Esforce-se para vencer! – disse mamãe, me trazendo uma xícara de café, bolinho de arroz e um pão com geléia.
– Obrigado pelo consolo, Oka-sama. Mas eu queria poder voltar no tempo, seria mais fácil para todos se o passado pudesse ser alterado.
– Mas a vida perderia o sentido. Coma um pouco querido, isso vai levantar o seu humor.
Peguei o bolinho de arroz e devorei sem dó. Estava gostoso, mas passei logo para o pão com geléia, e quando terminei, entornei minha xícara de café. Hoje o dia seria longo, mas eu precisava terminar tudo antes do tempo. Antes do por do sol, eu deveria ter tudo resolvido, se Kami-sama estiver ao meu lado. Espero que ele ainda esteja.
Sai da mesa com educação e voltei para o meu quarto para me arrumar. Se eu queria impressionar pela beleza, teria que caprichar no visual. Pesquisei no baú, algum look que não tivesse usado recentemente e não descobri nada de interessante pra usar. O jeito seria criar alguma coisa nova, ou retirar bem das antigas mesmo. Acho que o visual calça preta desbotada e rasgada, com uma camiseta vermelha e dourada deveria dar.
Agora que eu estava vestido para matar, fui direto me preparar para a parte mais importante: sair de casa e ir para a parada. Você esperava o que? Não sou corajoso que nem o Jack pra dirigir sem carta. Quando dei por mim, já estava chegando perto da parada e o ônibus que eu queria chegando junto. Meu dia de sorte. Fiz parada e ele parou bem na minha frente. OK, sorte até demais.
Se bem que desde sempre eu tenho esse tipo de atração incompreensível para eventos positivos na minha vida. É eu sou sortudo desde quando fui concebido e nunca me acostumei com isso. Tinha até uma cadeira vazia me esperando nas cadeiras altas do lado da janela. Sentei-me e mandei uma mensagem pra ela, só pra avisar que estava chegando. Teria que ser bem rápido.
Depois de algum tempo, levantei-me e dei o sinal. Tinha chegado à minha parada. Quando desci na Direita do Pai, o clima parecia meio tenso. É meio impossível calar um terremoto como o de ontem, mas como que por milagre, ele tinha conseguido. Ninguém parecia lembrar que o shopping tinha abalado as estruturas ontem.
Caminhei por um caminho que nunca tinha visto, mas que já sabia onde ia dar. Quando cheguei à casa azul e branca, bati no portão cinza e esperei até alguém aparecer pra me convidar pra entrar. Sou meio vampiro. E então, a minha loirinha abriu a porta e mostrou sua beleza infantil para mim. Porém, o rosto que estava tranqüilo, congelou em uma expressão raivosa e perigosa quando soube que era eu.
– O que você quer? – perguntou ela, com uma voz cortante.
– Relaxa. Eu só vim conversar com você um pouco. – disse eu, um pouco inseguro das reações que ela poderia ter.
– Mas a gente não tem mais nada pra conversar. Sai daqui! – e ainda tentou bater a porta na minha cara.
– Espera amor! Calma! Eu vim em paz! – disse eu, segurando o portão.
– Estranho ouvir isso do lado que prometeu destruir a Terra. Hikari, você pensa que eu não sei quem é você? Eu não sou burra! – disse ela.
– Ninguém está te chamando disso. Eu só queria que você considerasse um acordo conosco e…
– Acordo? Que acordo? Não tem merda de acordo nenhum com vocês. Eu já deixei bem clara minha posição e não estou disposta a mudar. Nem por você, nem por ninguém.
– Marie, me deixa pelo menos te explicar meus motivos. Se você não gostar mesmo assim, prometo que te deixo em paz para sempre. Mas de qualquer jeito, você não vai poder ficar imparcial. – disse eu, quase implorando.
O portão parou de tentar me amassar e vi que se Marie estava me dando àquela chance, é por que devia mesmo sentir que precisava explicar tudo a si mesma. Talvez mais do que explicar a si mesma o que tinha acontecido entre nós, ela precisava explicar o que estava sentindo. Eu sabia que era uma confusão, pois eu sentia o mesmo. Olhei para ela e dei um sorriso que ela friamente ignorou.
– Entra. – disse ela.
E caminhamos para dentro da casa dela. Eu me lembrei daqueles pequenos instantes em que eu estive ali. Não tinha de fato, entrado na casa dela, mas já tinha percebido que era um verdadeiro lar. Tinha gostado muito das pequenas lembranças que tive com ela. Era estranho voltar ali e não ver nela nenhuma emoção.
– Estou sozinha em casa. Meu irmão mais velho saiu pra casa da namorada, meus pais foram para a casa da minha tia, e meu irmão mais novo foi jogar bola.
– Parece que eu vim em uma hora bem propícia, não? Acho que a possibilidade de sua família me conhecer te horroriza, né?
– Nem tanto. Quer uma água, um café?
– Não, eu estou bem. Quero apenas você
– Isso vai ser um pouco difícil de conseguir. Sou namorada da Nanda.
– E aquele momento que rolou entre a gente? Você mesma admitiu que nunca sentiu nada parecido, nem mesmo com a Nanda. Não acha que está na hora de uma troca?
– Você veio aqui pra me seduzir ou pra se desculpar? Estou ouvindo.
– Que tal irmos para um lugar mais confortável? – disse eu, pegando a mão dela e levando aos lábios.
Ela me guiou até o quarto dela e entrei pela primeira vez no espaço privado dela. No fundo, eu esperava que não fosse a ultima. Sentamo-nos na cama e ela ficou me encarando com aqueles olhos verdes lindos, que tanto me hipnotizam. Eu nem sabia direito por onde começar, mas precisava explicar tudo. Tanta coisa para tão pouco tempo…
– Eu fiz tudo isso pelo Jack. Ele é meu melhor amigo, meu irmão, meu ex-namorado, meu consolo, minha força, ele é quase tudo que eu precisei quando estava sozinho. Eu sinto um amor muito grande por ele, e não suporto vê-lo se machucando então eu fiz aquilo por causa dele. Eu queria muito que você entendesse que tudo o que eu fiz foi por um amor tão inconseqüente, tão imbecil, tão sincero que eu me ferrei por causa dele. Não importa mais pra mim se eu vou sair beneficiado, mas que ele vai sair bem…
– Chega, Hikari. Eu amo a Nanda e mesmo assim, não seria capaz de me vender por causa dela. Eu tentaria achar outra solução, qualquer coisa! Mas eu não iria justamente para o lado oposto ao dela. Eu quero ficar junto dela, e não contra ela.
– Já ouviu a frase: “mantenha os amigos perto, e os inimigos mais perto ainda”. É isso o que estou fazendo. Mantendo ele e Jack perto de mim, no final tudo vai se ajeitar. E com certeza vai acabar tudo bem pra todo mundo.
– E se não der certo? E se você e Jack acabarem se desentendendo ainda mais? Já pensou no que pode acontecer caso ele descubra quem você é?
– Ele não vai descobrir. Eu tenho meu bracelete e posso me disfarçar de Atlântis. Ele nem vai perceber quem está por trás da máscara.
– Todas as máscaras caem. A sua não será exceção. Por favor, Hikari, deixa isso de lado. Sempre tem outra saída. Se você me ajudar, podemos encontrá-la juntos! – disse ela, segurando minhas mãos.
– Tarde demais. Agora eu já virei escravo dele. Mas isso não vai ficar assim, eu prometo. No fim das contas, eu terei minha vingança.
Marie chegou mais perto de mim, e me deu um beijo bem suave. Bem devagar, doce, calmo, carinhoso, aconchegante. Pude sentir que ela estava realmente dividida assim como eu estava, mas isso não importava. Correspondi ao beijo com sutileza e cuidado. Com calma, deitei-a na cama e continuamos nos beijando como se fossemos feitos de vidro. Só parei quando tive de enxugar as lágrimas de nossos rostos.
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